Corpo feminino: um universo desconhecido

Publicado em 29 de março de 2014 por - História

Cobrindo totalmente o corpo da mulher, a reforma católica acentuou o pudor, afastando-a de seu próprio corpo.  Eis porque dirigir o olhar ao sexo feminino prenunciava um caráter debochado, bem representado nos poemas de Gregório de Matos que, ao despi-la, encontrava seu “cono”, “o cricalhão”, “a fechadura” ou “Vênus”. Os pregadores barrocos preferiam descrevê-lo como a “porta do inferno e entrada do Diabo, pela qual os luxuriosos gulosos de seus mais ardentes e libidinosos desejos descem ao Inferno”.

A vagina só podia ser reconhecida como órgão de reprodução, como espaço sagrado dos “tesouros da natureza” relativos à maternidade. Nada de prazer. As pessoas consideradas “decentes” costumavam se depilar ou raspar as partes pudendas para destituí-las de qualquer valor erótico. Frisar, pentear ou cachear os pelos púbicos eram apanágio das prostitutas. Tal lugar geográfico só estava associado a uma coisa: a procriação.

Em 1559, outro Colombo – não Cristovão – mas Renaldus, descobria outra América. Ou melhor, outro continente: o “amor Veneris dulcedo appeletur” ou clitóris feminino. Como Adão, ele reclamou o direito de nomear o que tivera o privilégio de ver pela primeira vez e que era, segundo sua descrição, “a fonte do prazer feminino”. A descoberta, digerida com discrição nos meios científicos, não mudou a percepção que existia, há milênios, sobre a menoridade física da mulher.

O clitóris não passava de um pênis miniaturado, capaz, tão somente, de uma curta ejaculação. Sua existência, apenas endossava a tese, comum entre médicos, de que as mulheres tinham as mesmas partes genitais que os homens, porém – segundo Nemésius, bispo de Emésia no século IV – “elas as possuíam no interior do corpo e não, no exterior”. Galeno que, no século II de nossa era, esforçara-se por elaborar a mais poderosa doutrina de identidade dos órgãos de reprodução, empenhou-se com afinco em demonstrar que a mulher não passava, no fundo, de um homem a quem, a falta de perfeição, conservara os órgãos escondidos.

Nesta linhagem de ideias, a vagina era considerada um pênis interior, o útero, uma bolsa escrotal, os ovários, testículos e assim por diante. Ademais, Galeno invocava as dissecações realizadas por Herófilo, anatomista de Alexandria, provando que uma mulher possuía testículos e canais seminais iguais aos do homem, um de cada lado do útero. Os do macho ficavam expostos e os da fêmea eram protegidos.

A linguagem consagrava essa ambígua visão da diferença sexual. Alberto, o Grande, por exemplo, revelava que tanto o útero quanto o saco escrotal eram associados à mesma palavra de origem: “bolsa”, “bursa”, “bource”, “purse”. Só que, no caso do órgão masculino, a palavra tinha também um significado social e econômico, pois remetia à bolsa, lugar de congraçamento de comerciantes e banqueiros. Lugar, por conseguinte, de trocas e ação. No caso das mulheres, o útero, descrito como uma bolsa, era chamado “madre ou matriz” e associado ao lugar de produção: “as montanhas são matrizes de ouro”! Logo, espaço de espera, imobilidade e gestação. – Mary del Priore (“Histórias Íntimas).

nudez

 

“Retrato de Jovem Mulher” de Rafael Sanzio (1540-45).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!