Conselhos de um espírita a D. Pedro II

Publicado em 9 de novembro de 2014 por - História do Brasil

A vida do barão  de Santo Ângelo era dura. O título  que recebeu tardiamente  não lhe dava nenhuma regalia. Nasceu e morreu  pobre. Dos maiores  artistas  do país, ele não  tinha  dúvidas:  no Brasil, a arte  era um “elemento de luxo individual  e não um elemento  de civilização”. O baronato veio em 1874,  quando sua situação  financeira  e saúde se deterioravam. Manuel  José de Araújo  Porto Alegre,  o futuro  barão, nascido a 29 de novembro de 1806, foi para a corte aos 21 anos estudar desenho  com o artista  francês Jean-Baptiste  Debret  na Academia Imperial  de Belas Artes. Era conhecido  entre seus pares como “o homem-tudo”: poeta,  escritor, jornalista, arquiteto, orador, crítico e historiador da arte e diplomata.

Protegido  do mordomo do imperador, Paulo Barbosa da Silva, se aproximou de dom Pedro II, de quem se tornou amigo. Depositava no governante todas  as suas esperanças  de melhoria  do país. E entusiasmava-se: “Senhor, moço como sois, podeis abarcar esse império de um extremo  ao outro  e levantá-lo  ao nível das nações mais nobres”.

Em carta  a dom Pedro II,  após o fim da Guerra do Paraguai, rabiscou  um enunciado dramático: “o Brasil às vésperas de um triunfo  ou de uma catástrofe”. E, nas linhas a seguir, assumiu,  sem disfarces, o discurso  espírita,  ditando ao soberano o que fazer:

As minhas  apreensões  são grandes,  maiores  são minhas  esperanças  porque  confio  em Deus.  Nada  será,  Senhor,  se Vossa Majestade Imperial começar já o remonte  de sua Grande  Missão, a que o colocará  no céu, ao lado de Deus, e na Terra,  a par dos maiores homens da humanidade.

Os soberanos de sua natureza são mandados; e Vossa Majestade  Imperial  tem  de ser o apóstolo da verdadeira liberdade da regeneração do Brasil e o imortal  criador  da segunda  via do Império Americano  sem a qual ele deixará  de existir.

Há princípios  nos quais está Deus e os homens. O primeiro vive eternamente e os segundos  morrem  como coisas transitórias […] A medicina  social  é mais  difícil do  que  a corporal porque deve curar  e impedir  as moléstias.  Prevenir  as coisas a tempo  e impedir  desastres  é a sabedoria […] Vossa  Majestade Imperial, além de outros  pactos,  já teve dons bem extraordinários, que bel lhe mostraram que é protegido por Deus e de que este o guarda para  cumprir  uma santa  e grande missão na Terra!

Mas  o  grande  inimigo,  segundo  os espíritos,  martelava Porto-Alegre, era a escravidão, “pústula gangrenosa que procede  de vícios                                     internos” e que fazia dos “déspotas em casa” maus cidadãos  na rua. E a Dom Pedro, “Imortal benfeitor”, pedia:

 Acabai com a escravidão,  Senhor. Porque  Deus assim deter- mina e porque  vos falo em Seu Nome. Aos pés da estátua  de Vossa Majestade se colocarão emblemas marciais, troféus  de vitória, as recordações e todos  os florões do mais belo simbolismo. Mas nenhuma dessas coisas falará  tanto  ao coração  humano como as imagens  desses escravos  livres, sorrindo em grata  adoração por seu Imortal  Redentor.

Dom Pedro levou a sério as recomendações? Certamente, não, mas talvez ainda se lembrasse  da premonitória correspondência no dia em que foi traído  pelo golpe republicano… E como Porto Alegre  sabia de tudo isso? Resposta: “Estou vendo porque minha alma está no futuro”.

Mary del Priore (“Do Outro Lado- a História do Sobrenatural e do Espiritismo”, Editora Planeta, 2014).

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A família imperial.

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