Concubinatos multiplicados – mulheres e matriarcas

Publicado em 21 de novembro de 2013 por - História do Brasil

Já que falamos de Chica da Silva, cabe entender um pouco mais da realidade das mulheres nos tempos coloniais, de como elas enfrentavam a difícil tarefa de chefiar as famílias

 

A expansão territorial dos séculos XVII e XVIII em direção ao interior da colônia foi motivada pela descoberta das minas de ouro e pelo crescimento da pecuária – nessas áreas, o número de homens era superior ao de mulheres, e os concubinatos, disseminados. A partir de meados do século XVIII, teve início a urbanização da colônia. Esse conjunto de situações promoveu enormes ondas migratórias, que obrigavam os colonizadores a se locomover da costa para o interior da colônia em busca de trabalho e ocupação. Tais deslocamentos alteraram a estrutura demográfica das populações e incentivaram o aparecimento de formas diferentes de família.

A existência de mulheres sozinhas nas cidades coloniais, por exemplo, dava uma característica especial às famílias, que se constituíam, muitas vezes, apenas de mãe, filhos e avós. Como hoje, multiplicavam-se os lares monoparentais com chefia feminina. Algumas dessas famílias incluíam escravos e escravas. Outras, parentes ou compadres e comadres “agregados”. Frágeis? Não. Tais arranjos familiares permitiam às matriarcas elaborar agendas extremamente positivas para os seus: casavam filhos e filhas interferindo na escolha do cônjuge; controlavam o dinheiro com que cada membro colaborava no domicílio; punham em funcionamento redes de solidariedade; agiam, sós ou em grupo, quando deparavam com interesses contrariados.

Havia também as tradições africanas, vindas do Reino do Congo ou de Angola, regiões onde as etnias matrilineares ajudavam a consolidar o padrão da família monoparental, com mulheres na chefia do domicílio. As exigências de um cotidiano difícil moldaram as funções da mulher na vida do casal. Muitas tiveram que tomar a frente dos negócios quando da ausência do parceiro, de sua morte ou partida. Em muitos casos, a casa e o lugar de comércio ou de produção de gêneros se confundiam. 

Os filhos das uniões não sacramentadas eram considerados ilegítimos pela Igreja. Para se ter uma ideia de como os índices de ilegitimidade eram elevados, em Salvador, na Bahia, entre 1830 e 1874, quatro quintos das crianças negras e mulatas eram ilegítimas, e, em São Paulo, entre 1745 e 1845, elas perfaziam 39% dos nascimentos. Em Vila Rica, Minas Gerais, em 1804, os ilegítimos eram, em mais de 98%, crianças escravas.

Ao juntar o jornal – espécie de comissão que recebiam por trabalhos cotidianos –, as escravas conseguiam, muitas vezes, comprar a liberdade do companheiro com o qual se casavam. Casais assim formados sobreviviam razoavelmente. Alugavam um quarto em um cortiço ou casinha nos arredores da cidade e criavam os filhos. Para não atrapalhar o trabalho dos pais, as crianças podiam ser educadas por amigos ou parentes, em cujas casas cresciam e aprendiam os primeiros ofícios. Deixar a educação dos filhos a cargo de outras pessoas prenunciava hábitos ainda hoje presentes entre mães pobres. Apesar das medidas legais e do preconceito contra concubinatos, estes predominavam.

 – Mary del Priore

 

 

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