Comunismo e anticomunismo no Brasil: novos e velhos conflitos

Publicado em 17 de março de 2015 por - História do Brasil

Em meio ao debate político e partidário que tem dominado a mídia, as conversas e as redes sociais, chamou-me a atenção que, em 2015, mais de 20 anos depois do final da Guerra Fria, o comunismo ainda seja um dos temas mais comentados pelos brasileiros. Por isso, esse artigo resgata, de maneira breve, a presença das ideologias “de esquerda” no Brasil e a reação que elas provocaram ao longo da nossa História.

O pioneiro da divulgação do ideário socialista entre nós foi o pernambucano Abreu de Lima (1794-1859), que lançou, em 1855, o livro “O Socialismo”. Num país escravista, onde nem sequer se falava em trabalho livre e assalariado, o livro caiu como uma bomba. A palavra não tinha então o sentido que lhe será dado ao final do século XIX e o autor assim a definia: “é a tendência do ser humano de formar uma só imensa e só família”. Sua preocupação era com a justa distribuição de riqueza e com a liberdade de crença e fé, o que lhe valeu o ódio da Igreja católica, conta Mary del Priore. Houve alguns núcleos socialistas no período, mas com a chegada da República (1189) é que os trabalhadores começam a tentar se organizar pelos seus direitos – enfrentando violentas repressões.

Muitos dos imigrantes europeus que chegavam ao país, no início do século passado, vinham com ideologias ainda desconhecidas dos nossos trabalhadores: anarquismo (principalmente), sindicalismo, socialismo. Essas ideias assustavam os governantes e os empresários, que viam esses indivíduos como baderneiros e subversivos, prontos para contaminar as mentes dos brasileiros. Em 1917 (ano da Revolução Russa), houve uma greve geral que mobilizou milhares de trabalhadores brasileiros, malgrado as tentativas de repressão. Os patrões tiveram que ceder, pelo menos em um primeiro momento. Houve outras greves importantes, bem como a deportação de imigrantes considerados “perigosos”.

Em 1922, é criado o Partido Comunista do Brasil, que no mesmo ano é colocado na ilegalidade. Sua trajetória é assim: clandestinidade e legalizações. No governo Getúlio Vargas, que começa com a Revolução de 30, o PCB é novamente lançado na ilegalidade. Seus membros se juntam a outros oposicionistas na ANL (Aliança Nacional Libertadora). Nessa época, os ideais socialistas e comunistas começam a influenciar o Exército. Em novembro de 1935, no melhor estilo das revoltas tenentistas, os quartéis se levantaram contra o presidente. A Intentona Comunista, como ficou conhecida, serviu de pretexto para perseguição não só de comunistas como também de todos os grupos que faziam oposição ao governo; entre eles havia anarquistas, sindicalistas independentes e até políticos liberais. Mais importante ainda: a revolta consolida a aliança entre o presidente e as forças armadas.

Os comunistas passaram a ser vistos como os grandes inimigos da pátria. Apoiado nas forças armadas, Vargas decretou o Estado Novo. Em 1937, fez veicular pela imprensa o Plano Cohen, suposta conspiração comunista, justificativa para o golpe. Tal plano, sabidamente falso, de autoria de grupos de extrema direita, previa, por exemplo, o estupro generalizado. Sob a alegação de que uma nova intentona era tramada, Getúlio revogou a Constituição. Vargas foi responsável por uma feroz repressão aos comunistas. Em 29 de outubro de 1945, sob pressão do Exército, deixou o poder.

Vargas planejava, entretanto, a sua volta. No seu caminho havia, porém, um obstáculo: o Exército, que o havia deposto. Para muitos militares, contudo, Getúlio, por ser um político com forte apelo popular, servia como antídoto ante o risco do comunismo. Em 1945, o PCB, apesar de legalizado às vésperas das eleições, conseguiu eleger 14 deputados e Luís Carlos Prestes como senador; o que representa o voto de aproximadamente 12% do eleitorado brasileiro, sendo que em algumas cidades, como o Rio de Janeiro, tal cifra atingiu 20%. Isso fez muita gente se preocupar.

A configuração da política mundial, após o final da 2ª Guerra era muito diferente – lembre-se que a URSS lutou ao lado dos aliados. Para os Estados Unidos, o comunismo tornou-se a principal ameaça. Por volta de 1950, o sistema comunista havia deixado de ser uma experiência isolada, sendo agora compartilhado por um número crescente de países do Leste Europeu. O quadro mundial era ainda mais tenso em razão do desenvolvimento de armas atômicas. Em um contexto como esse, um confronto entre Estados Unidos e União Soviética colocaria em risco a sobrevivência do planeta. Essa situação levou à transferência dos conflitos para os países subordinados a cada uma dessas potências.

No Brasil, houve um grande embate entre os nacionalistas e os “entreguistas”.  Getúlio aprovou leis referentes à limitação de remessas de lucros de empresas estrangeiras, criou a Petrobras, que passa a deter o monopólio da exploração do petróleo brasileiro. Em 1953, Getúlio procurou reforçar sua base popular indicando um jovem político com amplo apoio sindical para ocupar o cargo de ministro do Trabalho. Seu nome: João Goulart.

O novo líder trabalhista atendeu reivindicações de reajustamento do salário-mínimo, aumentando-o em 100%. A crise se instalou e o Exército, uma vez mais, foi o porta-voz do descontentamento das elites. Em fevereiro de 1954, veio a público o Manifesto dos coronéis. O texto é um exemplo do radicalismo comum ao período da guerra fria. As queixas incluíam a ameaça da “república sindicalista”, assim como a “infiltração de perniciosas ideologias antidemocráticas” e o alerta a respeito do “comunismo solerte sempre à espreita…” pronto a dominar o Brasil. A crise se agravou e o desfecho trágico do suicídio do presidente (1954) é bem conhecido. (“Uma Breve História do Brasil”, de Mary del  Priore e Renato Venâncio).

O próximo nome forte da política brasileira seria Jânio Quadros. Sua fala era marcada pelo anticomunismo, e a retórica moralista o levou à presidência da República com uma vitória esmagadora. A administração “peculiar” do novo governante acabou com sua renúncia em 1961. O país entrou em profunda crise política. A renúncia de Jânio implicava a posse do vice-presidente, João Goulart. Em viagem diplomática à China, Goulart era hostilizado por importantes segmentos das forças armadas e do meio empresarial, por sua ligação com o sindicalismo e suas ideias nacionalistas.

Depois de muitas negociações, Jango assumiria a presidência, primeiro sob o regime parlamentarista. As dificuldades eram muitas. Sem apoio do Congresso, o presidente buscou apoio nos trabalhadores, realizando grandes comícios. Anunciou decretos de cunho nacionalista e ousou tocar no tema da reforma agrária. A direita reagiu, organizando, com apoio da Igreja Católica e de associações empresariais, “marchas da família com Deus pela liberdade”, por meio das quais condenavam o suposto avanço do comunismo no Brasil. Instabilidade política, apoio maciço da classe média e a situação internacional, resultaram no golpe militar de 1964. Mais uma vez, os militares vinham em “socorro” dos brasileiros: alegando a ameaça comunista e acentuando uma tendência de endurecimento, o governo militar se torna cada vez mais ditatorial. A esquerda reagiu com organizações clandestinas e pela luta armada.

Assistiu-se também à ampliação das redes de espionagem e de repressão. Até a oposição legal deixa de ser aceita. Há uma dura repressão aos comunistas e a todos que tenham identificação com a política de “esquerda”. Mortes, torturas e prisão eram as punições aos “inimigos da pátria”. A censura era obcecada por detectar mensagens que propagassem o comunismo e a “destruição da família”. Foram 21 anos de ditadura militar, até a abertura política. O Brasil, então, assistiu à criação de inúmeros partidos, com diversas tendências ideologias, muitos trabalhistas, socialistas e comunistas. Houve um fortalecimento do movimento sindical.

Parecia que haveria uma convivência harmoniosa entre as diversas correntes de pensamento político. Hoje, porém, uma parte da população ainda teme uma “ditadura comunista”, principalmente por causa do fantasma de Cuba, que vive um lento processo de abertura e reaproximação com os EUA. Em um mundo cujas discussões estão mais focadas na divisão Ocidente e Oriente, no terrorismo e no fundamentalismo, os brasileiros parecem se apegar ao velho e conhecido discurso anticomunista. Será que há motivo para isso ou perdemos o trem da História?

– Márcia Pinna Raspanti

Marcha+da+familia+2

“Marcha da Família com Deus e pela Liberdade”, em 1964.

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2 Comentários

  1. Mauro disse:

    Texto extremamente tendencioso, a verdade está aí nua e crua no que se tornou o Brasil com o fim da “ditadura militar”. Famílias destruídas por programas de televisão que manipulam o povão (incitando ao ódio, à traição, à destruição da família, à inversão de valores, etc…), a cleptocracia tomou conta do país (roubos, roubos, roubos e mais roubos), partidos de esquerda e sindicalistas mandando levaram o país ao caos (14 milhões de desempregados, inflação, juros absurdos, etc…), drogas reinando no nosso Brasil, cidadãos de bem presos em suas casas, nos últimos anos o país empobreceu, não se incentiva mais a geração de empregos incentivando assim a iniciativa privada, empresários falidos, carga tributária esdrúxula, estão demilitarizando a PM, criaram a força nacional (Gestapo nazista) e isto é inconstitucional, músicas profanas de todo tipo, apologia às drogas, etc… Chega de falácias esquerdistas, não é possível que não se compreende isso.

  2. Ana disse:

    Excelente texto e bela questão.

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