Com o Diabo no corpo…

Publicado em 20 de maio de 2014 por - História do Brasil

O Diabo fazia-se presente nos corpos das mulheres do Brasil Colônia, enchendo seus úberes de mistério. Não é que graças a ele, um feiticeiro afro-descendente chamado José fizera uma “cura mágica” numa escrava de nome Maria, e que esta “arrojou uma como bolsa ou saquinho por forma da pele de uma bexiga, na qual depois de rota se viam vivos três bichos: um do feitio de uma azorra, o outro do feitio de um jacarezinho e o outro do feitio de um lagarto com cabelos, e cada um dos ditos bichos era de diversa cor”. Ao desfazer o encantamento que se havia instalado na “madre” da escrava Maria, José revelava a mentalidade daqueles que acreditavam na imensidão dos úteros femininos como um espaço capaz de abrigar seres e coisas fantásticas.

De enfeitiçada, “a madre” passava à feiticeira quando emprestava seus líquidos, pêlos e sucos para finalidades mágicas ou quando bastava seu contato para inocular encantamentos. Aos finais do século XVI, certa Guiomar de Oliveira, confessava ao Visitador do Santo Ofício da Inquisição, Heitor Furtado de Mendonça, que teria aprendido “dos diabos”, que “semente de homem dada a beber fazia querer grande bem, sendo semente do próprio homem do qual se pretendia afeição depois te terem ajuntamento carnal e cair do vaso da mulher”. Era o contato com a madre, com o mais íntimo do corpo da mulher que conferia poderes mágicos ao sêmen. Num outro caso, e um pouco mais tarde, Josefa, uma escrava mineira, “lavava as partes pudendas com a água que misturava à comida de seu marido e de seus senhores” para “sujeitar-lhes as vontades”.

Nada podia contra os sucos femininos. Sendo a mulher naturalmente um “agente de Satã”, toda a sua sexualidade podia se prestar à feitiçaria, como seu corpo, ungido pelo mal, se tornasse o território de intenções malignas. Cada pequena parte seria representativa desse conjunto diabólico, noturno e obscuro. Além dos sucos femininos, também os pêlos compunham esta ambígua farmacopéia que curava as astúcias do Demônio.

Outro documento revela que, em 1736, na Bahia, a cativa Tomásia, foi tratada com defumadouros feitos com “cabelos das partes venéreas” de duas outras escravas e matéria seminal resultante da cópula de ambas com um padre exorcista. Este recomendara que “limpassem a matéria seminal das ditas cópulas com paninho e passassem na barriga da enferma, e que todas lavassem em todas aquelas vezes as partes venéreas com água e a guardassem numa panela para ir banhando a enferma”. O tratamento pouco ortodoxo do frei Luiz de Nazaré, useiro e vezeiro em abusar de mulheres durante exorcismos e curas mágicas, acabou levando Tomásia à morte, mas confirmava a importância dos excretos femininos nos rituais mágicos.

Na Idade Moderna, a sexualidade estava profundamente inscrita nos corpos. Mas o corpo da mulher era visto como um corpo decaído. Seu sexo, sua condição genital, sexual, biológica definia sua condição no mundo: ser menor e infecto. Biológica e moralmente. Deste ponto de vista, a sexualidade feminina não era apenas uma qualidade inerente à carne, celebrada ou reprimida de acordo com a sociedade na qual estava inscrita. Ela não seria, tampouco, como desejou, mais tarde, Freud, uma pulsão biológica que a civilização canalizaria numa ou noutra direção.

Segundo Michel Foucault, ela modelou o eu “na experiência da carne”, experiência que se constituiu a partir e em torno de determinadas formas de comportamento. Tais formas, por sua vez, existiram nas suas relações com sistemas de saber historicamente específicos. E com aquilo que Foucault chamou de “um modo ou uma relação entre o indivíduo e ele mesmo permitindo-o reconhecer-se como um objeto sexual em meio a outros”. De maneira global, tais sistemas de saber determinaram o que se podia pensar sobre o próprio corpo.

O que se pensava sobre o corpo da mulher, até os finais do século XVIII, fazia-a ver-se como o microcosmo mais insignificante no interior de uma ordem mais ampla na qual, cada parcela da natureza, – as plantas, os animais, os homens e os anjos – encontravam seu lugar em extratos superpostos. Porque a maior parte dos médicos via na sua constituição natural o paradigma de sua alma, eles acabaram por encerrá-la numa rede de determinações físicas e morais: por ser menor, mais fraca, possuir menos músculos, ter carnes mais moles, ser “fria e úmida”, – por oposição ao homem, quente e seco – ela “era” mais volúvel, fraca, tímida, desafiadora, esperta, injusta, avara, ingrata, supersticiosa, infiel, impaciente e falastrona. Era por comparação com as qualidades masculinas que se podiam proclamar viciosas, aquelas das mulheres. Mas era, sobretudo, em relação ao tipo ideal da espécie que os seus defeitos apareciam como uma irremediável doença. – Mary del Priore.

venusvecellio

“Vênus de Urbino”, de Ticiano Vecellio (1538).

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