Com açúcar, sem afeto.

Publicado em 22 de setembro de 2014 por - História

Por Dirce de Sá Freire.

A História é grande aliada na compreensão do presente; facilita o entendimento dos fenômenos sociais, políticos e econômicos da atualidade. No que diz respeito aos aspectos psíquicos das relações humanas, ela também ajuda a conhecer melhor o percurso de cada indivíduo. É a trajetória de cada um, que, traduzida em história afetiva do sujeito, explica os motivos que levam uma pessoa a fazer determinadas escolhas.

Refletir sobre os transtornos alimentares, sob a ótica da História, permite ampliar a questão para além das exigências estéticas que invadem a atualidade. Essa linha de raciocínio remete à importância de nos debruçarmos, por exemplo, sobre a contribuição da História da Alimentação na compreensão das desordens na forma de se alimentar hoje. Ela fornece um enfoque singular sobre a questão, mostrando que a história da humanidade revela, primordialmente, uma história de fome. Tomando o exemplo da Europa Ocidental, depara-se com a escassez alimentícia que imperou durante o período da Idade Média, quando a peste negra, por meio da figura repugnante do rato, devastou os campos, disseminando a fome em larga escala. A psicanálise ensina que as dificuldades com a alimentação podem estar enraizadas nas manifestações inconscientes que Winnicott chamou de agonias impensáveis e que, para o leigo, poderia se equiparar a um medo primitivo de morrer de fome. É a história individual reproduzindo, filogeneticamente, o que foi vivido na História.

O passado colonial brasileiro revela uma “história de gente gorda”, em que gordura era sinônimo de formosura, tornando-se a base de sustentação para que a barriga do burguês viesse a significar status e prosperidade. Na medida em que a ingesta gordurosa vai “acumulando” adeptos, constata-se uma mudança gradativa do lugar social ocupado pelos gordos. A obesidade perde seu prestígio, inquestionável no passado. Houve um tempo em que era bom ser gordo, por mais distante que possa parecer aos sujeitos que vivem no século XXI. E foi em meio aos inúmeros excessos que marcam o crepúsculo do século XX e o alvorecer do XXI que nossa sociedade se viu na iminência de ressignificar seus conceitos de beleza e estética.

Em 1975, a obesidade foi definida como uma doença crônica, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a incluiu entre seus critérios nosológicos. Diante da dimensão que essa doença adquiriu na atualidade, a História facilita sua compreensão, na medida em que permite que se debruçe sobre sua origem. Foi com F. Braudel, herdeiro de Febvre e Bloch, com os conceitos de cultura material, que a História da Alimentação ganhou fisionomia definitiva no campo da pesquisa.

A história da gastronomia explica-se, pelas manifestações culturais e sociais, como espelho de uma época. Nesse sentido, o que se come é tão importante quanto quando, onde, como e com quem se come. Enfim, esse é lugar da alimentação na História, que espelha a vida e cria rituais que legitimam o compartilhar como necessidade de transmissão de valor.

Corrobora nossa visão o fato de Gilberto Freyre, em Açúcar, de 1939, oferecer grande contribuição para o entendimento da identidade nacional a partir da civilização do açúcar no Brasil – a sacarocracia –, cujo tema passa tanto pela História quanto por várias outras áreas do conhecimento, como a Sociologia ou a Antropologia, deixando marcas nos hábitos alimentares do país.Por outro lado, tem-se também a contribuição de Mark Kurlansky, autor do livro intitulado Sal: uma história do mundo, mostrando como o sal também esteve sempre presente em quase todos os lugares e explicando o fato de, durante milênios, ter sido sinônimo de riqueza. Ele foi o responsável pela criação de rotas comerciais, que desenvolveram impérios e promoveram revoluções, e tornou-se instrumento comum de comércio e câmbio. Açúcar e sal, temperos da vida, marcaram lugar significativo na História.

A partir do final dos anos 1970, multiplicaram-se os estudos dedicados às práticas alimentares dos indivíduos em contextos e períodos históricos diferentes, apontando para a importância desse entrelaçamento para a compreensão dos transtornos alimentares.

A importância dos rituais é vital, pois são eles que permitem fazer do alimento um elemento fixador psicológico no plano emocional, como demonstra Câmara Cascudo, em seus estudos sobre as especificidades da sociedade brasileira.Comer certos pratos é ligar-se ao local ou a quem o preparou. A vida atual não fornece o tempo necessário para o relacionamento com a comida, degustando-se e apreciando-se o sabor do que é ingerido, mastigando-se devidamente o alimento para permitir que a digestão possa começar bem sua função, uma vez que esta, como se sabe, começa na boca. Não há tempo de mastigar; engole-se rapidamente e promovem-se indigestões que se transformam em camadas adiposas, fruto da pressa dos tempos pós-modernos.

A cozinha e seus aspectos ricos também merecem ser destacados, pois, segundo Carlos Roberto Antunes dos Santos, espelha a sociedade, revelando uma imagem desta, em que transparecem as relações de gênero, de geração e a distribuição das atividades. A cozinha traduz uma forma de se relacionar com o mundo, apresentando grande riqueza nas relações sociais e fazendo com que a mesa se constitua, efetivamente, em um ritual de comensalidade. Não sem motivo há unanimidade em torno da crença de que a cozinha é sempre o melhor lugar da casa, onde os membros da família escolhem se reunir.

As refeições feitas em conjunto, em casa, com horário determinado e um cardápio planejado, estão se tornando cada vez mais raras. A sociedade de consumo em massa faz com que se desestruturem os sistemas normativos e os controles sociais que tradicionalmente regiam as práticas e as representações alimentares.

Os rituais estão perdendo seu lugar de transmissão de costumes e, consequentemente, de preservação de nossa cultura. Não se acha mais importante comparecer ao velório daqueles que morrem, esquecendo-se que aquele momento serve para que se possa externar, vivenciar e atravessar aquela dor na companhia daqueles que nos são caros. Da mesma forma, o comer em torno da mesa tem uma função importante no compartilhar afetos e costumes. Questionam-se muito as novidades, mas não há questionamento sobre os prejuízos que algumas inovações podem trazer para o cotidiano psíquico.

Mudanças de hábitos alimentares nem sempre são benéficas, como os estudos e as pesquisas têm demonstrado em relação ao fast-food no Brasil. Seria um novo padrão alimentar a se delinear, mas com sérios prejuízos na dieta tradicional do povo brasileiro. O arroz, o feijão e a farinha de mandioca, que foram, desde o século XVIII, a base do cardápio da maioria da população, perdem cada vez mais espaço para os produtos industrializados, com maior valor agregado e bem menor valor nutritivo. Nos últimos dez anos, o consumo anual de feijão caiu de 12 kg por brasileiro para 9,5 kg, e a farinha passou a ocupar o 38o lugar no mercado alimentar. Essa situação é muito grave, porque prejudica enormemente a base da alimentação do brasileiro, em especial da população menos favorecida.

A História pode ser o fundamento para a compreensão dos transtornos alimentares, fornecendo uma ajuda imprescindível para a manutenção de um peso saudável.

(Texto extraído de “História do Corpo no Brasil”, Ed Unesp).

dica2joia18

Os padrões estéticos ligados à obesidade mudaram com o tempo; retrato de uma senhora brasileira do século XVIII. 

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1 Comentário

  1. Sara disse:

    Gostaria de ler mais, esse artigo deixou um gostinho de quero mais. Realizo uma pesquisa na area dos Transtornos Alimentares e a relaçao com o Corpo.
    Obrigada Mary por abranger tantos assuntos e tornar a nossa vida mais interessante.

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