Com a ajuda dos céus

Publicado em 30 de novembro de 2013 por - História do Brasil

 As moças que desejavam muito se casar, mas que encontravam dificuldades, costumavam rezar para os “santos casamenteiros”: São Gonçalo e Santo Antônio. Nos casos de decepção amorosa, por exemplo, algumas, mais desesperadas, chegavam a esconder o Menino Jesus que o santo trazia nos braços até que ele lhes restituísse o namorado fujão. Quadrinhas de época mostram que já se recorria ao milagroso santinho para conseguir um noivo ou uma noiva:

Meu santo Antônio faceiro

santo dos mais adorados

que, sendo um santo solteiro,

cresces o rol dos casados.

A Igreja católica não só permitia como defendia o direito dos escravos de se casarem, até mesmo com pessoas livres. Os senhores mais ricos costumavam casar os escravos no mesmo dia em que batizavam as crianças nascidas no engenho. Assim, chamava-se um padre, que realizava as duas cerimônias, havendo depois uma “função”. A função era uma festa ao som de batuques, violas e atabaques, em que se comia rapadura e havia distribuição de cachaça. Alguns escravos endividavam-se com os senhores para poder oferecer uma festa pelo casamento dos filhos. Depois teriam de trabalhar dobrado para pagar a dívida. A defesa do direito dos escravos de se casar e levar uma vida conjugal como qualquer outra pessoa era uma das prioridades da Igreja, que colocava a necessidade do casamento acima de tudo.

Sabe-se também que as pessoas tinham várias crenças em relação ao dia do casamento. Não se devia casar em dia de Sant’Ana, pois a noiva podia morrer de parto. Durante a manhã que antecedia o casamento, a noiva não podia ajudar na cozinha – na qual se matavam e preparavam animais e outras comidas – nem sair de casa, exceto para ir à igreja, sem olhar para trás no caminho. Ao voltar para casa, após a cerimônia, o casal era recebido com foguetório e cantos de alegria. Uma grande comilança encerrava as bodas.

“Onde há galo, não canta galinha” – o ditado popular não deixava dúvidas. Em uma sociedade machista, cabia à mulher e aos filhos obedecer às ordens do chefe da família. Manter-se em casa, evitar os perigos e as oportunidades que podiam surgir na rua eram normas que deveriam ser cumpridas: “o homem na praça e a mulher em casa”. A mulher devia ao marido “fidelidade, paciência e obediência”. Os maridos deviam às mulheres e aos filhos assistência alimentar e respeito. Os filhos ilegítimos tinham de receber assistência paterna obrigatória até os sete anos.

O amor entre homem e mulher, era evidente, seguia os costumes da época. O amor feminino deveria ser respeitoso e recatado; e o masculino, certo tipo de ternura inspirada pela “fragilidade” do sexo feminino. Tal ordem podia ser quebrada: bastava o marido morrer ou ser obrigado a trabalhar fora da região onde vivia a família, para a mulher assumir o papel de “chefe do lar”. Muitas delas se insurgiram contra a ditadura do fogão e do berço, resistindo às vontades do marido cotidianamente: salgavam a comida, deixavam de lavar a roupa ou passavam os dias na igreja – um dos poucos lugares de encontro social –, a – conversar com as amigas.

Para essas mulheres que não queriam passar os dias “presas” em casa, a Igreja católica reservava uma série de sermões “educativos” e proibições: não podiam usar “unguentos enganosos [perfumes e loções] e outros mil embelecos e embustes [joias ou maquilagem] para chamar a atenção dos homens”. Não podiam “mostrar os artelhos dos pés”, pois isso “espicaçava os aguilhões da carne”, sendo também considerado um pecado grave. E pecado gravíssimo era mostrar “a nudez dos peitos” ou aceitar “as desculpas” daquelas que diziam “cobri-los com gazes e panos transparentes, provocando mais atenção”, rugia o pregador! 

A Igreja temia pela perda da honra das mulheres casadas, como revela o livro Armas da castidade, escrito pelo padre Manuel Bernardes. No capítulo intitulado “Como se portará uma mulher casada para não cair em adultério ou já caída nele”, o padre recomendava a essas mulheres que treinassem a abstinência sexual para enfrentar a solidão nas viagens dos maridos. As visitas masculinas deviam ser recebidas pelas mulheres da família – mãe e filhas casadas ou solteiras – “com decoro e sob os estribos da sisudez”!

Era preciso, ainda, controlar os escravos domésticos, para que esses não “alcovitassem”, isto é, não levassem recados amorosos das donzelas da família aos namorados. Os escravos também não podiam ajudar os namorados em encontros proibidos pela família. “Pode haver maior descuido do que deixar uma mãe sair uma filha só em companhia de uma escrava desonesta?”, perguntava-se, escandalizado, o cronista colonial Nuno Marques Pereira.

 Mesmo para ir à igreja devia haver controle, pois no caminho as mulheres podiam encontrar mais pecados. No período colonial, a igreja era o lugar preferido para encontros amorosos. Nos dias de missa e festas religiosas, ou quando estavam vazias, eram ideais para a troca de beliscões, pisadelas e beijos furtivos por trás de colunas e altares.

Mary del Priore

Santo_Antoniosao_goncalo

Os casamenteiros: Santo Antônio e São Gonçalo.

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