Collor, impeachment e o fantasma do anticomunismo

Publicado em 14 de dezembro de 2015 por - História do Brasil

Em 1989, pela primeira vez na história brasileira, a maioria da população escolheria seu dirigente máximo. Não por acaso, essa crescente participação popular – registrando-se inclusive, em 1988, a vitória do Partido dos Trabalhadores na sucessão da prefeitura de São Paulo – fez renascer o discurso anticomunista. Líderes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ameaçam organizar uma campanha de saída de empresários do país caso Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT, chegasse à presidência. A eleição que definiria o sucessor de Sarney, a primeira feita pelo voto direto em mais de um quarto de século, é polarizada por forças políticas de direita e de esquerda. O discurso anticomunista também ocorre nos meios agrários, como foi o caso da União Democrática Ruralista (UDR), nascida como resposta ao Movimento dos Sem-Terra (MST).

Durante o governo militar, a repressão abate-se violentamente sobre os que lutam pela terra. Paralelamente a isso, os militares tomam algumas medidas – com o objetivo de diminuir as tensões no mundo rural. A construção da Transamazônica foi interpretada por alguns estudiosos como uma espécie de contrarreforma agrária, na medida em que abriu para as populações rurais pobres – principal foco das Ligas Camponesas – uma nova fronteira de expansão. Na prática, porém, os projetos de colonização na Amazônia fracassaram ou não tiveram continuidade. Em 1985, o MST retoma a ancestral luta pela reforma agrária brasileira. Como vimos, essa luta não é nova, sendo defendida por abolicionistas do século XIX e pelas Ligas Camponesas nos anos 1950-60.

Nesse clima de insegurança entre as elites agrárias e empresariais, surge um candidato que realinha as forças políticas: Fernando Collor de Mello, político originário do PDS e eleitor de Paulo Maluf na eleição presidencial de 1985. Por meio de uma coligação de pequenos partidos – Partido da Reconstrução Nacional, Partido Social Cristão, Partido Social Trabalhista e Partido Renovador Trabalhista –, Collor candidata-se à presidência. Concorrendo com ele há grandes agremiações e políticos de renome nacional, dentre os quais Ulisses Guimarães (PMDB), Aureliano Chaves (PFL), Mário Covas (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Paulo Maluf (PDS) e Leonel Brizola (PDT).

Até março de 1989, Fernando Collor ocupa uma posição modesta nas intenções de voto. A partir daquele mês, a situação se altera. O candidato passa a liderar a campanha presidencial, e devido ao receio de que a eleição fosse vencida por um candidato de esquerda – Lula ou Brizola –, PFL, PDS e boa parte do PMDB apoiam Collor. Como é possível que um candidato praticamente sem estrutura partidária alcance tamanho sucesso? Ora, não por acaso, no referido mês de março, começam os programas eleitorais dos partidos da coligação a que ele pertencia. A eleição de 1989 mostra uma nova faceta da democracia: o peso dos meios de comunicação de massa, principalmente a televisão. Collor explora com habilidade essa mídia, conseguindo apoio das camadas mais pobres e sem escolaridade. O apoio velado dado pelos partidos majoritários no primeiro turno torna-se apoio declarado no segundo. Seu governo, porém, dura apenas dois anos, encerrando-se em 1992, em meio a um processo de impeachment, fruto de uma crise econômica, assim como por comportamentos hostis ao Congresso e pela ampliação da corrupção numa escala até então nunca vista. Uma vez mais, coube a um vice-presidente, Itamar Franco, assumir o posto presidencial. A herança de Collor é nefasta. Seu fracassado plano econômico, de confisco dos ativos financeiros (incluindo aí os recursos das cadernetas de poupança), cria um clima de descrédito em relação às políticas anti-inflacionárias. Além de não ser bem-sucedido, o novo plano lança o país em uma profunda recessão.

Extraído de “Uma Breve História do Brasil”, de Mary del Priore e Renato Venancio.

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Posse de Fernando Collor de Melo em 1990.

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