Cinema, beleza e comportamento

Publicado em 22 de fevereiro de 2015 por - temas atuais

Muita gente vai ficar ligada na cerimônia de entrega do Oscar. Além de conhecer os filmes, atores e diretores premiados, existe sempre uma grande curiosidade em relação ao visual das atrizes: quem está bem ou mal vestida, qual a melhor maquiagem, quem engordou ou emagreceu ou fez plástica…É inegável a influência de Hollywood na criação da imagem da “mulher moderna”: o cinema e a mídia ditam os padrões do que é belo, elegante e adequado. As estrelas hollywoodianas exibem suas vidas perfeitas para milhões de fãs e admiradores. Qual o modelo feminino ideal? Jovem, bela, magra, que pode ser casada e com filhos, ou solteira independente – o que importa é ser “bem resolvida”.

Desde as primeiras décadas do século passado, mulheres do mundo passaram a enxergar nas divas das telas os seus modelos de beleza e até de comportamento. As revistas especializadas na vida dos famosos trataram de criar maior glamour e curiosidade em torno do mundo dos astros e estrelas. Vejamos como se dava esse relacionamento complexo no passado. Será que as coisas mudaram? 

Nas primeiras décadas do século XX, todas sabiam que a fotografia, o cinema e a imprensa divulgavam padrões que deviam ser seguidos, excluindo aquelas que deles não se aproximassem. Tipos femininos criados por Clara Bow, Alice White, Colleen Moore incentivavam imagens sobre “garotas modernas”, misto de alegria, mocidade, jazz e cocktails! Um controle mais rígido sobre a apresentação pessoal era exigido até nos empregos ocupados por mulheres. A chamada “boa aparência” impunha-se. Os bons casamentos, sobretudo dependiam dela. Olhos e boca, agora, graças ao batom industrial, passam a ser o centro de todas as atenções. Theda Bara e Greta Garbo arrasavam com sua malícia singular; eram o símbolo da mulher-mistério, das vamps. O aparato colocado a serviço da beleza corporal, nessa época, feito de receitas de fabrico doméstico, de produtos farmacêuticos ou de artifícios de maquilagem, pareciam prometer à mulher a possibilidade de, em não sendo bela, tornar-se bela. 

Às palavras francesas como coquetterie, literalmente a preocupação de se valorizar para agradar, e allure, distinção de porte, somam-se outras, em inglês, influência do cinema: sex-appeal e it. A primeira dispensa tradução; a segunda, referia-se ao “quê” de sedutora que havia em cada mulher. “It é um dom de atração […] uma qualidade passiva, que atrai a atenção e desperta o desejo. A mulher deve possuir o it para atrair o homem” explicava o articulista de Cinearte, em 1928. Já o sex-appeal, segundo o mesmo cronista definia-se pelo físico “atraente e perfeito, pelas atitudes provocantes, o olhar liquefeito e perigoso, no andar lento e sensual, nos lábios contornados e convidativos. As que têm (isso) os homens seus escravos são”. A “malícia”, outro ingrediente indispensável ao sucesso feminina, era sugerida por subentendidos na estética cinematográfica.

Graças ao cinema americano, novas imagens femininas começam a multiplicar-se e, novidade: a beleza passava a ser o motor do desejo. A moda tornou-se uma das principais articuladoras do novo ideal estético imposto pela indústria cinematográfica americana. Não era mais Paris quem a ditava, mas os estúdios de Hollywood. Nas páginas de revistas como Cinearte podiam encontra-se, às dezenas, artigos com títulos sugestivos como: “O que as estrelas vestem?”, “Cabelos curtos ou compridos “As moças devem ou não usar meias?” Por que as estrelas fumam?”, etc.

O que estava em jogo em todo esse discurso da aparência é a transformação do corpo feminino em objeto de um desejo fetichista. Se por um lado, a estética cinematográfica era sinônimo de mentalidade moderna, e um domínio, onde a mulher podia tomar iniciativas, por outro, a sensualidade que emanava de sua representação, a transformava em objeto passivo de consumo. Ora, o poder de sedução de estrelas do cinema marcou toda uma geração de mulheres, servindo de modelo para a imagem que elas queriam delas mesmas.

– Baseado em “Histórias Íntimas”, de Mary del Priore.

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Estrelas de ontem e de hoje: Marlene Dietrich, Marilyn Monroe e Emma Watson.

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