Chica da Silva e João Fernandes: o amor sem preconceito

Publicado em 1 de setembro de 2017 por - artigos

        Viver em concubinato era opção imediata, menos dispendiosa e desligada de obrigações institucionais e burocráticas, tornando-se o inimigo implacável da Igreja. Vale lembrar que a atividade comercial de muitas mulheres lhes dava independência suficiente para estabelecer novos amores. Punição para os concubinários? Pouca… Recusa dos sacramentos e proibição de assistirem missa, por vezes, expulsão da comunidade. Em pesquisas sobre roceiros pobres, a historiadora Maria Luíza Marcílio comprovou que as uniões consensuais eram a regra. E quando havia casamentos, eles mais respeitavam o calendário das colheitas do que o religioso. Aquele de “papel passado”, mais interessava às famílias proprietárias, interessadas na transmissão do patrimônio a seus herdeiros. Nas roças de alimentos, localizadas pelos sertões, apesar da austeridade moral e a estabilidade conjugal o casamento legal de livres ou escravos tinha pouco significado. Entre cativos, a taxa de mulheres era inferior à dos homens e a dispersão nas roças dificultava a escolhe do cônjuge.

       Mas havia quem, no casamento oficial ou fora dele, vivesse feliz para sempre. Caso, por exemplo, de Francisca ou Chica da Silva e o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Embora casado, ele fez vida conjugal com a ex-escrava que alforriou e com quem teve treze filhos, todos batizados por conhecidos personagens do Arraial do Tijuco. Francisca da Silva de Oliveira agia com qualquer senhora da elite social. Educou todas as filhas no Recolhimento de Macaúbas, o melhor educandário das Minas. Chica, os filhos e o marido participaram de diversas irmandades religiosas da região, como a do Santíssimo Sacramento, São Miguel e Almas, São Francisco de Assis, Terra Santa, Nossa Senhora do Carmo do Tejuco e da Vila do Príncipe, São Francisco, Terra Santa e também das irmandades de mulatos negros, como Nossa Senhora do Rosário e Mercês.

       Chica da Silva foi uma boa mãe e esposa honrada. Quando o marido foi obrigado a retornar para Portugal, assumiu a educação das filhas, mantendo-se fiel ao esposo. Cada uma das filhas recebeu do pai uma fazenda como herança e, assim, realizaram seus casamentos com homens bem posicionados socialmente. João Fernandes levou para Portugal os quatro filhos homens, além de Simão Pires Sardinha, o primeiro filho de Chica com o médico português. Seu filho João se tornou seu principal herdeiro, que constituiu na Metrópole o Morgado do Grijó, destinando-lhe dois terços de seus bens. José Agostinho, outro filho, tornou-se padre e recebeu dote para ocupar uma capela. Simão Sardinha, mais um filho do casal, estudou em Roma, comprou títulos de nobreza e patente de tenente coronel da cavalaria no regimento de Dragões de Minas Gerais.

         As mulheres foram maioria entre os escravos alforriados em Minas, no auge da atividade mineradora. Senhores costumavam dar a liberdade às companheiras apenas depois de mortos, por meio de testamentos. Muitas destas ex-escravas desfrutavam de relações estáveis com homens brancos, das quais nasciam filhos, que geralmente eram amparados pelos pais. Elas adotaram um série de atitudes para tentar apagar o passado de escravidão, miséria e preconceito.

As roupas e as joias eram um dos mais importantes indícios de que a mulata passara de escrava a senhora. Chica e as outras forras sabiam disso e aderiram à ostentação no vestuário, típica das classes mais abastadas. Vestidos de cetim e seda, meias de seda, capas, chapéus, sapatos forrados de tecidos finos, saias e blusas coloridas de chamalote, anáguas, espartilhos, tudo isso, adornado por fivelas e botões de metais preciosos, colares, brincos, pulseiras e, muito ouro e diamantes. As alforriadas em melhor posição social, como Chica, colocavam todo este aparato para sair às ruas em suas cadeirinhas e serpentinas luxuosas, seguindo para as missas, como faria qualquer branca rica. Uma curiosidade: as perucas, que ficaram associadas à figura de Chica devido aos filmes, novelas e outras obras de ficção, não faziam parte do vestuário dela e nem de qualquer mulher da região, sendo um acessório masculino, pouco usado, nas Minas Gerais de então.

Talvez, por causa destes excessos no vestir, Chica tenha passado para a história como uma  mulher frívola e deslumbrada. Tal imagem foi propagada pela historiografia mais antiga e pelas obras de ficção que se inspiraram nela. É justo ressaltar que as forras não lançavam mão de nenhum artifício que não fosse típico dos fidalgos, ou seja, o pecado delas não foi apreciar o luxo e  a ostentaçãomas, o fato de que elas utilizaram meios que não lhe pertenciam para se afirmar em uma sociedade que as rejeitava.

  • Texto de Mary del Priore e Márcia Pinna Raspanti.
  • SAIBA MAIS:  “Chica da Silva e o Contratador de Diamantes – o outro lado do mito”, de Júnia Ferreira Furtado. Companhia das Letras, 2003.

 

Carlos Julião.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!