Casamento saudável: sexualidade sob controle

Publicado em 3 de junho de 2014 por - História do Brasil

Em 1872, um estudo pioneiro realizado por Guilherme Augusto M. Guimarães denominado Da esterilidade, era apresentado na forma de tese à faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Suas impressões consolidavam  a visão de profundo mal estar que ainda se tinha sobre a reprodução humana. Segundo ele “a esterilidade nos apresenta uma imagem seca e árida do nada, […] o triste celibatário só oferece a nossos olhos um coração frio e vazio, devotado ao amor de si próprio”.

Segundo a antropóloga Fabíola Rohden, o tema da reprodução se encontra presente em muitos trabalhos científicos e debates intelectuais do século XIX. Segundo eles, a inação dos órgãos sexuais podia trazer uma série de doenças como a ninfomania, a catalepsia e a insônia. Só o casamento saudável e ordenado podia por fim a todos os riscos e garantir que a espécie se reproduzisse de maneira adequada. Na virada do século XIX para o XX, o tema da infecundidade se atrelou ao debate sobre o povoamento da pátria e a sobrevivência da espécie. Médicos martelavam a idéia de que a esterilidade era um problema grave que tinha conseqüências para a ordem social e para a nação. Mudavam as razões e as explicações, mas o tema era sempre o mesmo!

No universo da privacidade burguesa, que então se desenvolvia entre nós, o fantasma da impotência também batia à porta. Na Europa, se desenvolvera uma aritmética do coito, os homens contando e anotando em seus diários, o número de vezes em que faziam sexo com suas esposas. Esta contabilidade – que pode ter chegado aqui como uma moda emprestada – tinha por objetivo evitar que a mulher se tornasse carente, e também, dentro de certo espírito burguês, contornar os riscos do desperdício de sêmen. Era importante controlar a gestão do esperma. Nada de excessos. O medo do fiasco era total. Não faltavam teóricos a quantificar a capacidade anual de intercursos entre homens e mulheres.

E tudo se misturando à valorização da vida espiritual que fazia do sexo, entre as mulheres, um verdadeiro sacrifício.  A valorização extrema da virgindade feminina, a iniciação sexual pelo homem experiente, a responsabilidade imposta pela medicina ao esposo, fazendo dele o responsável pelo início da vida sexual da esposa -, mas de uma iniciação capaz ao mesmo tempo de evitar excessos -, fazia parte do horizonte de ansiedade que os casais tinham que enfrentar. Do lado delas, o risco era de sofrer acusações: de histérica, de estéril, de estar na menopausa, de ninfomania, de lésbica! Não faltavam anátemas para controlar o perigo da mulher não pacificada por uma gravidez.

Diferentemente de hoje, quando a pílula azul — o Viagra — tornou-se assunto de medicina pública, nossos antepassados encaravam a impotência com profundo temor: medo do maligno, medo de feitiços, além do preconceito em sociedades tradicionais onde o “crescei e multiplicai-vos” era lei. Buscava-se, então, toda sorte de simpatia, remédio analógico ou mezinha milagrosa capaz de combater um mal capaz de ameaçar a função de homens e mulheres sobre a face da Terra. Resta saber se no entusiasmo com que se recebeu o Viagra não restam, ainda, traços desse quadro mental. E sobre sexualidade e intimidades, não há dúvidas: tudo era mistério, milagre e às vezes, quando se permitia prazer e encantamento. – Mary del Priore.

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Casamento da rainha Vitória.

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