Casamento e virgindade nos tempos coloniais

Publicado em 30 de maio de 2014 por - História do Brasil

Hoje, o casamento na igreja precisa ter noiva de branco, mas nem sempre foi assim. Todos sabem que o vestido branco significa a pureza da noiva, sua virgindade. No Brasil colonial esta questão importava, apenas, para as noivas de elite que além da virgindade, levavam como dote, terras e escravos para o noivo. Nas grandes famílias patriarcais a honra da mulher era muito prezada, pois garantia que o patrimônio não ficaria dividido entre filhos legítimos e ilegítimos. Daí exigir-se a “honra imaculada” das mulheres. Era uma certeza de que a noiva não tinha filhos bastardos e que toda a sua riqueza iria só para os filhos que tivesse com o marido.

Entre as demais camadas da população, as coisas funcionavam de outra maneira. Em sua maioria,  homens e mulheres viviam juntos, amigados ou amancebados, antes mesmo de casar. Viver junto antes do casamento equivalia, na linguagem da época, aos chamados “desponsórios de futuro”, isto é, uma união tendo em mente um futuro casamento. Porém, como não existiam anticoncepcionais eficientes, acabavam tendo muitos filhos. Nem todos sobreviviam, pois as condições de vida eram duras e a falta de higiene e as doenças matavam muitas crianças antes de um ano de vida.

Para alguns homens, sobretudo os moradores de áreas rurais pobres, engravidar a companheira era importante pois permitia avaliar se ela lhe daria muitos filhos ou não. Como a maioria vivia nas roças e campos, os filhos ajudavam na lavoura, pois, seus pais e mães não tinham condições de comprar escravos. Se, eventualmente não se importavam com a virgindade, os homens ligavam muito para a fidelidade da companheira. Quando se sentiam traídos era comum ameaçar e espancar suas mulheres. Mas elas davam o troco. Abandonadas, não hesitavam em tentar envenená-los ou pediam ajudam aos irmãos e parentes para aplicar-lhes uma boa surra.

Pelas leis da Igreja os rapazes podiam casar-se aos quatorze anos e as meninas aos doze. Mas esta não era a regra. A maior parte dos jovens casavam-se aos 21 anos enquanto suas parceiras teriam por volta de vinte anos. Na elite, ocorriam também casamentos de meninas com homens bem mais velhos. Às vezes as esposas eram tão jovens, tendo, apenas completado 13 ou 14 anos, que o casal tinham que esperar algum tempo para ter relações sexuais.

Não foram poucas as mulheres que se entregaram aos noivos, esperando com isso casar mais rápido. Mas o tiro, às vezes, saía pela culatra: grávidas,  elas eram abandonadas. Vingativas e furiosas, elas iam se queixar para o bispo. Vem daí, inclusive a expressão: “Vá queixar-se ao bispo!”. Havia punições rigorosas para os homens que engravidassem as moças à força. Eles eram obrigados a casar ou a indenizar a “virgindade perdida”. Casos inversos também eram comuns: aproveitando-se de jovens ricos, moças pobres provocavam a gravidez para arrancar-lhes uma boa soma de dinheiro que lhes permitisse, mais tarde, casar com quem quisessem.

Namorava-se nas praças, nas praias, nas roças, nos terrenos baldios e nos quintais das casas. O rapaz ficava embaixo da janela da moça esperando que ela desse o sinal para o encontro. Esse tipo de namoro chamava-se “de lampião ou de espeque” – pois o namorado ficava duro como um espeto aguardando o aparecimento de sua amada. Também as igrejas eram visadas para namorar. No meio de tanta gente, bem que dava para trocar uns beliscões e umas pisadelas no pé da moça. Estes gestos tinham o mesmo efeito que o beijo de hoje: deixavam os amantes mais apaixonados!. A vantagem das igrejas é que elas eram escuras, iluminadas apenas com a luz de velas, dando chance para namoros mais avançados.

Como hoje, as juras de amor e o hábito de dar e receber presentes faziam parte do namoro. O amado ou a amada era chamado de “meu bem da minha alma”, “meu benzinho” ou “meu coração”. As cartas trocadas na época entre os amantes, revelam que os casais se prometiam casamento como uma apaixonada Maria que em 1751 escreveu a seu amado, dizendo-lhe: “Eu hei de casar com você”! Eles ainda se prometiam  “viver e morrer juntos”. Os presentes iam de tecidos caros, que quase não existiam no Brasil, fitas de veludo e chamalote até utensílios domésticos e frutas. Podiam ser corações de ouro, brincos de coral, coifas de tecido, para os mais ricos. E laranjas e palmitos entre os mais pobres. O importante era trocar a “dádiva amorosa”.

As moças que desejassem muito se casar, mas encontravam dificuldades para tanto, costumavam rezar para os “santos casamenteiros” como são Gonçalo e santo Antônio. Nos casos de decepção amorosa, por exemplo, algumas moças mais desesperadas chegavam a esconder o Menino Jesus que o santo traz nos  braços, até que ele lhes restituísse o namorado fujão.

A Igreja católica não só permitia como defendia o direito dos escravos de se casarem, inclusive com pessoas livres. Os senhores mais ricos costumavam casar seus escravos no mesmo dia em que batizavam as crianças nascidas no engenho. Assim, chamava-se um padre que realizava as duas cerimônias e depois havia uma “função”. A função era uma festa ao som de batuques, violas e atabaques. Comia-se muita rapadura e havia distribuição de cachaça. Alguns escravos endividavam-se com seus senhores para poder oferecer uma festa pelo casamento de seus filhos. Depois iam trabalhar dobrado para pagar a dívida. A defesa do direito dos escravos de casar e levar uma vida conjugal como qualquer pessoa era uma das prioridades da Igreja que colocava a necessidade do casamento acima de tudo.

Entre os ciganos, moradores de cidades como o Rio de Janeiro onde atuavam como comerciantes de escravos, os noivos após a cerimônia religiosa, seguiam para a casa dos pais da noiva onde iam receber a benção. Aí, a noiva recebia uma camisola coberta de bordados que lhe era cobrada no dia seguinte. Ela tinha que exibir, pela manhã, as marcas de sangue comprovando sua virgindade.  Os convidados sentavam-se no jardim em esteiras em torno das quais colocavam-se comes e bebes. Seguiam-se animadas danças ao som de palmas.

Sabe-se também que as pessoas tinham várias crenças em relação ao dia do casamento. Não se devia casar em dia de Sant’ Ana pois a noiva podia morrer de parto. Durante a manhã que antecedia o casamento a noiva não podia ajudar na cozinha, matando e preparando animais e comida,  nem sair de casa, exceto para ir à igreja, sem olhar para trás no caminho. Ao voltar para casa depois da cerimônia, o casal era recebido com foguetório e cantos de alegria. Uma grande comilança encerrava as bodas. – Mary del Priore (“A Família no Brasil Colonial”).

costumes Rio- Rugendas

 

“Costumes no Rio de Janeiro”, de Rugendas.

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4 Comentários

  1. macelo disse:

    obg eu ñ sabia disso

  2. Maria Eduarda disse:

    Texto ótimo, estava procurando algo a respeito disso, novas informações sobre o assunto são bem vindas.

  3. Ronaldo disse:

    Obrigado pela informação. Estava procurando algo a respeito.

  4. ieth disse:

    adorei o texto…bm formulado.

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