Casamento e divórcio: as famílias modernas

Publicado em 8 de julho de 2014 por - História do Brasil

Pesquisas recentes demonstram que pessoas se separam não porque o casamento não seja importante, mas porque sua importância é tão grande que os cônjuges não aceitam a não correspondência às próprias expectativas. Segundo o Instituto Brasileiro de Direito da Família, as razões mais frequentes para o fim do matrimônio são a traição – amplificadas pelas redes sociais, inclusive a internet; o dinheiro – há quem se separe por causa dele ou por falta dele; a criação dos filhos – antes, só o marido ditava regras; a violência doméstica; a falta de “evolução” do parceiro; dificuldades de relacionamento com a família do cônjuge; a velha e conhecida “incompatibilidade de gênios”; a “outra”.

Desde julho de 2010, quando foi promulgada a nova lei do divórcio, as pessoas podem se casar num dia e se divorciar no seguinte. Antes, a separação só era permitida um ano depois do casamento. A nova lei também acabou com a obrigatoriedade da separação judicial, processo que antecedia o divórcio e deixava tudo mais demorado. Antes, para poder se casar novamente, era preciso comprovar um ano de separação; hoje, pede-se o divórcio de uma única vez. Se for consensual e o casal estiver de acordo com a divisão de bens, não há necessidade nem de advogado, e dá para realizar o ato até em cartório. O aumento recente do número de separações é fruto dessa legislação. Muitos casais apenas regularizam a situação que já acontecia de fato, informam os advogados. A facilidade do trâmite legal aumentou em 37% o número de divórcios em 2012. Os casamentos duram uma média de dezesseis anos, segundo estatísticas do Registro Civil divulgadas pelo IBGE.

Porém, embora o número de divórcios tenha crescido, ainda hoje a valorização do casamento é enorme. Nas classes mais modestas imita-se, até com sacrifícios, a solenidade e o brilho dos casamentos burgueses, tanto no vestuário da noiva, de madrinhas e damas quanto no clássico nervosismo do noivo e na ornamentação da igreja. Seguem os gestos votivos: chuva de arroz, lançamento de pétalas e até voo de borboletas. Nos últimos quatro anos, o mercado do “dia especial” cresceu 40%. Na moda, caíram os chapéus, usados até os anos 1970, e a cascata de champanhe sobre uma pirâmide de taças. Hoje, a festa não é mais para os amigos dos pais dos noivos, mas para os amigos do jovem casal. E o chá de panela, símbolo da domesticidade, foi substituído pelo chá de lingerie, símbolo da sexualidade.

Trabalhos de psicanalistas revelam que, ao fim da primeira década do século XXI, jovens não incluem necessariamente o casamento nos planos de futuro, tampouco mencionam o sexo de maneira espontânea como dimensão importante do laço conjugal. O lugar que o casamento ocupa nos projetos dos jovens está relacionado ao modo pelo qual se apropriam da herança familiar.

Na clínica de casais, aumentam os problemas decorrentes do excesso de demandas exigidas pela conjugalidade, muitas delas paradoxais, pois o ideal de relação enfatiza mais a satisfação de cada cônjuge do que os laços de dependência entre eles. Apesar dos obstáculos, muitos autores constatam que os casais se esforçam para manter e melhorar a qualidade da relação; o casamento ainda é considerado um aspecto importante na vida das pessoas. A vivência da sexualidade também sofreu transformações, iniciando-se muito cedo.

Do trio clássico – pai, mãe e filho – baseado na reprodução heterossexual, hoje a família se declina no plural: para fazer um filho, pode haver mais de dois; quem engendra não é necessariamente quem cria a criança. O casamento perdeu seu papel de organizador global da vida sexuada e familiar; novas regras vão se construindo.

E amanhã? A família continuará a existir? Historiadores dizem que a modernização das sociedades não é feita contra a família, mas com a família. Ora local de residência, ora rede de solidariedades, a família é um ponto de apoio para todos os indivíduos. É também uma maneira de resposta da instituição familiar às novas condições econômicas e sociais. As crises matrimoniais poderiam representar um risco para as famílias? Ao contrário, parecem reforçar os laços de parentesco que unem avós e netos, sobrinhos e tios em torno de mães ou pais que tenham de criar, sozinhos, os filhos. Se a família, hoje, funda-se sobre escolhas eletivas e temporárias, e o desejo dos indivíduos é seu fundamento, ela não pode, todavia, ser separada da sociedade, da qual é ao mesmo tempo produto e suporte. O que vemos é a combinação de dois modelos: de um lado, o que se baseia na liberdade do indivíduo; do outro, o que se norteia pela integração e tradição.

Todas as sociedades, inclusive a nossa, exprimem preocupação em assegurar a própria perpetuação. A busca de continuidade eterna é um dos grandes desafios da humanidade, e cada homem, ou cada mulher, possui o mesmo desejo de garantir sua descendência. Eis por que, em todas as sociedades, existe sempre um sistema de alianças para organizar a procriação de filhos. Assim, a família permanece, comprovando riqueza de continuidade no seio de uma cultura que privilegia a transformação. – Mary del Priore.

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