Cabelos, perucas e toucados

Publicado em 7 de agosto de 2014 por - História do Brasil

As perucas não foram muito populares no Brasil, tanto entre homens quanto entre mulheres, apesar de terem sido bastante usadas na Europa. Já os penteados extravagantes eram adorados pelas brasileiras, que mantinham seus cabelos muito compridos, em tranças. O inglês lorde George Macartney, que fez uma parada de duas semanas no Rio de Janeiro, em novembro de 1792, espantou-se com as ousadias tropicais. O diplomata britânico notou que os habitantes eram “muito ostentatórios no vestir”. As mulheres usavam trajes semelhantes aos que se utilizava na Europa, mas o exotismo dos penteados o impressionou:

“Os cabelos das mulheres deste lugar estão sempre presos e adornados com flores artificiais, contas e penas fantasticamente arranjadas; nas costas, eles caem em longas tranças, que são entrecruzadas com fitas coloridas e acabam num grande laço”.

Em ocasiões especiais, a cabeleira era armada para o alto com a ajuda de arames formando as “patas”, que eram moda no final do XVII. Outro penteado famoso foi o “trepa-moleque”, preso com pentes especiais de ouro ou prata, que só pelo nome podemos imaginar a que altura chegava. Houve ainda a moda das “favoritas”, canudos feitos de cabelos que caíam sobre o rosto. As sinhás e sinhazinhas apreciavam enfeitar as madeixas com toucados, fitas de cetim, rendas, plumas, pedrarias, joias, flores e até, segundo alguns relatos, frutas e legumes. Os homens também caprichavam nos penteados, ajeitando seus topetes e prendendo os cabelos para trás, com tranças e rabos de cavalo.

É interessante notar que a forma como eram arranjadas as carapinhas das negras – raspadas ou trançadas artisticamente – variava de acordo com a sua origem e permitia aos portugueses identificarem de que “nações africanas” (designação imprecisa adotada na época, que geralmente se referia aos portos de embarque dos cativos na África) elas eram provenientes: nagôs, angolas, congos, rebolos, minas, angicos e outros. Os turbantes coloridos também eram muito usados, assim como os chapéus de feltro. Já as índias costumavam ser descritas como robustas e com longos cabelos, negros e brilhantes.

Mary del Priore, em “Corpo a Corpo com a Mulher”, destaca que em tempos em que o dimorfismo sexual era lei, a figura feminina era marcada, nas partes baixas do corpo, pelas curvas, e no rosto pelos signos da feminilidade. “A cabeleira em tranças e birotes era, alvo de toda as preocupações. Monumento de afetação, extravagância e desmesura, ela se equilibrava graças à camadas de farinha empoadas pelo cabeleireiro. Embranquecer e perfumar os cabelos graças à utilização do amido, de ossos secos e transformados em pó depois de bem pilados, de madeiras raspadas e reduzidas a pó, era ofício desses cúmplices da intimidade feminina. Depois, os cabelos eram frisados, eriçados, encrespados e banhados em pomadas”.

Nuno Marques Pereira, cronista baiano do início do século XVIII, descreveu as mulheres que traziam “enfeites e toucados nas cabeças, e vinha a ser que se usava naqueles tempos uma moda que chamavam patas, feitas também de cabelos, porém presos em arames. Foi crescendo tanto a demasiada moda, […] e tão disformes, que para entrar uma mulher com este enfeite nas igrejas, era necessário que estivessem as portas desimpedidas de gente”.

Os cabelos longos se tornaram moda. Cem anos mais tarde, conta Mary, na rua do Ouvidor no Rio de Janeiro, a loja do cabeleireiro Cabeça de Ouro exibia na vitrina uma formosa trança que media onze palmos e meio: “muito vasta, de cabelos finos e de cor castanha, quase pretos, de formosa nuance, e tão longa se estendia, que se mostrava em três lanços ou voltas na vidraça”. O artefato, transformado em objeto de desejo de centenas de senhoras, fazia também sonhar os homens. É um deles quem nos conta: “Eram cabelos de comprimento extraordinário e de beleza notável; mediam nada menos do que dois metros, fora o que deles ficara ornando ainda a cabeça da senhora que, sem dúvida, a seu pesar se privara de tesouro tão singular; deviam, pois, ter sido na cabeça de sua dona cabelos de doze a treze palmos de comprimento […]Quando ela os abandonasse soltos, aqueles imensos e formosos cabelos não lhe cairiam até os pés, como os imaginários de uma das mais belas heroínas dos romances de Alexandre Dumas, arrastar-se-iam seis ou sete palmos pelo chão, como estupenda cauda de um manto de madeixas”.

Na verdade, as brasileiras, até hoje, são muito cuidadosas com seus cabelos, e as longas madeixas nunca saem de moda entre nós. A nossa cultura ainda valoriza, e muito, os cabelos femininos. – Márcia Pinna Raspanti.

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“Índia”, de Debret. Os cabelos negros e brilhantes das índias encantavam os cronistas.

 

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