Brasil: a triste história de nossas crianças

Publicado em 21 de julho de 2015 por - História do Brasil

Quem não passou por esta cena? No farol fechado, sentados ao volante pressentimos a mãozinha que se estende, entre brincalhona e curiosa, para o vidro do carro: “Tem um trocado, tia?”. Nunca temos o trocado ou, tão pouco, paciência. Na verdade, o hábito de crianças mendigando nos cruzamentos da cidade tornou-se tão corriqueiro que, apesar de sua presença constante, não as vemos mais. A história do Brasil, pode dar, contudo, uma explicação para essa nossa insensibilidade.

Pouca gente sabe que as “crianças de rua” existem desde o século XVI. Vieram de Portugal nas naus que trouxeram ao Brasil os primeiros padres jesuítas. Encontradas nos portos e mercados, onde tentavam sobreviver realizando pequenos furtos ou serviços, foram arrebanhadas para ajudar na missão da
catequese. Vestidas de “anjo”, com asas e roupinhas brancas, tocando instrumentos e cantando, saíam nos cortejos pelo “sertão”: verdadeiras iscas para atrair “indiozinhos” para as escolas jesuíticas, então conhecidas como “casas de meninos”.
No século XVIII, com a urbanização do Brasil Colônia, o número de crianças abandonadas pelas ruas de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo cresceu. Mães pobres, livres ou escravas, que sobreviviam à custa de trabalhos intermitentes, não tinham escolha quando o preço dos alimentos subia muito. Ora abandonavam seus rebentos em praias, portas de igrejas e terrenos baldios, ora os encaminhavam à roda das Santas Casas de misericórdia.

No primeiro caso, as crianças frequentemente morriam de frio, fome ou devoradas por animais domésticos — que naqueles tempos viviam soltos pelas ruas da cidade. Vários bispos paulistas queixaram-se às autoridades por se encontrarem despojos de crianças mortas no lixão da cidade. A cena lhes era familiar, pois as janelas do palácio episcopal davam para uma ribanceira na Sé onde, então, se jogavam detritos. Nas famosas “rodas de expostos” — cilindros que giravam para dentro dos muros das Santas Casas – as crianças eram geralmente deixadas à noite. O escuro encobria o anonimato dos abandonos. A mãe aí se limitava a depositar o bebê, tocando um sino para despertar a atenção do funcionário encarregado de vir recolher o “enjeitado”. Muitas delas deixavam bilhetinhos explicando as razões do abandono, pedindo cuidados para o filhinho e prometendo vir buscá-lo quando pudessem. Pobreza, doenças, morte de um dos genitores e bastardia são as razões mais invocadas nessas tristes mensagens. Os reencontros eram raros, pois os índices de mortalidade infantil, nessas instituições, oscilavam em torno de 50 a 70%.
No século XIX, a promulgação da Lei do Ventre Livre aumentou mais ainda o abandono. Para fugir ao texto da lei que exigia dos senhores cuidar dos filhos das suas escravas, eles obrigavam as mães a abandonar seus pequerruchos. O artigo segundo da mesma lei dispunha sobre o destino dado a essas crianças: inicialmente, elas eram encaminhadas para estabelecimentos públicos ou instituições autorizadas pelo governo. Se sobreviviam, meninos a partir dos sete anos iam trabalhar em troca de teto e comida no Arsenal da Marinha. Meninas seguiam nas mesmas condições para o Recolhimento das Órfãs. Se insistiam em
viver, aos catorze anos podiam  empregar-se, recebendo salários.

Outra prática que acabou lançando centenas de crianças à rua foi a de entregar recém-nascidos aos cuidados de amas de leite. Disseminada no século XIX, esta “moda” vinda da Europa levava os senhores a separarem suas escravas de seus filhos para obrigá-las a amamentar crianças brancas. Não foram poucas as teses defendidas na Academia de Medicina do Rio de Janeiro que bramiam contra senhores que comercializavam escravas recém-paridas: “É necessário reprimir o abuso dos senhores de escravos, que mandam lançar na Roda ou abandonam os ingênuos com o fim de alugarem as mães”, denuncia uma delas.

No início da industrialização em São Paulo, crianças pequenas eram empregadas na indústria e em toda a sorte de manufatura, atendendo a anúncios como o publicado no Estado de S. Paulo, em agosto de 1875: “Na rua São Bento n.85 admitem-se meninos de 10 anos para cima para aprenderem ofício de empalhador e envernizador e marceneiro”. Eram corriqueiros, nas fábricas, os acidentes em que as crianças tinham braços e mãos despedaçados por não conseguirem lidar com máquinas complicadas durante exaustivas jornadas. No ano de 1920, a participação da mão de obra infantil no setor secundário era da ordem de 7% e jornais como “O Jornal do Comércio” e o “Estadão” seguiam noticiando a vida desumana dessas crianças.

Na época, criticando as instalações das fábricas, que compara a “velhos pardieiros”, um parlamentar acrescentava preocupado: “As crianças ali vivem na mais detestável promiscuidade… falta-lhes ar e luz; o menino operário, raquítico
doentezinho, deixa estampar na fisionomia aquela palidez cadavérica e aquele olhar sem brilho que denunciam o grande cansaço e a perda gradativa da saúde”.
Se voltarmos à cena do farol, não teremos dificuldade em reconhecer o mesmo
“olhar sem brilho” na criança que nos estende a mão.

Na verdade, nosso país tem uma tradição de centenas de anos de insensibilidade diante da infância pobre e desvalida. Apesar do assunto ser plataforma política nos anos de eleição, poucos cidadãos se importam com o que acontece fora da janela do carro. É como se esses anos de descaso tivessem ajudado a cristalizar uma espécie de histórica indiferença com relação a tal assunto. Se a história pode nos ajudar a compreender que nossas reações têm uma profunda marca cultural, ela talvez nos ajude a assumir uma nova postura perante essa situação. Estender a mão de volta para a criança não significa “dar o trocado”. Isso pode até acontecer. Mas a verdadeira mudança consiste em apoiar, com todas as forças, aqueles que concretamente possam fazer alguma coisa para mudar esse estado de coisas.

-Texto de Mary del Priore.

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Imagem de criança negra, século XIX (Instituto Moreira Salles).

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