Beleza e sedução femininas

Publicado em 10 de janeiro de 2014 por - História do Brasil

Em meados do século XIX, a aparência, segundo Gilberto Freyre, tinha muito a dizer sobre homens e mulheres no sistema patriarcal em que se vivia. O homem tentava fazer da mulher uma criatura tão diferente dele, quanto possível. Ele, o sexo forte, ela o fraco; ele, o sexo nobre, ela, o belo.  O culto pela mulher frágil, que se reflete nesta etiqueta e na literatura e também no erotismo de músicas açucaradas, de pinturas românticas; esse culto pela mulher é, segundo ele, um culto narcisista de homem patriarcal, de sexo dominante que se serve do oprimido – dos pés, das mãos, das tranças, do pescoço, das ancas, das coxas, como de alguma coisa quente e doce que lhe amacie, excite e aumente a voluptuosidade e o gozo. Nele, o homem aprecia a fragilidade feminina para sentir-se mais forte, mais dominador. Seios interessavam? Ainda não. Eram chamados pelos médicos de “aparelhos de lactação”.

Todo o jogo de aparências colaborava para acentuar a diferença: a mulher tinha que ser dona de pés minúsculos. Seu cabelo tinha que ser longo e abundante e preso a penteados elaboradíssimos para fazer frente a bigodes e barbas igualmente hirsutos. Homem sem barba era maricas! Brilhantes, sob o efeito de pomadas e cremes, presos em coques e tranças, trabalhados com flores artificiais ou naturais, em penas de aves ou seda, a capa capilar também servia de atrativo para os homens. A cabeleira feminina era tão importante nos jogos de sedução que as que não a tinham, aumentavam os seus com cabelos de meninas mortas, vendidos em bandejas pela rua.

A cintura feminina era esmagada por poderosos espartilhos, acentuando os seios aprisionados nos decotes – o peito de pomba. Escapulários e medalhões serviam para destacar o colo. E o traseiro era valorizado graças às anquinhas. O “talhe de vespa” ou cintura estreita fazia parte dos padrões de beleza física. Uma tal armadura era responsável, segundo os médicos mais esclarecidos, por problemas respiratórios e hemoptises, ajudando a desenhar a figura da heroína romântica: “a pálida virgem dos sonhos do poeta”, doente do pulmão. A complicação das roupas tinha um efeito perverso: ela suscitava um erotismo difuso que se fixava no couro das botinas, no vislumbre de uma panturrilha, num colo disfarçado sob rendas. A aparência desejável e sedutora era fundamental.

A acentuada diferença nos papéis matrimoniais não escapava aos mais observadores, confirmando as impressões do sociólogo pernambucano: “quando o brasileiro volta da rua, reencontra no lar uma esposa submissa, que ele trata como criança mimada, trazendo-lhe vestidos, joias e enfeites de toda espécie; mas essa mulher não é por ele associada nem aos seus negócios, nem às suas preocupações, nem aos seus pensamentos. É uma boneca, que ele enfeita eventualmente e que, na realidade, não passa da primeira escrava da casa, embora o brasileiro do Rio de Janeiro nunca seja brutal e exerça seu despotismo de uma maneira quase branda,” dizia a professora francesa Adéle Toussaint-Samson. – Mary del Priore

Almeidajunior

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!