Beijos, beijos, beijos….

Publicado em 13 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

Atualmente, é muito comum vermos as pessoas se beijando em público: adolescentes, adultos, heterossexuais e homossexuais. O beijo gay em uma novela do horário nobre, entretanto, ainda causa comoção nacional. No passado, o este ato de carinho, amor e desejo era visto como pecaminoso e até perigoso.

Na Idade Média, trovadores exaltavam o amor impossível, a mulher inatingível. Todos os esforços de conquista terminavam, quando muito, num casto beijo. Na intimidade amorosa, assim como em sociedade, o perfeito amante não era mais do que o fiel servidor de sua dama. O início do Renascimento expõe, sem disfarces, as virtudes do sexo assim como o charme de seus preparativos. E o faz sem cerimônias. Os aspectos carnais do amor se exprimem com franqueza radical; os poetas que buscam sem falso pudor as alegrias do leito ou do beijo e confessam preferi-los às carantonhas de devoção. Parecem, na sua sinceridade, escandalosos. Aproveitando-se da revalorização da Antiguidade, artistas variados tentavam unir a inconstância do apetite erótico com a filosofia de que era preciso viver o momento presente. Mas, fora das poesias e obras de arte, as coisas não mudaram tanto… A Igreja é sempre vigilante com relação à vida sexual e amorosa dos fieis, sobretudo, após a Contrarreforma.

No século XVIII, a Igreja continuava a sua tentativa de regulamentar a sexualidade do cotidiano, controlando desde o namoro às relações conjugais: “se desejou ou beijou, abraçou, tocou mulher para se deleitar, posto que o tocamento não fosse desonesto e que seja com pessoa com quem pretende se casar, não é pecado”. Gestos miúdos de afeto, como o beijo, eram controlados por sua “deleitação natural e sensitiva”, sendo considerado “pecado grave porque é tão indecente e perigosa”. Além de evitar beijos, – os temidos “ósculos” -, devia-se estar em guarda contra as sutilezas das menores expressões de interesse sexual que não conduzissem ao que era chamado de “coito ordenado para a geração”. Textos exibiam com insistência as palavras “boca”, “beijos”, “seios”, numa mostra clara de que faziam parte do universo do enamoramento. Há mesmo os mais diretos, como Bocage, poeta luso, que não hesita em declarar: “Eram seis da manhã, com um chupão lhe saudei a rósea boca”.

Nos dias de missa e festas religiosas, ou quando estavam vazias, eram ideais para a troca de beliscões, pisadelas e beijos furtivos por trás de colunas e altares. No Brasil, as missas do século XVIII eram animadas por toda a sorte de risos, acenos e olhares furtivos, transformando, para desgosto dos bispos reformadores, as igrejas em concorridos templos de perdição. A luz bruxuleante, as arcadas e colunas e os múltiplos altares laterais ofereciam recantos resguardados da  curiosidade alheia, onde se podia até mesmo tentar gestos mais ousados como um beijo ou um aperto de mão. A costumeira reclusão das donzelas de família e a permanente vigilância a que estavam expostos todos os seus passos, tornavam missas, procissões, ladainhas e novenas ocasiões sedutoras, para as quais contribuíam os moleques-de-recado e as alcoviteiras, ajudando a tramar encontros. Abrigo de amantes, a Igreja logrou converter-se, em certas circunstâncias, num dos raros espaços privados de conversações amorosas e jogos eróticos, os quais envolviam nada menos do que os próprios confessores. E tais jogos eram perpetrados até mesmo, no refúgio dos confessionários.

É difícil auscultar os sentimentos e apelos eróticos da sociedade colonial, sendo as fontes tão pouco numerosas, esclarece Ronaldo Vainfas. As da Inquisição, se referem à “palavras de requebros e amores” e a “beijos e abraços”, sugerindo prelúdios eróticos e carícias entre amantes. Atos sexuais incluíam toques e afagos, implicando na erotização das mãos e da boca. “Chupar a língua”, “enfiar a língua na boca” segundo os mesmos documentos não era incomum. A hostilidade da Igreja ao sexo transparecia também na perseguição aos chamados “tocamentos torpes”, toques ou beijos, que visavam apenas o gozo, sem a finalidade de procriação. Gestos de afeto, como o beijo por “deleitação carnal e sensitiva”, eram considerados “indecentes e perigosos”. Além disso, as esposas deviam estar em guarda contra os chamados “tatos venéreos sensuais e carnais”, ou seja, todo toque sobre parte do corpo tida por macia e aveludada… Ainda segundo um sisudo padre confessor do século XVIII, seriam também pecados graves “apertar a mão de uma mulher, beliscá-la, pisar-lhe o pé”.

Nos setores populares, em que a mulher tinha maior autonomia e menos controle familiar, a sexualidade era menos reprimida. O tabu da virgindade, violado. O contato físico não era ocultado. Casais se abraçavam e se beijavam pelas ruas. Na casa das famílias tradicionais, contudo, a intimidade física era proibida. Nas cartas, noivos se despediam com um “beijo-te, com muito respeito, as mãos”. Tais comportamentos aumentavam a distância entre umas e outras. Arroubos não foram incomuns; beijos roubados e furtivas bolinações eram práticas usuais regadas a propostas lascivas e palavras amatórias. Alguns tocamentos podiam ser tímidos, escondendo confessados desejos. Rostos e mãos levemente roçados por dedos ávidos ou mãos apertando outras.

Com a chegada do século XX, as coisas começam a mudar. O modelo ideal de mulher continua sendo a casta, que se preserva para o marido. Entretanto, começam a surgir mulheres que ostensivamente rejeitam tais normas. O avesso da santinha era a moça dos tempos modernos, a garota dos Anos Loucos, “uma pobre mariposa: “esbagachada”, cheia de liberdades, de saia curta e colante, de braços dados e aos beijos com homens, com decotes muito baixos, perfumadas com exagero, excessivamente pintadas, “postas na vida como a figura distante de uma paisagem cubista”, na síntese da Revista Feminina de maio de 1918. Beijos e carícias públicas causavam escândalo.

O namoro era cheio de regras. Depois do período de flerte, a moça deveria concordar em conversar com o pretendente, permitindo depois, ser acompanhada na rua, marcando, por último, um novo encontro à porta, à janela ou a certa distância da casa. Esse primeiro-passo, às vezes necessita da ajuda ou da mediação de uma alcoviteira, ou onze-letras – chamadas de cocada, na Bahia, de pau-de-cabeleira, noutros lugares, de doce-de-pêra, no Rio Grande do Sul –que se empenham em facilitar a comunicação, os contatos, os encontros. Uma tia, uma prima ou madrinha podiam ser o contato. O processo podia se acelerar com beijos furtados nas matinês dos cinemas e mais fundos, nos quintais. Quando o namoro amadurecia e chegava a ser conhecido da família da moça, assumia o caráter de compromisso, condicionado pelo consentimento dos pais. Houve tempo em que, nesta altura, o rapaz tinha que se declarar, exprimindo verbalmente seu amor, a paixão e a intenção de casar-se.

Nos anos 40, o contato físico se estreitava. No cinema e nas revistas, multiplicavam-se as fotos de artistas, olhos nos olhos, perdidos de “paixão”. Nas telas, os beijos eram sinônimo de happy end. Beijos se tornam mais demorados, uma verdadeira arte da sucção bucal se instala e todos a imitam. Beijar também passa a ser sinônimo de namorar. No meado do século XX, continuava-se a acreditar que ser mãe e dona de casa era o destino natural das mulheres, enquanto a iniciativa, a participação no mercado de trabalho, a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade.

Quanto às formas de aproximação e compromisso, as regras mínimas para os encontros eram bem conhecidas. O rapaz devia buscar a moça em casa e depois trazê-la de volta – mas se ela morasse sozinha, ele não poderia entrar-; o homem sempre pagava a conta; moças de família não abusavam de bebida alcoólica e de preferência, não bebiam; conversas ou piadas picantes eram consideradas impróprias; os avanços masculinos, abraços e beijos deviam ser firme e cordialmente evitados; a moça tinha que impor respeito.

No final dos anos 60, com a chamada Revolução Sexual, carícias se generalizavam, e o beijo mais profundo – o beijo de língua, ou french kiss –, antes escandaloso e considerado até um atentado ao pudor, passava a ser sinônimo de paixão. Na cama, novidades. A sexualidade, graças aos avanços da higiene íntima, estende-se da boca a outras partes do corpo. As preliminares ficavam mais longas. A limpeza do corpo e certo hedonismo já latente alimentavam carinhos antes inexistentes. Todo corpo a corpo amoroso tornou-se possível. No quarto, a maior parte das pessoas ficava nua, embora no escuro – amar ainda não era se abandonar. É bom não esquecer que os adultos dos anos 1960 foram educados por pais extremamente conservadores; regras de pudor muito estritas lhes haviam sido inculcadas. Na moda, a minissaia começava a despir os corpos. – (Baseado em “Conversas e Histórias de Mulher” e Uma História do Amor no Brasil”, de Mary del Priore).

kiss

“O Beijo”, de Rodin.

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