Babás de branco e crianças escravas. Será que voltamos no tempo?

Publicado em 16 de junho de 2015 por - temas atuais

Hoje, fomos surpreendidos por duas notícias bastante bizarras, que apareceram sem muito destaque na mídia, mas que nos ajudam a enxergar a nossa sociedade em sua forma mais cruel. Uma reportagem da TV Record nos mostrou que crianças negras e pobres da comunidade quilombola dos Kalunga, em Goiás, são submetidas há muitos anos a condições de escravidão: são obrigadas a fazer serviços domésticos e usadas como escravas sexuais dos patrões. Já em São Paulo, um tradicional clube será investigado pelo Ministério Público por exigir que as babás estejam vestidas de branco para entrar nas suas instalações.

       O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, em 13 de maio de 1888. Não houve nenhum tipo de esforço para inserir os ex-escravos na sociedade. Pelo contrário, no século XIX, as teorias de “branqueamento” da população brasileira estavam em alta: o objetivo era ir gradualmente apagando a presença dos negros em nossa sociedade, até que seus vestígios desaparecessem. Como sabemos, essa estratégia fracassou, mas ainda hoje vivemos com as feridas do escravismo, que insistem em aparecer sob a forma de racismo, discriminação, miséria e exclusão.

       As crianças escravas sofriam com o excesso de trabalho, más condições higiene e alimentação, abusos sexuais e violentos castigos físicos. Já mencionamos anteriormente a prática, comum entre os senhores de engenho e seus filhos, de violentar uma “negrinha” virgem para curar a sífilis, como nos contou Gilberto Freyre. Desde as primeiras Visitas do Santo Ofício ao Brasil, no século XVI, era registrado o estupro de crianças. “Meninos e meninas de seis, sete e oito anos eram violentados por adultos sem nenhum drama de consciência. Senhores sodomizavam moleques ou molecas escravas, padres aos seus coroinhas, enfim, parentes e crianças da família participavam de uma ciranda maldita na qual um único pecado contava para a Igreja: o do desperdício do sêmen”, relata Mary del Priore, em “Histórias Íntimas”.

       Infelizmente, a pedofilia é um mal que continua vivo na sociedade contemporânea, atingindo com mais força (mas, não unicamente) os mais pobres e vulneráveis. Nos dias de hoje, crianças são explicitamente escravizadas, forçadas a trabalhar e a suportar o abuso sexual e a tortura. Estaríamos voltando no tempo ou essa realidade nunca deixou de existir, ficando apenas mascarada pela nossa ilusão de “democracia racial” e modernidade?

       No mesmo contexto, fico um tanto chocada com a notícia de que as babás são obrigadas a se vestir de branco para entrar nas dependências de um clube de São Paulo. Não acho que usar uniforme, em si, seja degradante a qualquer trabalhador, pois, várias categorias profissionais têm essa característica. No serviço doméstico, há certa polêmica envolvendo o assunto, mas acho que cada profissional deve negociar as suas exigências no contrato de trabalho. Já conheci trabalhadores, desse e de outros setores, que odeiam usar uniforme e outros que gostam, por ser mais prático.

      A questão, porém, é mais complexa nesse caso do clube. A pessoa que fez a denúncia, que é sócia, inclusive, já tentou explicar à direção de que a sua funcionária não usa nenhum tipo de uniforme, mas, mesmo assim, a sua entrada não é autorizada se ela não estiver vestindo branco. Por quê? A impressão é de que a instituição quer que as babás sejam identificadas à primeira vista, que não sejam confundidas com os frequentadores, que não circulem por onde não lhes é permitido, enfim, que não se “misturem” com os sócios. A ideia é claramente mercar as diferenças de classe, deixar bem claro quem é quem, distinguir o patrão do empregado.

      O episódio me faz voltar ao passado, mais uma vez. Nos tempos coloniais, havia regras rígidas de vestuário (que constantemente eram burladas). Os escravos não podiam usar sapatos, nem joias, nem tecidos finos. A elite não economizava no luxo na hora de sair à rua: tecidos, joias, acessórios, liteiras e muitos escravos. Era assim que o fidalgo, ou pretenso fidalgo, se diferenciava da “arraia-miúda”, do populacho.  As aparências eram muito importantes na época colonial, para manter uma ilusória harmonia social.

     Mais de 120 anos após a abolição de escravidão, percebemos que a mentalidade do brasileiro não mudou tanto quanto gostaríamos. Será que algum dia aprenderemos a encarar racionalmente o nosso passado escravista, patriarcal e baseado na ostentação vazia?

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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O jantar em uma casa brasileira, de Debret; foto de uma ama carregando uma criança branca, acervo do Instituto Moreira Salles.

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4 Comentários

  1. Laís Esther Cardoso disse:

    O pior que não voltamos no tempo ele simplesmente passou e a realidade da população negra de certa forma contínua a mesma. Somos subalternizados e as relações são camufladas pelo Capitalismo que não quer reforma agrária, que quer reduzir a maioridade penal, que quer tratar como igual quem nunca teve direito social, politico ou civil em suas vidas. Devemos educar sim as nossas crianças para nao serem elas repercursoras das violências racistas que determina classe e raça, o belo e o não belo, o aceitável e o não aceitável. Mas os adultos não devem e não podem ficar fora desse processo, somos seres dotados de razão e cabe a nós transformamos a realidade onde vivemos. Somos reflexos do meio em que vivemos assim diz Durkheim. Crianças que nascem em meio precoceituoso e racista reproduzem a realidade vívida. Temos de tratar a sociedade em si e educação transformadora e crítica faz parte desse processo.

    • marcia disse:

      Infelizmente, a sociedade brasileira resiste muito na hora de enxergar a si mesma de forma realista. Preferimos nos enganar e fingir que vivemos em um país livre do racismo e do machismo. Por isso, é muito importante a educação – em casa e na escola – para melhorarmos esse quadro. Obrigada!

  2. Para encararmos nosso passado escravista, racista e patriarcal, seria necessário educarmos nossas crianças para enxergarem e não tolerarem essa realidade. Isso deveria acontecer em casa e na escola.

    Mas como conseguir isso se em casa, e na própria escola, a criança é “orientada a não se misturar”? Ela é incentivada, desde cedo, a se diferenciar pela roupa, pelo smartphone, etc. Conheço pais que se orgulham do fato de seus filhos “serem melhores” que os do vizinho.

    Os adultos não promoverão essa mudança porque, com raras e honrosas exceções, já foram “treinados” desde criança, em casa e na escola, a deixar bem claro quem é quem nessa sociedade machista, patriarcal, preconceituosa, racista, porca e – por que não? – criminosa.

    E ainda acham que entupir as cadeias com os pobres e negros é a solução para a segurança pública.

    Um abraço, Márcia!

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