As mulheres paulistas: belas e guerreiras

Publicado em 27 de setembro de 2014 por - História do Brasil

São Paulo, uma cidade pacata de cerca de 7 mil habitantes, com características rurais e urbanas ao mesmo tempo, era diferente do Rio de Janeiro. Cortada por 38 ruas, possuía então dez travessas, sete pátios e seis becos. Bem abastecida, sobretudo no início do século XIX, via crescer à sua volta víveres baratos de primeira necessidade: cará, repolho, nabo, batata-doce, milho, feijão, arroz e sofisticados aspargos e alcachofras. Baratíssimos eram porcos e frangos criados em sítios nas vizinhanças. Jacus, mutuns e macucos eram engordados como galinhas.

Casas governadas por pessoas solitárias, celibatários e viúvos, homens e mulheres,
expunham a instabilidade dos laços matrimoniais. Quase 40% da população paulista
residia só e havia forte predominância feminina. Nas ruas Direita, do Comércio (atual
rua Álvares Penteado), Boa Vista, ladeira do Carmo (que é hoje o primeiro trecho da
avenida Rangel Pestana), São Bento e arredores, onde havia uma diversificação maior
de atividades urbanas, proliferavam os domicílios de solteiras com filhos ilegítimos.
Muitas tinham vida familiar independente, por conta da inconstância da população
masculina da cidade, que, por motivos econômicos, se deslocava com frequência para
outras regiões. Por outro lado, a dificuldade do casamento, fosse por falta de papéis
ou em função dos altos custos, e a proliferação das uniões esporádicas, principalmente
entre as camadas mais pobres da população, reforçavam esse quadro.
Havia mulheres chefes de família, que, sozinhas, tocavam a própria
vida e a de seus dependentes. Elas perfaziam, nas primeiras décadas do século XIX,
entre 40% e 60% da população paulistana. Entre elas, havia muitas brancas
empobrecidas. Ao sul da Sé, à sombra dos amplos sobrados ricos de comerciantes,
fazendeiros ou funcionários públicos como seu pai, multiplicavam-se aquelas que
vendiam serviços: costurar em domicílio, ensinar meninas, fazer doces ou quitutes
vendidos em pequenos tabuleiros forrados com toalhas brancas ou fazer rendas.
Muitas viviam da venda de suas quitandas, ou seja, produtos cultivados em pequenas
roças fora da cidade ou do comércio de excedentes: velas, farinha, fumo, sabão.
Outras alugavam cômodos aos homens celibatários que viviam de seu trabalho. Às negras e mulatas cabiam os serviços mais aviltantes: carregar água ou lixo, lavar
roupa, ser vendedora ambulante, fiar ou cuidar da roça. Diferentemente da corte, onde
eram maioria, os escravos perfaziam 28% da população.

Na cidade de São Paulo, a autoridade feminina era um fato e, com sua liderança
econômica e moral, ela consolidava uma posição de poder entre a parentela e a
vizinhança. Mulheres recorriam às autoridades para fazer prevalecer suas vontades no
âmbito de querelas familiares. A luta para sobreviver no improviso do dia a dia fez das
paulistas figuras fortes, capazes de ilustrar versinhos satíricos: “Paulista de Taubaté,
cavalo pangaré, e mulher que mija de pé, libera nos Dominé…” Ou respeitosos: “Nóis
agora vamos embora/ com muita satisfação/ Na frente vai a dona/ de nosso belo
mutirão.”

Multiplicavam-se as imagens de jovens lutadoras, cheias de vida, capazes de vencer
intempéries. Os contos de serão, aqueles glosados ao pé do fogo à noite, relatavam
estórias de mulheres com qualidades práticas, capazes de artimanhas, de improvisar
ardis, arrastadas para adversidades que eliminavam graças às habilidades de donzelas
guerreiras.

A bastardia era tolerada e havia uma atitude de complacência em relação aos filhos
tidos fora do casamento. Havia mesmo um bairro na cidade, o do Pari, às margens do
Tietê, sobre o qual se registrou: “Quase todo de gente bastarda.” Na Espanha,
Portugal e Brasil, tais filhos participavam na herança dos pais, concorrendo inclusive
com os herdeiros legítimos. Elas, inclusive, acobertavam nas suas casas os filhos
ilegítimos dos maridos, que continuavam como enteados mesmo após a morte do
cônjuge.

Como eram vistas paulistas como por viajantes estrangeiros que por ali
passavam? Consideradas as mulheres mais belas do Brasil, a ocupação delas era
“coser, rendar e bordar”, diria o mineralogista inglês John Mawe. Elas iam às igrejas
vestidas de seda negra, cobertas até a cabeça. Já nos bailes, iam de branco e
gostavam de dançar. “Abandonavam-se a banhos quentes” e, segundo Mawe, eram sérias. “Atribuo o costume que se diz reinar entre elas, de atirar flores das sacadas sobre os transeuntes, de acordo com seu capricho, ou presentear com uma flor ou ramalhete seus favoritos, a uma prova de deferência.” – Mary del Priore.

costumes SP- Rugendas1

“Costumes de São Paulo”, Rugendas.

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1 Comentário

  1. Iolanda Figueiredo disse:

    Muito interssante este artigo.
    Historia e uma das minhas leituras preferidas. Thank you!

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