AS MULHERES, A NONA ARTE E A EXCLUSÃO

Publicado em 10 de janeiro de 2016 por - Educação

Por Natania Nogueira.

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Imagem disponível em: http://zip.net/bssFR1,  acesso em 06 de jan. 2016.

 

A indústria dos quadrinhos, no mundo todo, conta com a participação de artistas, escritores, editores e outros profissionais envolvidos na produção de álbuns (revistas em quadrinhos) que, de país para país possuem uma grande importância. Imagino que não seja um assunto de conhecimento do público geral, mas existem grandes eventos em que anualmente são entregues prêmios em reconhecimento ao talento de autores de Histórias em Quadrinhos.

No Japão, por exemplo, o ministro Taro Aso, em 2007, criou o Prêmio Internacional de Mangá para mangakás não japoneses, com o objetivo de promover o estilo de quadrinhos japonês no mundo. Ele foi, também, responsável pelo projeto do Centro de Abrangência Nacional para Arte Mídia, orçado em 11,7 bilhões de ienes. Há quem compare o sonho de se tornar um mangaká, naquele país, com o de se tornar jogador de futebol no Brasil.

Um dos mais famosos eventos envolvendo criadores e editores de Histórias em Quadrinhos de todo o mundo, considerado por alguns meios midiáticos como o “Oscar dos Quadrinhos”, é o Festival Internacional de Angoulême, na França. Criado em 1974, o festival encontra-se atualmente na sua 43º edição e reúne autores de todo mundo, com destaque para autores franco-belgas.

E é justamente o Grand Prix (Grande Prêmio) do Festival de Angoulême o tema de uma polêmica ocorrida nesta semana, envolvendo jornalistas, quadrinistas e pesquisadores da área de todo o mundo. Foi lançada a lista com o nome de 30 autores indicados, de várias nacionalidades, que iriam concorrer ao Grand Prix deste ano, pelo conjunto de sua obra. Foram 30 homens, nenhuma mulher!

Imagine a situação: um prêmio internacional que não encontra uma mulher sequer que possa concorrer juntamente com outros homens. Imediatamente os coletivos formados por autoras de quadrinhos deram o grito: onde estão as mulheres?

Com o clamor das mulheres, veio a solidariedade de vários autores citados na lista, que foram se retirando do prêmio. Em pouco tempo, da lista de 30 indicados restavam apenas 20. O assunto ganhou uma proporção tão grande que a organização tentou se justificar alegando que “não podia refazer a história dos quadrinhos” e argumentando que a porcentagem de mulheres que atua na área é pequena, de apenas 12,4%.  Não penso que talento se meça por números, nem concordo com esta visão de uma história estanque, imutável.

Em vez de acalmar os ânimos, a justificativa apenas deixou todos mais revoltados. Por fim, a lista foi abolida e estabeleceu-se uma votação por autor, aberta, sem lista, não referente a obras em particular. O estrago, porém, já estava feito.

Embora o Festival Internacional de Angoulême declare-se democrático e negue o sexismo, a mesma história que eles dizem que não poder ser “refeita” mostra o contrário. A quadrinista e pesquisadora estadunidense, Trina Robbins, por exemplo, revelou-me em uma conversa que, em 1996, quando publicou seu livro “A Century of Women Cartoonists,” escreveu uma carta à organização do festival solicitando espaço para divulgar seu livro, no que teve a resposta de que eles não estavam “interessados ​​em mulheres cartunistas”.

Entretanto, se Angoulême não está disposto a acolher abertamente o talento feminino isso não impede ele saia das sombras. No dia 21 de janeiro, será concedido 9º Prêmio Artemísia. Este prêmio é concedido pela Associação Artemísia, que, nas palavras da sua presidente, Chantal Montellier, tem como objetivo “honrar e encorajar o trabalho criativo das mulheres”. O Prêmio Artemísia 2016 será entregue a Sandrine Revel, pela sua obra “Glenn Gould, une vie à contretemps”, uma bela biografia em quadrinhos, que explora a vida do famoso pianista: uma obra rica e muito bem documentada.

A quadrinista Ana Luiza Koehler ressalta a importância de se incluir mulheres em posições de decisão como uma forma de acabar com a exclusão. É preciso exigir paridade de gênero em júris, curadorias, organizações, equipes editoriais, etc. Chantal Montellier lamenta a falta de politização e engajamento social de parte da nova geração de quadrinistas, o que dificulta o rompimento do ciclo de machismo e, consequentemente, com a exclusão que se observa no meio.

Ignorando o fato de que se trata de uma área específica de atuação profissional, a exclusão das mulheres da lista de indicados para o Grand Prix de Angoulême chama atenção para os obstáculos que as mulheres enfrentam ainda hoje no mercado de trabalho, em que apenas competência e talento não têm sido suficientes para garantir seu reconhecimento. Por outro lado, temos aflorado uma rede cada vez maior de solidariedade, entre homens e mulheres, que não mais aceitam este tipo de exclusão. Neste contexto, o feminismo que surge dentro dos coletivos e das associações que defendem o direito das mulheres de estarem lado a lado como os homens nos mostra uma realidade onde a igualdade entre sexos não se traduz em uma competição entre sexos, mas no desejo de uma sociedade mais justa que saiba reconhecer o mérito de cada um, independentemente de sua origem social, gênero, orientação sexual, religiosa ou étnica.

 

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