As “ligações perigosas”: história, sedução e estupro

Publicado em 13 de janeiro de 2016 por - História

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A ideia não é nada original: adaptar para a TV o romance epistolar de Choderlos de Laclos, “As Ligações Perigosas”, publicado em 1782. O livro já foi bastante explorado pelo cinema, sendo que sua versão mais conhecida é de 1988 e conta com um elenco de famosos, encabeçado por Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer. Houve, porém, muitas outras filmagens, que tentaram, inclusive, transportar a trama para diferentes tempos e espaços. Exatamente o que uma emissora de TV está fazendo atualmente. A minissérie brasileira transfere a ação para os anos de 1920.

A minissérie causou polêmica ao mostrar uma cena de sexo entre um homem mais velho e uma jovem. No livro, o Visconde de Valmont é um sedutor muito experiente que aceita cortejar a adolescente, a pedido de uma amiga, a Marquesa de Merteuil. Ela quer se vingar do amante, que terminou o romance com ela para se casar com Cécile. A menina havia sido educada em um convento, de forma rígida, e sua inocência seria motivo de orgulho para o futuro marido. Entretanto, caso a jovem fosse seduzida e não fosse mais virgem, seria uma grande vergonha para o noivo e para a família.

Na minissérie, a cena foi muito criticada por mostrar um estupro. Mas voltemos à história original, nela Valmont entra no quarto de Cécile, com um pretexto, e tenta beijá-la e acariciá-la à força, chantageando-a, lembrando que, se ela gritasse, ele diria que ela o havia encorajado a visitá-la de madrugada em sua alcova. Sua reputação estaria arruinada para sempre, enquanto ele nada sofreria. Assim ele descreve a situação em uma carta:

“Depois de ter desfeito seus primeiros receios, como não estava ali para conversar, arrisquei algumas liberdades. (…) Mudei de tática e imediatamente tomei posição. Aqui pensamos estar perdidos ambos: a menina, muito assustada, quis gritar de verdade; felizmente, a voz extinguiu-se no choro. Ela se atirou também ao cordão da campainha, mas minha destreza reteve o braço a tempo. (…) Esta curta arenga não acalmou nem a dor nem a cólera; mas acarretou submissão. Pois bem, a terna amorosa, esquecendo seus juramentos, cedeu primeiramente e acabou por consentir. Não é que após esse primeiro momento as censuras e lágrimas tivessem deixado de voltar; ignoro se eram verdadeiras ou falsas, mas, como sempre acontece pararam logo que me preocupei com lhes dar um motivo”.

O sedutor se gaba da conquista em uma carta à amiga, Marquesa de Merteuil, dizendo que a noite acabou com ambos satisfeitos e de comum acordo sobre um novo encontro. A jovem também escreve à marquesa, arrependida e confusa com o ocorrido. E se culpando por “não ter se defendido o quanto podia”. Os limites entre sedução e estupro naqueles tempos eram nebulosos. O homem via cada conquista como uma vitória, não apenas sobre a mulher, mas também sobre o marido e a família da vítima. A culpa era sempre dela: por ter permitido chegar a essa situação, ficando a sós com um homem; por não ter lutado o suficiente; e até, por não ter morrido por sua honra.

A obra de Laclos mostra bem esse jogo perigoso de sedução, e também a fragilidade das mulheres nesse contexto. O romance é um retrato vivo da sociedade na fase final do Antigo Regime.  A ideia que perpassa a história é de representação. Os personagens, libertinos ou não, representam seus papéis sociais de acordo com as complicadas regras em vigor. A Marquesa de Merteuil, por exemplo, arquiteta uma complicadíssima vingança para não comprometer sua imagem de mulher honesta. Quando as máscaras caem, a tragédia entra em cena. Para que a história nos cative, precisamos entender minimamente como funcionava aquela sociedade às vésperas da Revolução Francesa. Como vivia a aristocracia, mergulhada no luxo e no ócio. O que significava a conquista amorosa, o casamento, o sexo, o amor…

Por isso, acho complicada a adaptação para épocas diferentes: perde-se muito da essência da obra. Talvez por esse motivo, a cena da “sedução” na minissérie tenha causado tantas reações negativas. A cena, que por sinal ficou quase igual à do filme de 1988, mostrava uma garota chorando e dizendo “não” para o sedutor. Ele, então, tapa a sua boca com a mão e deita sobre ela. A próxima tomada mostra o rosto da moça, feliz e cheia de prazer. Romantização do estupro? Sem dúvida. Outra mensagem perigosa que a minissérie passa é de que o “não” nem sempre quer dizer “não”. E de que as mulheres, muitas vezes, afirmam não querer fazer sexo apenas para manter as aparências. Se o homem insistir…

As críticas à adaptação do romance para a TV são bastante procedentes. Ao retirar a trama de seu contexto histórico, a minissérie trilhou caminhos tortuosos e correu o risco de passar a mensagem errada, digamos assim. Sem falar que a história perdeu muito de sua força e encanto.- Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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Os personagens, Valmont e Marquesa de Verteuil,

nas versões para cinema e TV. Fotos: Divulgação.

 

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7 Comentários

  1. Antonio Carlos disse:

    Olha cada vez mais me encanto com este espaço , seus pensadores e colaboradores!Não quero aqui fazer juízo de pessoas ou sobre…mas concordo em partes com a escritora,hj o que percebo é que alguns textos,obras literárias,contos enfim…qdo são adaptados para o cinema e ou para tv e similares,tendem a seguir algumas regras sejam para atender a produtores,ou em busca de audiência e que as vezes com ou sem intenção perdem o simples,a poesia e muitas das vezes a real ideia da obra a qual o autor imaginou qdo criou ,quando teve sua inspiração.Claro que guardadas as proporções o mundo da arte vive pra “encantar e ganhar”com seus produtos…porém lembrando sempre que o quanto menos puder fugir do original em suas adaptações o publico sempre irá sempre ira agradecer…lembrando que não devemos nunca ficar presos claro nenhum métodos imposto ou forma de se fazer.adaptar criar enfim ai sim concordo com a amiga leitora ..Celina que ai perde o encanto a poesia..a magia que se existe em criar…compor…!!

    • marcia disse:

      Oi, Antônio Carlos. Nosso objetivo aqui não é fazer crítica de cinema, TV ou outras artes, mas destacar os aspectos históricos. A ideia é utilizar obras de arte e até fatos cotidianos para discutirmos questões ligadas à História. Por isso, como expliquei a Celina, não tenho a intenção (nem a pretensão) de desmerecer a minissérie, ela pode ser um ótimo entretenimento e agradar muitos espectadores. Apenas observei que a adaptação perdeu muito daquele panorama da época em que a história se passa, principalmente na polêmica cena do estupro/sedução da adolescente. Obrigada pelos comentários.

  2. celina disse:

    Desculpe pelo marquesa com z.

  3. celina disse:

    Minha leitura da minissérie diz sobre as relações humanas. Contém desde a virtude até a mais absoluta perversidade. Portanto, é atemporal. Por mais que evoluimos, repetimos sempre os mesmo erros do passado em nossas relações.
    Na realidade a história mostra o quanto o feminino pode ser destruitivo. Se o homem violenta pela força física, a mulher pelas emoções. A personagem da marquesa é vingativa, pérfida e cruel. Ela manipula o sedutor da história com a própria sedução. Ele é uma marionete em suas mãos. Seduz a garota para ajudá-la em sua vingança. Corrompe a virtuosa e beata Mariana e a transforma em uma vítima de seus desejos. Seus atos tem só têm um fim: para agradar a marqueza. Conquistá-la. E ela se diverte com seus sentimentos.
    Eis o que mais me encanta na boa literatura e dramaturgia. Reproduzir a alma humana, seja para o bem ou para o mal. Neste aspecto a obra merece aplausos.

    • marcia disse:

      Sem dúvida, Celina. Não estou tirando os méritos da minissérie, apenas discutindo os motivos pelos quais a cena da sedução/estupro chocou tanta gente. A essência da história pode ser mantida, apenas acredito ser uma pena perder todo aquele contexto da época. Mas essa é apenas uma opinião pessoal. O romance é muito rico e traz muitas questões interessantes para o debate. Obrigada pelos seus comentários.

  4. celina disse:

    O neo moralismo de nossos dias leva a uma série de equívocos e certamente se assim seguir acabará com a arte, a dramaturgia, a literatura. Quem se aventurá a escrever de agora em diante? Os patrulheiros estão a postos para censurar até mesmo os clássicos. Na Hollanda estão mudando os nomes de quadros de pintores famosos para não ofender as etnias. O que restará disso tudo? Um mundo intolerante sem cor e sem poesia.
    Pessoas que não saberão mais distinguir entre a realidade e a ficção. Que não entenderão que a dramaturgia precisa utilizar recursos fantasiosos para prender a atenção. Para prender a respiração. Para fazer sonhar. Que a tragédia existe para nossa própria catarse.
    Em tempo: na atual versão a história se passa no Brasil. Dá para imaginar como era nossa cidade na época em que o romance foi escrito? Uma colônia de ruas esburacadas e com menos de 150 mil habitantes. As ligações perigosas eram de outra natureza. Foi um grande acerto passar para os loucos anos 20 que só acrescentaram leveza e sofisticação para a história. Reconstituição de época impecável. Direção de arte extraordinaria. Um verdadeiro deleite para espectadores não moralistas.

    • marcia disse:

      Oi, Celina. As minhas observações não são de ordem moral, mas históricas. Como você mesma disse, as “ligações perigosas” no Brasil do século XX eram bem diferentes das da França, às vésperas da Revolução Francesa. Acho que a adaptação diluiu algumas questões muito fortes no romance como as ideia das representações sociais e a “libertinagem”, que tinham um significado específico na história. A cena do estupro/sedução apenas tornou isso mais evidente.

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