Aos pequenos deuses

Publicado em 23 de agosto de 2015 por - História do Brasil

Por Samuel Albuquerque.

No alvorecer da década de 1870, e ainda sob os influxos do Romantismo, Machado de Assis lançava-se à prosa, com os seus “Contos fluminenses”. Num desses contos, Machado caracteriza o que eu chamaria de “o bom viajante”, homem ou mulher que, “[…] voltando de uma longa e pitoresca viagem, trazia as algibeiras da memória cheias de vivas reminiscências”. Além disso, duas raras qualidades seriam indispensáveis ao viajante: saber ver e saber contar, pois “a maioria das pessoas que viajam nem sabem ver, nem sabem contar”.

Ao entardecer daquela mesma década, uma jovem sergipana desembarcou no memorável Cais Pharoux e deteve-se, durante meses, na cidade de Machado de Assis. Aurélia acompanhava o pai, o Barão da Estância, em sua nova jornada legislativa junto à Câmara dos Deputados, na capital do Império. Décadas depois, a respeitável viúva do senador Rollemberg deu provas de que era uma viajante ao modo de Machado. Reteve, nas “algibeiras da memória”, as “vivas reminiscências” do Rio oitocentista, registrando-as, com sensibilidade de quem sabe ver e sabe contar, em uma pequena caderneta que hoje é preservada no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe – após doação feita por seus bisnetos da família Fonseca Porto.

Há dez anos, publiquei o livro “Memórias de dona Sinhá”. Desde então, Aurélia tornou-se uma grande companheira de viagem. Se, no livro de 2005, editei e analisei, de forma geral, o seu texto de memórias, agora, no livro “Nas memórias de Aurélia” (Editora UFS, 2015), lanço-me em uma viagem mais profunda por suas reminiscências, explorando detidamente seus registros sobre o Rio de Janeiro de fins da década de 1870.

Aurélia viveu intensamente o Rio de Janeiro oitocentista sem, em momento algum, apartar-se do amor e das saudades que sentia do Escurial, antigo engenho/usina de açúcar, no vale do Vaza-Barris, em São Cristóvão, onde nasceu e viveu a maior parte de sua infância e juventude. Sinhá do engenho Topo, em Japaratuba, depois de casada com o médico Gonçalo de Faro Rollemberg, e senhora do movimentado casarão da Rua de Boquim, em Aracaju, Aurélia viveu muito e em muitos lugares. Mas, o seu coração pulsava plenamente quando, depois de longas ausências, chegava ao Rio ou retornava ao Escurial.

Entre a corte imperial e o palacete do Vaza-Barris, Aurélia foi feliz. Suas mais doces memórias remetem aos tempos de “rosas sem espinhos” em que viveu entre o Escurial e o Rio. Meu novo livro, desdobramento de parte da minha tese de doutorado, defendida em fins de 2013, na Universidade Federal da Bahia, trata desse momento da vida de Aurélia e, mais especificamente, das experiências dela e de sua preceptora Marie Lassius na capital do Império, em 1879.

Como escreveu Marco Lucchesi, em seu livro “O bibliotecário do Imperador”, o leitor é um “pequeno deus, que infunde vida aos livros, mediante o sopro adâmico da leitura”. Espero que as leitoras e os leitores do blog História Hoje também infundam vida ao meu novo livro.

Acervo do Museu Nacional de História AmericanaCapa 2

“Nas memórias de Aurélia” (Editora UFS, 2015).

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1 Comentário

  1. Iolanda Figueiredo disse:

    Thank you, once more, Ms. de Priore. Your articles bring so many good reminiscences of my youth, when our great authors were part of everyday life. When I travel, I behave like Machado would approve.

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