Amores de casa, amores da rua

Publicado em 20 de julho de 2014 por - História

Ao longo da Idade Média, enquanto trovadores cantavam amores impossíveis, os teólogos repetiam o aforismo de são Jerônimo: “Adúltero é também o marido muito ardente por sua mulher”. Mas por que maridos não podiam amar apaixonadamente suas esposas? Porque para a antiga moral cristã, inspirada no estoicismo, a sexualidade nos fora dada exclusivamente para procriar. Era perverter a obra divina servir-se dela por outras razões. Santo Agostinho, no século V resumia o casamento à procriação e ao cuidado com os filhos. O prazer puro e simples era “concupiscência da carne”, era esterilidade que submetia a razão aos sentidos. E pior: na sua opinião a força do desejo não viria de Deus, mas, de Satanás.

Conclusão: o casamento só era legítimo se colocado a serviço da prole, da família. É coisa muito recente, a Igreja católica exaltar o amor conjugal. Para muitos teólogos da atualidade, “as relações conjugais são imorais quando não há mais amor”. Elas não podem ser outra coisa que “expressões de amor”. Mas isto acontece hoje. Pois, no passado, o casamento estava longe de ser o lugar de encontro amoroso entre homens e mulheres.

Durante a Idade Moderna, uma definitiva transformação se acrescentou a esta tendência,. Com o surgimento de um contrato que passou a exigir a presença de um padre e de testemunhas, a obrigatoriedade da promessa dos esposos, mais  a presença do dote, das mãos sobrepostas, do anel e do princípio de indissolubilidade, as fronteiras entre as exigências do sacramento e as outras formas de convívio afetivo foram ficando cada vez maiores. Criou-se uma dicotomia. Por um lado, um sentimento regido por normas cada vez mais organizadas além de critérios práticos de escolha do cônjuge: o chamado “bem querer amistoso”. De outro, o sentimento ditado por razões subjetivas, por vezes, inexplicáveis. Ou seja, lentamente se construía um tipo de amor dentro do casamento e, outro, fora. Mas olhemos um pouquinho para traz para entender de que tipo de sentimento se está falando.

É certo que a ideologia moral expressa pelos estóicos – os que crêem que a felicidade está na virtude -, durante os primeiros séculos de nossa era, antes da expansão do cristianismo, favorecia a procriação, a propagação da espécie, como fim e justificativa do casamento. Muito amor, no entender de Jerônimo, confessor e doutor da Igreja, era justamente o amor sem reservas nem limites. E muito amor era ruim. Este era um tipo de amor nefasto, pois equivalente à paixão dos amantes fora do casamento. Um homem sábio devia amar sua mulher com discernimento e não com paixão. E consequentemente, controlar seu desejo e não se deixar levar pelo prazer do sexo. “Nada é mais impuro do que amar sua mulher como a uma amante. Que eles se apresentem às suas mulheres como maridos e não, amantes”. O tom de Jerônimo é o de um mandamento. A velha e banal fórmula do “amor contido” no casamento e do “amor paixão” fora do casamento, inicialmente formulada pelo estoicismo, não como uma prática, mas como a regra de um código moral, era aí aproveitada.

Nos textos do apóstolo Paulo, o amor fora do casamento, a fornicatio, a immunditia é implacavelmente condenada. A principal razão do matrimônio era a de responder ao desejo físico dos esposos por uma obrigação recíproca. A este compromisso chamavam debitum, ou débito conjugal, espécie de moeda a ser paga em relações sexuais entre marido e mulher. É evidente que de tal perspectiva moral, o debitum devia ser diferente dos jogos violentos da paixão e do erotismo.

A jurisdição deste termo traduz bem os limites do ato. Um ato higiênico, contido, quase cirúrgico. Tratava-se, sobretudo, de diminuir o desejo e não mais de aumentá-lo ou de fazê-lo durar. No lugar do amor erotizado, o amor ágape ou caritas. É a Paulo que devemos a formulação mais precisa desta tese nova, porém, mal explicada pelos Evangelhos. Nela, o apóstolo lembra aos homens que Deus os ama, mesmo não sendo amado. Que o dom gratuito deste amor paterno é o sacrifício do filho, o Cristo – logo, dom que é renúncia e oferenda. E que o amor do próximo, seja ele, amigo ou inimigo, significa a adesão ao batismo cristão. Adesão ao pai bíblico. Deste ponto de vista, Deus é amor. E amor que visa à ressurreição, por meio de um corpo puro, imaculado e isento de pecado. É o triunfo da idealização pela sublimação do sofrimento e pela destruição da carne. Amar é, portanto, ter o dom da caridade, logo da ágape, mas não só. É possuir, igualmente, o dom da confiança, da solicitude, da decência, da verdade. Caso contrário, o indivíduo, mesmo imbuído de outras qualidades, não é nada. “Se não tenho amor, nada sou”, diz são Paulo. E a perfeição desta realidade plena do homem amoroso é representada por Deus, Ele mesmo. Fora disto, como disse a religiosa portuguesa, sóror Mariana de Alcoforado, suposta autora de belas cartas de amor, “todo o resto é nada”.

Se os Padres da Igreja retomaram, por sua conta as justificativas estóicas do casamento, são Paulo, por sua vez, mostrava ter reservas a este respeito. O problema não parece lhe interessar. Ele o trata, de passagem, a propósito da mulher. Embora se salve pela maternidade, ela é que introduz o pecado no mundo – e não o homem. A fecundidade e a capacidade de procriar é tomada em conta como uma compensação para a inferioridade do sexo feminino. Malgrado sua preferência pela virgindade, são Paulo admite sem reserva o casamento e a união perfeita entre homem e mulher. “Os maridos devem amar suas esposas como seu próprio corpo”. Aquele que ama sua mulher, se ama”. Ele ressalva, contudo, que se os maridos são convidados a amar a mulher – diligite – estas  são convidadas a lhes ser submissas – subditae. A nuance, leitor, não é pequena. A submissão aparece como expressão feminina do amor conjugal. Apesar de sua diferença e por causa de sua complementaridade, marido e mulher não serão que um só corpo, erunt duo in carne una, fórmula que não designa apenas a penetração do sexos, mas também a confiança mútua, o apego recíproco, a identificação de um com outro.

Um tal amor não nasce como um raio, nem decorre da ingestão de filtros como os tomados por Tristão e Isolda, vítimas de um amor não conjugal. Não é necessário que ele pré-exista ao casamento. Isto, contudo, pode acontecer quando interesses de outro tipo não interferem nas inclinações e escolhas amorosas. Eis porque não há nada de chocante, nestes tempos, mesmo para a moral mais exigente, se os casamentos são negociados em função de alianças familiares ou políticas e de bens patrimoniais. A Igreja apenas preferia, em princípio, que a negociação fosse aceita pelos futuros contraentes e não imposta. Por outro lado, esperava-se que o amor se desenvolvesse depois do casamento, ao longo de uma vida comum.

Grande ausente dos registros cotidianos, o sentimento, todavia, se multiplica nos registros literários. E desde a Idade Média, pois se situa, comumente, o nascimento da imagem do amor-paixão na civilização cortesã do século XII. Suas características seriam  feitas de valores hostis ao casamento. Valores estes que fragilizavam a fidelidade conjugal. Sim, porque o amor cortes proibia terminantemente que se fizesse amor, sem amor. Pelo menos assim é que ele aparece na literatura, mesmo que, muitas vezes, exagerado ou descomedido. Tal literatura, por sua vez, teve o mérito de sublinhar o caráter subversivo de um tema que, séculos depois irá inspirar o amor louco – ou amour fou – entre os surrealistas.

E o que seria tal amor louco? Nele, a exaltação amorosa, exaltação alheia a leis e regras, feita de devoção ao amado ideal conduziu a aristocracia do início do Renascimento a valorizar, teórica e literariamente, a dama. Ou seja, a mesma mulher que era subserviente na vida real, condenada por são Paulo a obedecer. Próximo, às vezes, de um erotismo ao mesmo tempo erudito e interiorizado, seu conteúdo se alimenta a partir do século XVI de certa filosofia então muito na moda: o neoplatonismo. – Mary del Priore (baseado em “História do Amor no Brasil”).

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