Amor, sexo e morte: a morbidez dos românticos

Publicado em 31 de março de 2015 por - História do Brasil

Na época em que se publicavam os primeiros tratados sobre os espíritos, sexualidade e morte se aproximaram. Na pintura, a morte arrebatava donzelas com carinhos sensuais. Na escultura, belíssimos corpos femininos convidavam os passantes a dormir com eles… Para sempre. O teatro multiplicou cenas em cemitérios e túmulos. Contavam-se histórias sobre monges que copulavam com belas jovens mortas. A então chamada “galanteria” invadiu o Além.

Outro tema era o da morbidez definida como gosto mais ou menos sinistro pelo espetáculo físico da morte. O corpo morto e nu se tornou objeto de curiosidade científica e de prazer mórbido. Ciência e arte se deram as mãos. O cadáver virou personagem de lições de anatomia na vida real e na pintura. As cores de sua decomposição – verdes e cinzas – iriam inspirar pintores famosos. Nos túmulos, belas mulheres nuas com vestes transparentes substituíam a tradicional imagem da caveira comida de vermes ou de anjos com os olhos virados para o céu . Agora, não se viam mais esqueletos, mas seios e nádegas suavemente cobertos. Nos cemitérios, lustres e enfeites eram compostos com pequenos ossos.

E quem se interessou pelo assunto? Os intelectuais e estudantes. A boêmia literária que nasceu graças ao surgimento das faculdades de Direito em São Paulo e Recife, animou os estudantes. Eles viviam livremente em repúblicas, longe da família e mergulhados em muita literatura romântica. O poeta e lorde Byron era a grande inspiração.  A tradução de seu poema Lara veio na pena de Tibúrcio Antonio Craveiro que viveu na Corte entre 1825 e 1843. Por trás da aparência respeitável de um professor do Colégio Pedro II, se dissimulava uma vida de orgias e bizarrices. Sua casa era decorada com aparelhos de tortura, múmias e gravuras macabras. As paredes, borrifadas de sangue. A iluminação era garantida por velas pretas e vermelhas, como as que os condenados do Santo Ofício empunhavam a caminho da fogueira. Ele escrevia sobre uma lousa de mármore negro, que, diziam, fora retirada da sepultura de uma donzela.

Outro byroniano foi o conde Tierry Von Hogendorp, ex-general das tropas napoleônicas que se refugiou em Cosme Velho ao pé do Corcovado, no Rio de Janeiro. Dormia num quarto de paredes negras, com caveiras e tíbias cruzadas, esqueletos em branco representando a dança macabra: aquela em que a morte puxava pela mão um cordão de condenados. Sua cama era um ataúde.

Em 1845, em São Paulo, estudantes criaram a Sociedade Epicurea enquanto em Recife nascia a Filopança. Ambas promoviam orgias de inspiração byroniana. Na primeira, pontificavam Bernardo Guimarães e Alvarez de Azevedo. Nas farras realizadas na Chácara dos Ingleses – não à toa, Byron era nascido em Londres – se copiavam os personagens satânicos do poeta. Paredes cobertas de tapetes negros e decoradas com emblemas fúnebres e camas colocadas em catafalcos, entre círios recebiam prostitutas conhecidas na praça como Ana Bela, Tudinha do Inferno ou Marocas Peido Roxo.

Certa eleição de uma “Rainha dos Mortos”, em plena epidemia que grassava na cidade, terminou mal. Os estudantes resolveram desafiar a dama de branco e percorriam os cemitérios se divertindo em saltar sobre tumbas ou violá-las. Resolveram também ir buscar uma prostituta para encarnar a morte. A escolhida foi enfiada aos gritos de pavor num caixão e levada ao som de cantochões para o cemitério. Lá chegando, um estudante cujo apelido era Satã abriu o ataúde para possuí-la conforme os rituais macabros. Um grito e um susto: “- Morta. Está morta!”. A mulher morrera de terror. Abriu-se um inquérito, nunca solucionado, pois envolvia filhos de famílias influentes.

Mas, sem assombros, por favor! Cemitérios eram espaços sociais dignos de atenção. Localizados ao lado das igrejas, ali as prostitutas ofereciam seus serviços e as escravas vendedoras de comida ofereciam seus quitutes à saída da missa. Ao longo do século XIX, por razões de higiene, os campos santos iriam se afastar dos altares e se transformar em jardins, em cidades, em florestas com ciprestes, enfim, em dispositivos cênicos onde atuavam sonhos e dramas.  Para evitar a corrupção dos ares, a paisagem era dissimulada por plantas e flores. As necrópoles se pintavam de verde. Percorriam-se suas áleas para visitar túmulos conhecidos. Louvava-se a calma serena do lugar. Nele se observava a lua nascer, escutava-se o silêncio. Não havia a preocupação em dissimular a morte. Ela era cantada em prosa e verso. A morte era romântica e sensual. Louvava-se a passagem do visível ao invisível, o limite entre dois mundos. A lembrança dos desaparecidos era substituída pela sensação de sua presença. Pela impressão de sua permanência. Os afetos se prolongavam graças aqueles que falavam com os mortos.

A moda? Apreciar a beleza do horror, considerado uma fonte de sensações. O elo misterioso entre prazer e dor ganhou força no Romantismo. Beleza, morte e deleite se misturavam na pena de autores como Byron, lidos pelos brasileiros. Em Don Juan, sua personagem, Antonia, sente que uma alma penada ronda a casa e a espia noite e dia. No poema Giaour, de 1813, Byron menciona vampiros e outras reencarnações famintas de sangue. Imagens que serão apropriadas por autores da época como Polidori ou Prosper Merimée, pois a literatura de horror inglesa foi traduzida e teve grande influência na França e, por ricochete, no Brasil. Machado de Assis, não fez por menos. Em seus Contos da Meia Noite, plantou um poeta cujas estrofes intituladas “À beira de um túmulo” falavam de morte e vida, flores e vermes, amores e ódios, tudo num caldo de “oito ciprestes, vinte lágrimas e mais túmulos do que um verdadeiro cemitério”.

Mas, ao se aproximar do erotismo, a morte deixava de ser um evento familiar e aceito. Antes o convívio era feito de serenidade e aceitação. Mas, ao aproximar orgasmo e morte indicando uma ruptura, os homens passaram a ter medo de morrer. O sexo criou um distanciamento: quanto mais prazeres em vida, maior o medo da finitude.

Medo que era combatido pelo espetáculo e a festa. O campo santo virou local de piquenique, romaria cívica ou passeios domingueiros. A cada dia 2 de novembro, os jornais publicavam coluna social contando em quais jazigos se rezariam as missas mais concorridas, quais os túmulos mais enfeitados, quem comparecia às capelas, tudo se refletindo, como diria mais tarde Lima Barreto no prestígio e na grandeza dos túmulos. A morte era um espetáculo!

“O meu propósito era dizer a vocês que o enterro esteve lindo. Eu posso dizer isso sem vaidade, porque o prazer dele, de sua magnificência, de seu luxo, não é propriamente meu, mas de vocês […] Enterro e demais cerimônias fúnebres não interessam ao defunto; elas são feitas por pessoas vivas para os vivos”, ironizava o autor em sua Carta de um defunto rico.

Enquanto isso, os mortos continuavam lá, a interpelar os vivos.

– Mary del Priore.

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O tema da morte em “Ophelia”, de John Everett Millais; e na obra de Goya.

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1 Comentário

  1. Everton disse:

    Uma vida social compartilhando com a morte isto é, cemitérios como shopping onde as pessoas se relacionavam, negociavam prazeres, isto explica um pouco do brasileiro gostar tanto de sexo e mistério kkkkk

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