Amor, literatura e educação

Publicado em 11 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

Toda a tradição textual, na qual obras de poetas, letrados, ou moralistas sistematizam conceitos e práticas sobre o amor, era devolvida à sociedade, mesmo aos seus grupos menos cultos, por meio da literatura vulgarizada, dos contos de fadas, da pregação nos sermões dominicais, da tradição oral. Ao lado da tradição culta, consolidada em nomes como Camões ou Rodrigues Lobo, viceja uma cultura popular. Da mistura de ambas, se plasma o imaginário luso sobre o amor. Ele não é nem simples reflexo da realidade, nem é detentor de autonomia absoluta; ele é, sim, uma convergência das mentalidades, logo de modos de pensar e agir, com as árduas condições de vida, mas, também de trabalho intelectual que se tinha que enfrentar.

Dentre elas, valeria o papel do atraso da educação de homens e sobretudo, de mulheres, em Portugal. Educadores, leigos ou religiosos passam o tempo a inculcar a ideia de que o mundo é um lugar de tentações. Os meninos devem ser afastados “dos prazeres corporais”. A “familiaridade entre os dois sexos” constituía a mais importante questão na educação das crianças. Os meninos não deviam participar nas brincadeiras ou nas conversas onde estivessem meninas. Assim, para os separar mais facilmente davam-se nas Regras para a educação cristã dos meninos, obra publicada, em 1783, exemplos extraídos das Sagradas Escrituras: “Não olheis para a mulher inconstante nos seus desejos, para que não caiais nas suas redes”; “Não fixeis os vossos olhos numa donzela para que a sua beleza não seja motivo de sua perda”; “Fiz um contrato com os meus olhos para nem ao menos pensar numa virgem”. São muitos os exemplos.

Já os conselhos destinados às meninas, começam por sublinhar a condição inferior do seu sexo, por estar a mulher diretamente ligada ao pecado. Nessa ordem de ideias, lembra-se a inconveniência de uma infância desregrada na futura mulher. Os trabalhos domésticos, afastando-a das tentações amorosas, era o que convinha ao seu sexo. As companhias eram escolhidas pela mãe, que não devia deixá-la ler romances ou poesias, mas, apenas, salmos e hinos de igreja, de preferência em francês. A dança não era aconselhável porque era “um laço do demônio”. E a música e os concertos tinham igualmente maus efeitos para as jovens – as árias profanas “excitam as paixões, servem de isca à sensualidade”. O desprezo da beleza, simplicidade no vestir, deitar e acordar em horas certas eram regras básicas. Além do papel que a economia doméstica devia desempenhar na sua educação, os pais escolhiam o confessor e o próprio homem com quem tinham que casar.

Outra condição que devem ter influído nas concepções amorosas decorria da polarização entre segmentos sociais: de um lado a nobreza que se queria letrada. E por outro, as classes não letradas. Uma recebendo mais rapidamente os modismos amorosos importados do exterior do que a outra. Não há dúvida, contudo, que a influência da cultura literária francesa foi grande. Reis alocavam agentes em Paris, encarregados da compra de livros. As elites aristocráticas ou comerciantes aderiram à leitura de autores franceses, ajudando a difundir o gosto pelos modismos que faziam do amor, fonte permanente de sofrimento, alimentando assim o mito fundador do amor infeliz, amor que uniu D. Inês de Castro e D. Pedro.

A construção de identidades amorosas, em Portugal como no Brasil, enraíza-se, contudo, menos na literatura – as elites eram majoritariamente iletradas –  e mais, na interiorização, por homens e mulheres, de normas enunciadas pela Igreja ou a Ciência. O importante a observar foram os dispositivos que asseguraram a eficácia de um tal imaginário amoroso. Imaginário eficaz, somente, na medida em que os indivíduos contribuem ou se predispõe a eles. Nossos antepassados consentiam e garantiam a reprodução de representações sobre o amor,  e não foram raras as vezes em que eles deslocaram ou subverteram a relação de dominação que a Igreja exercia na sociedade, aproximando-se, e mesmo inspirando, os ideais cantados em prosa e verso. – Mary del Priore (baseado em “Uma história do Amor no Brasil”).

Quadro da Suplica de Inês de Castro_thumb[3]

“Súplica de D. Inês de Castro”, de Vieira Portuense.

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