Amor entre iguais

Publicado em 22 de janeiro de 2014 por - História do Brasil

E os homens que amavam homens e as mulheres que amavam mulheres? Discretos quando não perseguidos e vítimas de toda a sorte de preconceitos, estes grupos tiveram que viver seu amor nas sombras, pelo menos até os anos 60. Não faltaram tratamentos médico-pedagógicos que eram sugeridos, junto com a religião, como remédios para a “inversão sexual”. O transplante de testículos, por exemplo, era uma destas receitas “científicas” para o “problema”. Outra, era a convulsoterapia, ou injeção de insulina para “curar” o que se considerava, então, um comportamento esquizofrênico. Outra, ainda, o confinamento em hospícios psiquiátricos. A despeito do sofrimento e incompreensão a que eram submetidos, homossexuais buscaram espaço para seus relacionamentos e, na medida do possível, para viver seus amores.

O interessante, sublinha o historiador James Green, é que entre a década de 30 e a de 60, houve alterações significativas na composição e no desenvolvimento das subculturas homossexuais, em grandes centros como Rio e São Paulo, centros que acabavam por atrair migrantes homossexuais de todo o Brasil. A pressão que sofriam em suas localidades de origem, para arrumar namorada ou casar, levavam muitos homossexuais a profundas crises familiares ou de saúde, obrigando-os a partir rumo à cidade grande. Vir para os centros em busca de trabalho, mas, sobretudo, para escapar à pressão familiar, era a meta para muitos.

Nestes anos, multiplicaram-se as opções de vida noturna, com bares e pontos de encontros exclusivos. No Rio, a chamada Bolsa de Valores, na praia de Copacabana em frente ao hotel Copacabana Palace, ou o Alcazar, agrupavam os jovens que se exibiam, escolhiam, conversavam e namoravam. Em São Paulo, o Paribar e o Barba-Azul, agregavam jornalistas, intelectuais e estudantes, numa fauna animada e sem preconceitos. Os cinemas como o Art-Palácio, ofereciam um espaço onde homossexuais podiam encontrar um parceiro para encontro furtivo ou eles iam “à caça”, em territórios como o Largo do Arouche e Paissandu ou na Nossa Senhora de Copacabana, onde os banheiros públicos abrigavam amores rápidos. Fãs-clubes de cantores de rádio e artistas de cinema aproximavam os casais que iam torcer por Marlene, Nora Ney ou Emilinha Borba. Travestis glamourosos  encantavam a imprensa e o público nos bailes de carnaval.

No cenário urbano se encontrava todo o tipo de parceiro. A preferência pelo bofe ou “homem verdadeiro” que não assumia a identidade homossexual era marcante. “Gosto ainda da Praia do Flamengo. Mais bofe, mais homem do que em Copacabana, mais humilde, mais gostoso” – já dizia um homossexual a um pesquisador, nos anos 50. Para muitos, o alvo era o tal “homem verdadeiro”, “quente” e o desafio consistia em tentar seduzi-los, com drinks ou dinheiro. Invertendo o papel tradicional de passivos, os homossexuais iam à luta para conquistar sua presa, investindo todo o seu potencial sedutor.

Os rígidos códigos morais da época acentuavam, entre casais e pelo menos até os Anos Dourados, a dupla bofe & boneca. As bonecas estavam em busca de bofes, ou rapazes como parceiros e companheiros, sabendo que a maioria de seus “maridos” acabariam por deixá-los em troca de casamentos e filho. Os bofes não se consideravam homossexuais, e as bonecas estavam interessadas em “homens verdadeiros”:

Dentro deste mundo de bonecas e bofes a ideia de dois “bichas” praticando sexo era tão repugnante para as bonecas quanto era repugnante para a população heterossexual, os casais homossexuais. Era incompreensível para as bonecas que dois homens quisessem se amar.

Ao final da década de 60, o binômio Bicha & Bofe começa a dar lugar a papéis mais complexos. Surge a palavra “entendido” para designar o homossexual que não assumia nem um, nem outro papel de gênero, mas que transitava bem de um para outro. Entendidas eram também como se autodenominavam as tríbades. Cenas de homossexualismo feminino já tinham sido sugeridas em Melle. Cinema, romance dos Anos Loucos. Vertigem, assinado por Laura Villares, conta os amores da cocotte francesa, Liliane Carrère, pela paulista Luz Alvarenga., enquanto outras obras, não muitas, mas, menos importantes apresentam personagens também numa dupla: “as viciadas”, lésbicas em tempo integral. E as eventuais, heterossexuais que, de tempos em tempos, se entregavam a uma mulher. Para além da literatura, pouco se sabe sobre o universo amoroso das homossexuais femininas e, mesmo Luís Mott, autor do único livro específico sobre o assunto, reconhece a falta de informações para estes Anos Dourados. O preconceito contra a mulher homossexual era brutal: perda dos filhos, no caso das casadas; insegurança econômica, no caso das remediadas, brutal pressão familiar para que arranjassem namorados, noivos e maridos.

Mulheres brilhantes, como Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop, tiveram que viver sua relação às escondidas. Muitas burguesas fugiram para o interior. No Rio de Janeiro, Petrópolis acolheu alguns casais. Não foram poucas as espancadas por pais, maridos ou filhos revoltados com a situação. Não foram pouco os suicídios em que um bilhete deixado aos parentes revela o desespero de jovens, massacradas com a intransigência familiar. É preciso esperar o final dos anos 70, para as “enrustidas” começarem a atuar politicamente e a falar de seus amores. – Mary del Priore

Lota-de-Macedo-Soareselizabeth_bishop

Lota Macedo de Soares e Elizabeth Bishop: amores escondidos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 Comentário

  1. Lady Susy disse:

    Hoje em dia o segredo da seduão consiste mais na criação de valor pessoal. Para ser desejável e atraente tem que ser valoroso aos olhos das pessoas. Ninguém quer se relacionar com uma pessoa que nada lhe acrescenta ou é tida como inferior.

Deixe o seu comentário!