Amor de Pai

Publicado em 10 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Eles estão em toda parte! Ficam mais visíveis nos fins de semana quando empurram carrinhos, dão mamadeira aos filhotes sob a grama dos parques, embalam-nos segurando ternamente a cabecinha, batem bola e soltam pipas. São os pais. Não mais aqueles “sisudos”, dedo em riste, diante dos “filhos aterrados” sobre os quais escreveu Gilberto Freyre, mas homens nascidos da evolução da sociedade contemporânea.

Transformações radicais atingiram vários aspectos da paternidade. Tais mudanças estão ligadas, primeiro, à família. Nela, os papéis e funções de pais e mães tornaram-se intercambiáveis. Hoje, salvo lavar fraldas, pais fazem tudo o que fazem as mães. O afeto substituiu a autoridade. Mudanças no casamento e na própria família forçaram muitos a assumir a paternidade social de filhos de outros homens ou a tornar-se “pães”: um misto de pai e mãe, na falta desta. Novos laços nascidos, muitas vezes, do sofrimento e do amor, elaboram-se nessas circunstâncias. Aí, pai não é só aquele que se percebe como tal, mas, também, aquele que os outros percebem como tal. A intervenção da tecnologia e da biologia na procriação questionou, por fim, a definição mesma de paternidade. A inseminação artificial criou uma nova forma de paternidade medicalizada. Isso sem contar a adoção e a dissociação possível entre sexualidade e procriação. Pais homossexuais também desejam criar e educar seus filhos. Enfim, a sociedade está reorganizando a instituição paterna.

Embora a carreira ainda venha em primeiro lugar, a maioria dos pais não quer ser só provedor. Eles querem estar presentes, ver seus filhos crescerem, amá-los. Seu apego se consolida, para além do conforto, em presença, contato, diálogo. Não se trata apenas de um valor abstrato, mas de uma prática fundada, inclusive, na lei que exige que garanta saúde e proteção à prole. Longe do personagem periférico de outrora, os pais de hoje reivindicam em relação aos filhos não mais uma relação intermediada pela mãe, mas, especializada: o pai traz a presença do mundo exterior para dentro da casa, além de operar sínteses, explicar as diferenças entre o possível e o impossível e confortar.

O anúncio “você vai ser pai” é, na verdade, um grito de vitória contra a morte. É a certeza da continuidade, uma forma de cumplicidade com o divino e um compromisso com a responsabilidade. O fracasso de um pai, contudo, multiplica as incertezas dos filhos. Razão bastante para pensar no futuro dessa instituição que se inventa e se elabora, discreta, mas firmemente. – Mary del Priore (“Histórias do Cotidiano”).

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