Amor, ciúme e magia nas senzalas

Publicado em 21 de maio de 2016 por - artigos

No campo da violência entre casais, a historiadora Sílvia Lara recuperou histórias de escravos que matavam senhores ou homens livres da vizinhança por “afronta que estes lhe faziam andando amancebados com suas mulheres”. Não faltavam agressões por ciúme, uma vez que havia menos mulheres nos quilombos e plantéis. Inúmeros processos-crime registram agressões de forros ou libertos que reagiam às “velhacarias” das companheiras. Esses Otelos não perdoavam.

O caso de Miguel Moçambique é emblemático das tensões que atravessavam os amores de então: Miguel já cumpria pena, trabalhando para o Arsenal da Marinha, quando conheceu a preta Justina, que visitava com frequência Ilha Grande para vender alfinetes, agulhas e outras miudezas, além de se encontrar com ele. O sentenciado explicou no interrogatório a que respondeu que ajudava muito a dita escrava. Disse que mesmo os jornais que recebia da Marinha pelos serviços de carpinteiro, bem como o dinheiro recebido pela venda de chapéus de palha, que fazia em momentos de folga, gastava-os com Justina. Dava-lhes vestidos, saldava suas dívidas, e ainda, vez por outra, pagava os jornais que esta devia à senhora dela. Mas soubera que Justina o traía com um marinheiro “que a tinha sempre que queria”. Certa tarde, tendo sido levado ao porto, acorrentado a um outro preso, para trabalhar, Miguel pediu ao sentinela para falar com a escrava. Discutiram. Uma testemunha só o viu puxando pelas pernas de Justina enquanto a cobria de facadas. Aos 36 anos, foi condenado às galés para sempre.

Havia também quem recorresse ao sobrenatural para realizar a sua vingança. Manuel Querino lembra, dentre as práticas amorosas, a especificidade da magia, que empregava folhas para produzir infelicidades ou para fins libidinosos, tomadas em potagens ou em forma de remédios tópicos. Graças ao feitiço, ou ebó, colocado em lugar previamente escolhido, chamava-se o nome da pessoa a quem se queria atingir.

Por certo que não era um mundo cor de rosa este em que se movimentavam nossos avós de origem africana. O sistema era cruel. Ele separava famílias, amigos e amantes, esposa e marido. Multiplicava violências. Mas não só. Os arquivos demonstram, com documentos, que casais houve para contrariar a regra – companheiros no cativeiro e no casamento que, longe da equivocada “licenciosidade das senzalas”, comprovam o sentimento no interior dessas uniões.

 – Texto de Mary del Priore. Referência bibliográfica: “Conversas e  Histórias de Mulher”, Editora Planeta, 2013.

Rugendas_-_Negro_e_Negra_n'uma_Fazenda

Negro e Negra numa fazenda, Rugendas.

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2 Comentários

  1. suzana ieda disse:

    Gostaria muito de receber novos assuntos, pois tudo me interessa tratando de História, até breve espero.

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