Amazonas e outras belas

Publicado em 14 de março de 2014 por - História

 O rio tem o seu nome: Amazonas. Mas elas não nasceram ali. A história é bem mais antiga e começa na mitologia grega. Vamos a ela. Para os homens da Antiguidade, as fronteiras do mundo conhecido eram povoadas por seres monstruosos, guardiões de tesouros incalculáveis. Assim como os gigantes, as sereias, os centauros, os homens-cães, ou os  homens com um único olho no meio da testa, as Amazonas faziam parte de uma etnografia maravilhosa. Pertenciam, portanto, à humanidade monstruosa, habitante das margens da civilização. 

Enquanto mito das margens do mundo, as Amazonas foram situadas não só nas portas do deserto líbio, mas também, nas vertentes no Cáucaso, às margens do rio Termodon na atual Anatólia, à beira do Danúbio, no Mar Negro, e depois das expedições de Alexandre o Grande, na Índia. Vencidas por Hércules e, mais tarde, pelos macedônios, elas ressurgiram um pouco além, na América, alargando os limites do mundo conhecido.

Seu nome derivava da palavra jônica mazos, ou seios. Elas eram as que não os tinham. E não os tinham pois cortavam ou cauterizavam a mama direita a fim de que o manejo do arco e da flecha não fosse dificultado. Para assegurar a perpetuação da espécie, as Amazonas da Antiguidade se uniam uma vez ao ano com os homens dos povoados vizinhos. Como companheiros, escolhiam, apenas, os mais belos e fortes.  As crianças que nasciam deste encontro eram separadas por sexo. Os meninos, eram imediatamente mortos ou transformados em escravos. E não em, simples escravos. Elas os cegavam ou estropiavam suas pernas e pés, para que não fugissem.

Mosaicos e sarcófagos, produzidos entre os séculos I e IV antes de Cristo, exibem a imagem destas temidas guerreiras. Vestidas com túnicas curtas ou com calças bufantes à maneira asiática, um seio desnudo, as atletas raramente demonstravam, nestas representações, as marcas do peito cortado. Um escudo em forma de meia lua, as protegia contra as setas e lanças dos inimigos. Sempre a cavalo, elas utilizavam pequenas flechas, típicas dos cavaleiros das estepes do norte da Europa, além de uma pesada maça capaz de esmigalhar a cabeça de seus opositores.O sinal para a guerra era dado por um guizo.

Vários heróis da mitologia grega, como Aquiles, Teseu, Príamo ou Belerofonte se envolveram com estas míticas mulheres. Muitos deles as amaram e depois, assassinaram. Foi o caso de Aquiles que depois de se apaixonar por Pentasiléia, – que viera socorrer os troianos durante a guerra – acabou por matá-la. Príamo, o velho rei de Tróia, também teve que enfrentar uma invasão das Amazonas. Hércules, ao longo dos seus trabalhos, seduziu e massacrou Hipólita a fim de roubar seu cinturão mágico. Belerofonte, depois de ter cortado a cabeça da Hidra teve que enfrentar e vencer as temidas guerreiras.

Escavações recentes no Kazaquistão permitiram arrancar a representação das amazonas, do passado lendário. Sim, existiu uma tribo de mulheres guerreiras. Enterradas com suas armas entre os séculos 600 e 200 A.C, repousaram, por séculos, em tumbas que abrigavam jóias e flechas. Pesquisas aprofundadas revelaram a existência, nesta região, de mulheres arqueiras e cavaleiras eméritas. Isto posto, como é que estas audazes guerreiras vieram parar entre nós? Como deslizaram das margens da Ásia para as do Amazonas?

A descoberta do Novo Mundo representou o primeiro contato da Europa com um universo exótico e cheio de promessas. Durante os anos ao longo dos quais se desenvolveu a exploração das terras americanas, aventureiros e conquistadores estavam convencidos de ter achado o jardim onde Adão e Eva tinham sido criados e depois, expulsos. A ambição, contudo, lhes dava forças para subir as mais altas montanhas, explorar mares desconhecidos e florestas impenetráveis. Embalados por sonhos e mitos perseguiam os caminhos que os levassem para o País da Canela, o Eldorado ou o reino misterioso das Amazonas. Eles as conheciam, pois, a  tradição medieval retomara muitos dos mitos antigos. Narrativas lendárias sobre os confins do mundo, representações do paraíso, mitologias indígenas, tudo, enfim, concorreu para a longevidade das guerreiras solitárias, cujas descrições não cessaram de crescer graças aos rumores difundidos pelos viajantes e cronistas de todos os tempos.

Eis porque não parecia impossível encontrá-las no Novo Mundo, parte do orbe terrestre que Cristóvão Colombo acreditava ser uma extremidade do Oriente, vizinho ao Éden. Devemos ao almirante a mais antiga referência americana às mulheres guerreiras, que ele confiava ter visto numa praia da Martinica. Só que no lugar de aguerridas militares, Colombo viu seres frágeis e tímidos que o evitaram a todo custo. Elas foram novamente mencionadas, alguns anos mais tarde, quando da expedição de Juan de Grijalva, ao longo da costa de Iucatán, em 1518. O desbravador espanhol afirmava ter encontrado ao norte da ilha de Cozumel, uma península habitada exclusivamente por mulheres, que ele estimou ser da raça das Amazonas. A ilusão rendeu ao espaço topográfico o nome de Ilha das Mulheres. – Mary del Priore

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