Afrodisíacos e filtros do amor

Publicado em 14 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

A impotência era considerada verdadeira maldição. Desde sempre, ela promoveu profundo sofrimento, quando não, situações de humilhação entre os homens. A obrigação da virilidade já estava profundamente arraigada à nossa cultura. Para melhorar o desempenho, nada melhor do que os afrodisíacos importados da Ásia. Mas por que tanta ansiedade para restaurar o arsenal sexual do amante e excitar o apetite viril? Porque o “crescei e multiplica-vos” era obrigatório. Estava na Bíblia. Era papel do homem, garantir esta operação. Um breve papal, datado de 1587, definia a impotência masculina como um impedimento público ao sacramento do matrimônio.

Na América portuguesa, as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, impressas em 1720, fonte de regulamentação moral no período colonial, não deixavam dúvidas: a impotência era causa de anulação matrimonial. Daí a importância dos chamados “filtros de amor”, poção mágica que levou Isolda aos braços de Tristão, e que tinham por objetivo, evitar as falhas. Eis porque especiarias estimulantes, reconfortantes, tonificantes e revigorantes vão ampliar a gama erótica dos prazeres – proibidos – da carne.

O estímulo renovado dos sentidos foi uma das facetas mais exuberantes do Renascimento, não apenas na expressão artística, mas também no desenvolvimento de uma sensualização dos costumes. Portugal era a porta de entrada desses produtos. Se por um lado, o reino não conheceu a exaltação pictórica, poética, gastronômica e luxuriosa do corpo, ele constituiu-se na placa giratória que distribuía especiarias de luxo vindas do Oriente para as cortes da França e das ricas cidades italianas.

Um dos cronistas a perceber o desbravamento sensorial vivido pelos portugueses foi Garcia da Orta. De origem hebraica e amigo de Camões, ele dedicou-se ao estudo da farmacopéia oriental. A descoberta de novas faunas e floras o permite saudar, com entusiasmo, os afrodisíacos largamente utilizados nesta parte do mundo. Ele não apenas menciona a cannabis sativa, bangüê ou maconha, mas exalta também as virtudes do ópio. Fundamentado em sua convivência com os indianos, Orta sabia que o ópio era usado como excitante sexual. Além destes dois produtos, Orta menciona o betél, uma piperácea cuja folha se masca em muitas regiões do Oceano Índico.

O primeiro observador encarregado de fazer um relatório de história natural do Brasil, o holandês Guilherme Piso, registrou também, embora mais discretamente, algumas plantas afrodisíacas. Segundo ele, tanto a bacoba quanto a banana são consideradas plantas que excitam o venéreo adormecido. Sobre o amendoim, registrou: “os portugueses vendem diariamente o ano todo, afirmando que podem tornar o homem mais forte e mais capaz para os deveres conjugais”.

Obras publicadas na Europa sobre plantas vindas dos Novos Mundos – Ásia, África e América – apresentam espécimes sob a rubrica “amor, para incitá-lo”. Dentre tantas conhecidas destacam-se a hortelã, o alho-poró e a urtiga. Outras, ainda, aparecem sob rubricas como “jogos de amor” ou “para fortificação da semente”. Em 1697, um destes livros menciona dezenove substâncias, muitas delas extraídas do reino animal: genital de galo, cérebro de leopardo, formigas voadoras. Entre as substâncias vegetais encontram-se a jaca, as orquídeas e os pinhões.

No sumário de alguns herbários existem entradas que bem mostram os efeitos destas descobertas: “induzir a fazer amor”, “incitar a jogos de amores”, “fazer perder o apetite para jogos de amores”, “sonhos venéreos quando se polui sonhando” e “substâncias úteis para excitar o jogo do amor ou para as partes vergonhosas”. No item de receitas próprias para “engendrar e facilitar a ereção e o coito, as ostras, o chocolate e a cebola eram apreciadíssimos, assim como alcachofra, pera, cogumelos e trufas.

Mas a Igreja vigiava. O chocolate, vindo do México, anteriormente usado até durante o jejum católico, começou a ser condenado por provocar excesso de calor. Em seu lugar, surgiu a louvação antierótica do café. A bebida refletia o contrário do luxo representado pelo chocolate refletindo um novo espírito burguês: casto, econômico e produtivista. Junto com a ingestão do café, veio a preocupação com a economia do esperma, reservado à sua exclusiva função reprodutiva. Os portugueses estiveram cara a cara com uma ars erótica que usava e abusava de afrodisíacos. Dela, contudo, só levaram para Portugal a possibilidade de se enxergar em tudo, pecado ou doença!

Se antes do século XVII, o coito era recomendado quando praticado com regularidade e sem exageros, a partir deste período, o quadro muda e intensifica-se uma censura ao sexo considerado causa de perturbações de saúde e mesmo moléstia contagiosa. Torna-se consensual a noção de que o prazer é a pior fonte dos males do corpo, conforme vinha afirmando a moral cristã, há mais de um século.

O mundo barroco do chocolate, dos aromas importados, do almíscar e âmbar, das comidas “adubadas” de condimentos quentes, da obsessão afrodisíaca que enxergava esta virtude a diversos vegetais e animais, é substituído pelo mundo industrial onde o desempenho do trabalho seria movido a excitantes: o café e o tabaco. Ambos elogiados como “dessecativos e antieróticos”. A mensagem era uma só: não havia mais tempo para o prazer, só para o trabalho. – Mary del Priore (baseado em “Histórias Íntimas”).

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As orquídeas já foram consideradas um alimento afrodisíaco.

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