África: essa ilustre desconhecida

Publicado em 1 de maio de 2016 por - artigos

          Vivemos um paradoxo. Num país mestiço, a África é ilustre desconhecida da maior parte dos leitores brasileiros. Poucos sabem de onde vieram nossos ancestrais. Pior. O chamado bled es sudan dos árabes, a África Negra dos anos 60 ou a África subsaariana de hoje, é um espaço do planeta cujas sociedades, se comparadas a outros temas da história universal, pouco ou nenhum interesse despertou. E isto, de Hegel a Braudel. Guerras, fomes, massacres, epidemias propagandeadas pela mídia parecem, para muitos de nós, as únicas características de um sub-continente formado por 48 países. Deles, estamos acostumados a conhecer o cenário natural. Neste – nas ácidas palavras de um geógrafo – “a negação de história colocou a natureza na frente de um palco cujo público mais se interessa pela riqueza da fauna do que das sociedades”.

         Pois rompendo com esta tradição, Alberto da Costa e Silva vêm produzindo com paciente erudição, uma obra para se entender e conhecer a África. Há quem dele diga ser um oásis de generosidade, no deserto das relações intelectuais. Há quem dele diga, ser o maior, senão o único, africanista do Brasil. Além disto, ele é, simultaneamente diplomata, poeta, historiador, memorialista, membro da Geração de 45, do Instituto Histórico e Geográfico e da Academia Brasileira de Letras, descendente de Pierre Corneille, ganhador do Troféu Juca Pato entre outros. Enfim, Costa e Silva, sobretudo um humanista, conjuga, com descrição e elegância, todas as características acima. Nascido em 1931, em São Paulo, educado no Piauí, sua paixão de vida inteira foi o continente africano. Continente descoberto, na infância com os livros de Rider Haggar, e mais tarde, na leitura de Gilberto Freyre, Manuel Querino e Nina Rodrigues. A carreira no Itamaraty o levou às entranhas desta terra amada: Nigéria, Etiópia, Angola entre outros. Nascia assim, o que ele chama, carinhosamente, de “o vício da África”: a paixão tornada obcecação. Por trás de tanto sentimento, muitas teses de cristalina clareza: a de que não podemos nos entender como brasileiros sem entender nossos irmãos africanos. A de que a África é uma memória profunda, reelaborada de ambos os lados do Atlântico. A de que ela é uma de nossas mães. E das mais antigas e carinhosas.

       Entre suas obras A enxada e a lança, lançado em 1992, A manilha e o libambo, de 2002, Um rio chamado Atlântico, de 2003, e o belo Francisco Félix de Souza, mercador de escravos se inscrevem num imenso painel que, dá conta, de sociedades diversas e marcadas por singularidades ao mesmo tempo em que retrata todo um continente. Foca o infinitamente pequeno e ilumina o infinitamente grande. Revela o fervilhamento de documentos ainda desconhecidos da maior parte dos pesquisadores.Graças a seu obstinado trabalho, a comparação de diferentes culturas, no tempo e no espaço, promove as sínteses que dão dimensão científica à uma profunda pesquisa  Da Idade da Pedra ao século XIX, Costa e Silva constrói com talento e maestria o tanto que sabemos sobre este Outro lado do Atlântico. Fascinante, contudo, é perceber, na alma do diplomata, o historiador. Como os melhores, ele se interroga sobre o sentido dos fatos, formula hipóteses explicativas, analisa e critica documentos, exaure a bibliografia mais atualizada.  E neste livro, enfrenta o maior desafio: o de uma biografia.

        Fugindo da crônica linear, do psicologismo e da pintura piegas das vontades individuais, Costa e Silva recupera os mecanismos subjacentes a trajetória de um personagem ímpar. Personagem insólito para nossa tradição historiográfica : um mestiço, traficante de escravos. Simplesmente, o maior deles instalado no Golfo do Benim. Uma lenda ou herói, cantado em prosa e verso por viajantes europeus do século XIX, cujas características, demasiadamente humanas, se confundem com as de seu tempo

       Mas quem foi exatamente este Francisco Félix de Souza, o famoso Cháchá? Nascido em Salvador entre 1754 e 1768, ele chega a Badagry, na embocadura do rio Yewa para trabalhar como traficante de escravos aos finais do século Dezoito. Ajudá era então o maior porto exportador de escravos do Benim, tendo deportado nesta época, para a América, cerca de 400.000 almas. Repetia, assim, a façanha de João de Oliveira, liberto que retornara do Brasil em 1733 e que aí fizera fortuna na mesma atividade. Chega, todavia, tão sem tostão que é obrigado a roubar para comer. Comerciante, expatriado ou deportado logo encontra emprego como comandante da fortaleza de São João Batista de Ajudá. Não era, como demonstra, Costa e Silva, o único baiano por lá. Vários negros e mulatos « americanos » não apenas detinham casas de comércio, como prestavam aos próceres do Daomé, serviços de toda a sorte além de fornecer informações sobre o Brasil. A partir do início do século Dezenove, Cháchá lançou-se no mais rentável dos negócios : tornou-se intermediário e armazenador de escravos. O armazenamento consistia numa inovação « técnica » que, apesar dos riscos (sublevações ou epidemias) agilizava a compra da mercadoria, pois embarcava o maior número de indivíduos no menor tempo possível. Rapidamente fez sócios financiadores e passou a investir no transporte. Dotou-se de bergantins e outras embarcações leves e rápidas, para fugir ligeiro do controle britânico, além de explorar escravos no plantio de alimentos capazes de dar vigor aos seus plantéis. Seu apogeu, veio, contudo, de um pacto de sangue com  com o príncipe Guezo, que conhecera na prisão e que, feito rei, o transformou em seu agente preferencial para o tráfico. Depois do fenomenal enriquecimento que lhe deu dezenas de mulheres e filhos, que lhe encheu a casa de prataria inglesa, que o transformou num deus, veio-lhe a decadência e o empobrecimento. Faleceu aos 94 anos, pobre, foi enterrado com honrarias e mesmo sacrifícios humanos que desaprovava. Deixou um mito e uma história que Costa e Silva soube tão bem destrinchar.

         Pelas mãos do autor e seguindo os passos de Francisco Feliz de Souza, o leitor descortina um continente, mas também uma história encoberta: a da implicação de afro-descendentes, na maioria ex-escravos, no comércio de irmãos de cor, muitos deles prisioneiros de guerra, condenados pela justiça, ou ainda trazidos de distantes regiões do litoral atlântico. Conhece ainda a nevrálgica implicação das elites africanas no tráfico negreiro, fonte de riqueza e poder, monopólio que se somava ao comércio de tabaco e de óleo de dendê. Mas, também, ao rentável negócio de armas de fogo, negócio por sua vez, produtor eficaz de novas guerras e de novos cativos. Observa a vida dos retornados, ex-escravos e seus descendentes, vida marcada pela nostalgia do Brasil e que o autor capta com enorme delicadeza: “muitos se sentiam traídos pela saudade – não era aquela a África que tinham guardado no coração – e começaram a sonhar com o regresso ao Brasil e a trabalhar para isso. Os filhos que os acompanharam, brasileiros de nascimento cobravam deles o tê-los iludidos com falsas memórias e levado para uma terra pobre e atrasada, onde se sentiam de todo estrangeiros”. Percebe os processos de mestiçagem cultural ou de defesa da identidade, sofrido por estes que Costa e Silva chama de “centauros culturais: africanos entre africanos, europeus entre europeus”.

       Descobrimos também a beleza de Ajudá, cidade de cerca de oito mil habitantes, com suas fortificações, fervilhante mercado, fontes, palácios e artesãos. Adentra, com o Cháchá, à corte de Adandozan, monarca do Daomé, vendo-o ser recebido por um rei vestido em sedas, coberto de jóias, cercado de centenas de mulheres e coloridos parasóis e abanos. Entende, ao fim e ao cabo, que é um anacronismo fazer julgamentos morais sobre a escravidão e o tráfico. Na voz de muitos dos comerciantes de carne humana, captada por Costa e Silva, esta era apenas uma atividade lucrativa. Eles dormiam de “consciência tranquila (…) sem jamais ter contribuído para fazer mal ao próximo”, como explica um deles em testamento.

  • Texto de Mary del Priore.

felix

“Francisco Féliix de Souza – mercador de escravos”, de Alberto da Costa e Silva, Editora: NOVA FRONTEIRA, 2004.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!