Afinal, o que querem as mulheres?*

Publicado em 2 de setembro de 2015 por - Feminismo

Tenho lido muitos artigos e crônicas, e também tido muitas conversas,em que os homens se dizem perdidos em relação às mulheres dos dias atuais. Hoje mesmo, acabo de ler um texto sobre “O poliamor”, de Arnaldo Jabor. Em em todas essas “falas” masculinas há uma profunda frustração que aparece explícita ou implicitamente. Em muitos casos, esse sentimento surge como ódio e desprezo, e muitos recorrem aos velhos chavões sobre o gênero feminino: histéricas, não sabem o que querem, querem privilégios, são cheias de mimimi…

Afinal, muitas mulheres hoje são sexualmente ativas, não aceitam mais serem simplesmente escolhidas, reagem às agressões e competem profissionalmente com os machos. E, ao mesmo tempo, pedem respeito. Não querem ser vistas como objetos sexuais e não querem que seus corpos sejam violados. Para muitos homens, elas não se valorizam e transformaram tudo em uma grande “putaria” (desculpem a expressão). Como lidar com esses novos comportamentos? Acabou o romance, reclamam homens e também mulheres.

Mary del Priore, destaca que a chegada da pílula anticoncepcional e a entrada da mulher no mercado de trabalho deram-lhe autonomia financeira e física. “Essa autonomia, por seu lado, acelerou as transformações no casamento e nas relações entre os sexos. Se antes os papéis eram delimitados – homem na rua, mulher em casa; esposa versus marido; homem provedor e mulher submissa –, hoje, multiplicam-se os arranjos familiares e os papéis dentro deles”.

Com certeza, houve mudança e multiplicação desses papéis. Acredito que o maior erro desses cronistas desesperançados com o nosso gênero seja exatamente querer abacar todas as mulheres em uma só. Somos muitas, somos diferentes, temos a nossa individualidade. Afinal, o que querem as mulheres? Não sei. Queremos tantas coisas, tão diferentes – assim como os homens. O feminismo busca proporcionar à mulher a liberdade de escolha, em todas as áreas, da profissional à sexual. E ao homem também, pois, ele poderá desfrutar dessas conquistas e se beneficiar delas, se aceitar as transformações que estão ocorrendo.

Para Jabor, “ninguém aguenta tanta liberdade”. Essa suposta “liberdade excessiva” estaria fazendo o homem perder o desejo pela mulher. Não poderia discordar mais dessa premissa: sem liberdade não há amor, nem satisfação pessoal. Precisamos de mais liberdade (muito mais), de menos rótulos, e principalmente, de menos medo. A sexualidade feminina sempre foi temida e, portanto, reprimida. No Brasil Colônia (a exemplo do que ocorria na Europa), “o corpo da mulher era diabolizado. Seu útero, visto como um mal. Suas secreções e pelos usados em feitiços. Seu prazer, ignorado pela medicina, por muitos homens e até por muitas mulheres”, nos conta Mary del Priore.

As mudanças dos tempos modernos trouxeram novos problemas, obviamente. E diferentes tentativas de se normatizar a sexualidade feminina. Se antigamente a mulher era vista como um ser que precisava ser controlado e vigiado para se tornar dócil e passiva, hoje parece que temos a obrigação de sermos “máquinas sexuais”. Novas armadilhas que nos foram colocadas, como a cobrança pelo corpo perfeito, o horror ao envelhecimento e a ideia de que devemos ter uma performance sexual “ideal”.

A revolução sexual apresentou um outro lado, que ainda nos persegue, como explica a historiadora. “Na verdade, escapamos à repressão imposta às gerações anteriores, mas nos tornamos vítimas do nosso ideário. O homem era forçado a ter uma atividade sexual intensa, e a mulher, para demonstrar liberdade, precisava dizer sim a todas as propostas masculinas. Insensivelmente, passamos do sexo proibido ao sexo obrigatório”.

Não está na hora de irmos além desses limites? Não está na hora de haver liberdade de escolha? Enfim, em vez de tentar entender “a mulher” ou “o homem”, como se fossem um seres únicos e homogêneos, seria mais inteligente tentar se relacionar melhor com as pessoas que nos cercam. No passado, Igreja, Estado e Medicina tentaram reduzir o gênero feminino a um ser frágil, emotivo e limitado. Já percorremos um longo caminho para nos libertar dessas amarras e lutar pelas nossas vontades e individualidades. Mas, pelo visto, ainda há muito por fazer… – Texto de Márcia Pinna Raspanti. 

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*A frase de Freud era “Afinal, o que quer uma mulher”. Optei por colocar o plural “mulheres” por acreditar ser mais adequado ao presente momento histórico.

 

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4 Comentários

  1. Cintia disse:

    Texto que remete à reflexão, instiga avançarmos nas discussões da história do tempo presente. Bela escrita.

  2. Valéria disse:

    Parabéns, Marcia, pelo texto!!! Adoreei, maravilhoso.

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