Adolescência e juventude: os “rebeldes” do Brasil Colônia

Publicado em 1 de abril de 2016 por - artigos

           “Adolescência” é uma palavra que aparece ao final do século XIII. Ela designa, então, os anos que sucediam à infância, ou seja, dos 12 aos 18 para meninas e dos 14 aos 20, para meninos. Ausente da maior parte dos dicionários da língua portuguesa até o século XIX, ela aparece, por outro lado, nos manuais de medicina. Estava associada à segunda idade do homem – a primeira era a infância – e caracterizava-se por ser “quente e seca”, segundo Galeno, médico grego. Uma tal ausência no mundo luso-brasileiro não é gratuita. Ela significa que a fase de amadurecimento ou de crescimento dos jovens se perdia entre milhares de afazeres relacionados à sua sobrevivência.

          A juventude sempre suscitou reações ambivalentes e foi, em diferentes épocas, percebida e vivenciada de forma específica, segundo o grupo social no qual o jovem estava inserido. Os trabalhos do historiador francês Philippe Áries, uma autoridade e um pioneiro no assunto, sugeriam que entre o feudalismo e a industrialização se passava diretamente da infância à idade adulta. Sem adolescência. Hoje, sabe-se, que as coisas não eram bem assim. Em diferentes regiões do planeta, modalidades de saída da infância e entrada no mundo adulto obedeciam a rituais precisos. Um exemplo: na Antiguidade grega, a formação de jovens, particularmente em Esparta e Creta se compunha de um aprendizado de ginástica, caça, equitação, mas, também, de experiências eróticas nas quais meninos se submetiam às exigências dos “mais velhos” por meio de uma encenação na qual o adolescente era raptado por seu “amante”.

         Na Idade Média, o termo “juventus” remetia a realidades diversas: a dos clérigos que, ao fazer seus votos de entrada nos monastérios, viviam o noviciado na juventude, mas, igualmente, a dos jovens nobres cujo ritual de entrada na cavalaria era codificado por sofisticada cerimônia de recepção. A literatura dos trovadores cantava, em prosa e verso, a juventude destes mancebos, capazes de se destacar por sua coragem e beleza física, enquanto a Igreja alertava contra as tentações que eles mesmos inspiravam. A partir da metade do século XVIII, conceitos como adolescência e juventude começam a se consolidar graças aos avanços da pedagogia, da medicina e da filosofia. O pensador Jean-Jacques Rousseau foi dos primeiros a definir a crise da identidade sexual, durante a puberdade, no seu conhecido livro Emílio.

       As poucas informações sobre a adolescência no período colonial mais contam sobre os rapazes. Sim, pois as moças tinham como única função preservar sua virgindade. Numa sociedade cristã, seu único destino foi, durante muito tempo, o casamento ou o convento, este último significando um confinamento muito maior do que aquele proposto pelos conventos masculinos. O que distingue a suas vidas das dos rapazes é a total ausência de liberdade.

     O trabalho feminino era associado a moral e a disciplina. Junto a isto se desenvolvia o horror do corpo e da sexualidade, ambos esmagados pelo controle exercido pela família ou o grupo. Para as moças, as transformações da idade tinham que ser interiorizadas e vividas ao abrigo dos olhares do outro sexo. Moças ou rapazes sofriam, contudo, as consequências do controle dos adultos. A juventude era vivida como um tempo que inspirava temor aos defensores da ordem e das convenções sociais. O adolescente era visto como ameaça, sinônimo de desordem.

      A julgar por nossa história, estes primeiros rebeldes apareceram cedo, na documentação histórica. Eles são jovens portugueses vindos com os padres jesuítas para a instalação das escolas para crianças indígenas, as chamadas “Casas de Muchachos”. Recolhidos nas ruas das cidades portuárias da metrópole, eles cresciam, na Colônia, entre indiozinhos que eram catequizados. Ao chegar à adolescência, os indígenas abandonavam a vida nas escolas e voltavam a viver nas matas. Neste momento, os jovens portugueses e mamelucos os acompanhavam. Fugiam todos juntos e iam viver nas aldeias, pintando seus corpos com tinta urucum, tatuando-se e usando penas. A pedagogia inaciana ficava para trás e tinha início uma vida em que as referências indígenas se misturavam à cultura europeia em franca mestiçagem de usos e costumes. – Texto de Mary del Priore.

costumes SP- Rugendas

Costumes de São Paulo, Rugendas.

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