A vida familiar nos quilombos

Publicado em 25 de maio de 2014 por - História do Brasil

Enquanto durou a escravidão no Brasil, os escravos resistiram. E de várias formas: pequenos furtos, envenenamentos, feitiços, suicídios, fugas, revoltas e quilombos. Vários quilombos, além de Palmares, o mais famoso, floresceram, em todas as regiões da Colônia. Para eles, corriam homens, mulheres. Neles nasciam e eram batizadas as crianças, filhas dos fugitivos. Neles, também, se constituíam famílias.

Romances publicados no final do século XIX, como o História de Quilombolas do  escritor Bernardo Guimarães, permitem-nos conhecer um pouco do que seria a vida das famílias de negros fugidos. Sua estória passa-se num quilombo localizado no interior de Minas, próximo à serra de Itatiaia. Embora estivesse apenas à quatro léguas de Ouro Preto, o quilombo escondia-se do olhar de curiosos, graças à floresta. Ai desenrola-se a paixão de Mateus Cabra, um escravo que se tornou quilombola e resolveu raptar sua amada, a escrava “mulatinha Florinda.  O rapto da heroína despertou ciúme no mulato Anselmo que também a adorava.  No quilombo, Florinda despertara outra paixão: desta vez no “preto africano” Zambi Cassange, poderoso chefe. Sua mulher, “a rainha Maria Conga” fica louca de ciúmes, iniciando uma trama de novela, na qual se misturam amor, ódio e traição.

Não pensemos que todos os casais vivessem como Mateus Cabra e Florinda. Mas esses personagens, tão humanizados por Bernardo Guimarães, nos permitem imaginar o que era a vida doméstica e familiar nos quilombos.

Um dos problemas dos quilombos era a escassez de mulheres. No quilombo de Iguaçu, por exemplo, que se formou na província do Rio de Janeiro, entre 1816 e 1877, apenas 11% eram mulheres. Os homens tinham mais facilidade para fugir, uma vez que, sobretudo nas regiões urbanas, desempenhavam serviços de rua, onde o controle do senhor era menor. Várias companheiras procuravam reunir-se aos seus homens. Algumas rompiam com a dominação senhorial e estabeleciam-se definitivamente no quilombo. Outras visitavam seus parceiros, voltando a seguir para a casa dos senhores.  Às vezes, presença destas mulheres no quilombo provocava tensão e morte. Companheiros ciumentos eram capazes de atracar-se com outros negros do quilombo, se vissem suas mulheres trocando com eles um dedinho de prosa.

Os casais que se estabeleciam quilombos constituíam famílias com filhos. Esses tanto podiam viver segundo os costumes africanos, como podiam ser batizadas, ali mesmo, por um padre amigo dos quilombolas. A preocupação com o batismo das crianças negras era tão grande que quando os quilombos eram atacados e seus membros capturados, a primeira medida tomada pelas autoridades era a de batizar as crianças. Observemos o que diz a carta escrita pelo governador da capitania de Minas Gerais em 1759, às autoridades metropolitanas, narrando o cruel ataque das autoridades a um quilombo:

“sou ciente de haver atacado dois quilombos, e depois de fazer neles uma grande mortandade e os que não fugiram fez prender, e reduzir a cinzas as casa em que viviam, donde encontrou mulheres pretas, e alguns filhos nascidos destas, naqueles quilombos em idade de doze anos, a estes se administrou logo o sacramento do batismo”

As mulheres capturadas nos quilombos eram enviadas de volta aos seus antigos senhores. Caso tivesse dado à luz, o filho chamado então  “cria”, também iria para o senhor, pois pelo princípio do “ventre cativo” ( o filho de uma escrava seria sempre considerado escravo), ele pertencia ao proprietário da escrava. Para reavê-la, no entanto, o senhor tinha que pagar um prêmio, em dinheiro, às autoridades.

Negros e negras buscavam viver nos quilombos as relações afetivas e familiares que em geral não conseguiam viver no “mundo dos brancos”. Morar juntos, dividir os trabalhos da sobrevivência e criar filhos era o objetivo de muitos deles. A perseguição implacável aos  “quilombolas” dissolveu famílias, separando pais e mães de seus pequenos filhos. Triste realidade típica da escravidão! – Mary del Priore.

quilombos_maiorrugendas

Capitão-do-mato; Moradia típica dos escravos (Rugendas). 

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