A valorização da Maternidade

Publicado em 11 de maio de 2014 por - História do Brasil

O sentimento de amor materno sempre houve. Mas a queda da mortalidade infantil em finais do século XIX, graças ao progresso da higiene e da saúde públicas, mudou a relação de mães e filhos, tanto no que diz respeito aos cuidados com a alimentação quanto às manifestações de afeto. Antes, o infanticídio (embora não contabilizado), os maus-tratos e a exploração da criança eram comuns.

No século XVIII, em Ouro Preto, Minas Gerais, por exemplo, certa Margarida iniciou um romance com Antônio de Freitas. Da aventura nasceu-lhes um filho. Ao nascer, o pai pediu à parteira que o batizasse logo e, cumprida a obrigação religiosa, “o meteram em um tabuleiro e cobriram com roupa em forma que assim abafado morreu”. O chamado “afogamento” de crianças indesejadas vigorou desde a noite dos tempos, assim como o abandono, em lugares ermos ou em monturos – lixões das cidades coloniais –, ensejando a morte por fome ou frio. Isso quando os pequenos corpos não eram devorados por animais. Na São Paulo setecentista, costumava se deixar as crianças num lixão ao lado do antigo Convento de Santa Teresa. Porcos e cães faziam o trabalho.

Mais comuns eram o enjeitamento ou o abandono. Antigamente, existia a “roda dos expostos”. O enjeitado era colocado em um funil de madeira cravado no muro da Santa Casa de Misericórdia. A mãe tocava uma sineta e a mão da caridade recolhia a criança do outro lado. Houve as que deixassem um bilhetinho, uma nota que explicasse as condições do abandono: pobreza extrema, doença dos pais, adultério. Outras deixavam um enxoval, uma medalhinha, um nome escrito em um pedaço de papel. Eram nomes complicados: Napoleão, Heródoto, Caio Graco. A intenção era poder recuperar, um dia, o filho de volta. Com um nome desses, ninguém se enganaria; mãe e filho com nome esquisito se reencontrariam num abraço apertado.

Havia, ainda, os que eram abandonados nas portas de casas de família. Recolhidos “por amor de Deus”, cresciam e se tornavam filhos de criação, ora recebendo o mesmo carinho dos filhos de sangue, ora servindo de escravos disfarçados, ao pagar com serviços a vida que lhes fora poupada. No campo, eram rapidamente integrados à família. Afinal, ganhava-se um braço para o trabalho na lavoura.

Monstro é a mãe que mata o filho. E isso desde sempre. Dizem que nas penitenciárias femininas tais mulheres não podem ficar entre as demais detentas – são maltratadas, quando não mortas. Tal crime é intolerável, mesmo entre as mais bárbaras! O infanticídio é imperdoável. Como pode quem dá à luz ofertar o sono eterno? O fato é que o gesto de tirar a vida de uma criança é tão velho quanto a História. No século XVIII, não foram poucos os manuais de confessores – livrinhos que o padre usava para se orientar na confissão dos fiéis – que recomendavam às mulheres não “afogar suas crias” na cama. O recado era simples: não durmam com os filhos para poder rolar sobre eles à noite, fingindo ser um acidente. Outra sugestão: não deixe a criança pequena perto do fogo ou do fogão, para que se queime. Não a deixe próxima de poços. A lista do padre revela, na verdade, o cotidiano de milhares de mulheres, de suas atribulações, e das condições em que crianças indesejadas desapareciam.

Pouco mudou e, no início do século XX, a jornalista Carmem Dolores, numa crônica em A Semana, de abril de 1906, contava estarrecida: “Mas que uma mãe possa admitir e realizar a ideia atroz de assassinar um meigo filhinho, meu Deus! Eis o que excede tudo o que a imaginação conceba de horrível. E, contudo, passam-se na vida real destas incríveis monstruosidades… Em Petrópolis, agora, uma mulher acaba de jogar num brejo um filho de dois meses que já começava a sorrir-lhe”.

As altas taxas de mortalidade infantil ocuparam doutores como Bernardino Antônio Gomes, no século XVIII, e higienistas como Sigaud, Paula Cândido e Imbert, inspirando, em 1887, a José Maria Teixeira um estudo notável: “Causas da mortalidade das crianças no Rio de Janeiro”. Na sessão da Academia de Medicina, em junho de 1846, por exemplo, levantaram-se várias hipóteses – as mesmas denunciadas por manuais de medicina do século anterior: comidas fortes, vestuário impróprio, aleitamento mercenário, amas de leite atingidas por sífilis, boubas e escrófulas, falta de tratamento médico, vermes, “umidade das casas”, mau tratamento do cordão umbilical. O horror ao banho e ao “poder da água” de transmitir doenças só foi debelado na segunda metade do século XIX, quando o pernambucano Carolino da Silva Campos começou a discutir a importância do “asseio do corpo das crianças” e a necessidade de banhos para fortificar os tecidos. As relações entre as camadas desfavorecidas e os médicos não eram nada boas. Novos procedimentos terapêuticos, como a vacinação, alimentavam o medo e a desconfiança – até revoltas – de muitos, que preferiam continuar tratando a própria saúde e a dos seus com benzedores e curandeiros. As crianças eram as vítimas preferidas das crises frumentárias, das tensões sociais e das epidemias. As diferenças sociais acentuavam distinções entre ricos e pobres – os últimos, sem dúvida, mais vulneráveis e adoentados.

No final do século XIX, a criança passou a ser valorizada; tornou-se o “reizinho da casa”, no lugar do pai. A família acompanhava a gravidez, preparava-se o enxoval, e era imprescindível que a mãe costurasse, bordasse ou tricotasse uma peça para o pequeno, símbolo de amor materno. A escolha de nome era determinada pela tradição familiar. Antes dentro do quarto. O pai agora acompanhava o parto do lado de fora – cedera lugar ao médico, coisa rara até então. A perda de um filho era considerada um golpe irreparável. Registrava-se em fotografia, que chegou ao Brasil na década de 1860, o retrato da mãe com o defuntinho nos braços. Verdadeiras Pietás. Tornou-se doloroso desfazer o quarto da criança ou continuar morando na mesma casa. Mães corriam para a casa de familiares a fim de ali passar o período de luto. A memória do “anjinho” era reverenciada e seu túmulo, visitado regularmente no cemitério. A morte dos filhos era a oportunidade de manifestação do sentimento da mãe. – Mary del Priore.

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Mulheres, filhos e escravos: cena doméstica de Debret.

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