A terra das aparências: luxo e moda nos tempos coloniais

Publicado em 25 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Emblemas exteriores de riqueza contavam, e muito, numa terra onde as aparências, na maior parte das vezes, enganavam. Não faltaram críticos ao hábito de “parecer, sem ser”. Já em 1587, Gabriel Soares de Souza queixava-se dos colonos que tratavam as mulheres “com vestidos demasiados, porque não vestem se não sedas, mormente entre a gente de menor condição”. Pavonear-se, em “sedas, veludos e panos finos de Portugal”, era muito comum, mas o outro lado dessa exibição eram as dívidas. O exibicionismo – e o consequente endividamento – levaram o padre Antônio Vieira a vituperar do púlpito contra o gasto excessivo dos fiéis com tecidos, na cidade de São Luís: “Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas […] o que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra; […] No triste farrapo com que saem à rua, para isso se matam todo o ano”.

A maior parte das naus que aportava no litoral trazia fazendas finas ou grosseiras para vender. A busca pelo raro e caro traduzia-se em uma cultura de aparências exibida em praça pública – cenário ideal para aquelas que buscavam fazer parte do espetáculo dos privilegiados – e multiplicada na concorrência. Era o efeito vitrine que contava, embora não escapasse aos mais observadores o ponto fraco da questão. “O luxo dos vestidos”, escrevia em 1768 o governador de São Paulo, “é desigual à possibilidade desta gente; se as fazendas fossem do Reino tudo ficava em casa, porém sendo estrangeiras não há ouro que as pague… Tudo isso se compra fiado, e depois se estuda para pagar”.

Por vezes, a descrição das roupas, mesmo as de festa, não indicava a ênfase em tais gastos. A descrição de uma denunciada à Inquisição, no século XVII, demonstra que suas melhores roupas (“e vestiu de festa”, diz o documento) constavam de “uma saia de tafetá azul e jubão de holanda e toucado na cabeça”. A dupla saia e o gibão dominavam também entre os burgueses e camponeses europeus, cujo guarda-roupa básico era de cinco peças – o que variava era o contraste com a qualidade e a quantidade de tecido. As cores, como no caso o mencionado azul, podiam identificar o uso da roupa: “festa”.  Para atividades diárias, escolhiam-se as escuras. A lã era escolhida pela durabilidade.

Vestidos eram coisa de aristocracia, cujos membros vestiam uma média de dez peças de roupa, fora a roupa branca e íntima. O século XVIII introduziu na Europa tecidos novos: sedas, algodões, linho; os coloridos se diversificavam. Os ricos se adaptavam com mais rapidez a essa mudança de gosto, mas os pobres também aderiam. O que se ganhava em diversidade, perdia-se em solidez. Esse foi o momento em que as classes menos abastadas começaram, elas também, a acelerar o ritmo das compras.

Confirmando a hegemonia da aparência, a maior parte das mulheres só se vestia para ir às ruas – era a confirmação do velho ditado: Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento! Em casa, cobertas com um “timão”, espécie de confortável camisolão branco em tecido leve, ocupavam-se das atividades domésticas. Os cabelos, mal penteados ou en papilottes, segundo a inglesa Maria Graham, davam uma péssima impressão de desmazelo. Pior: a tal camisola expunha os seios. E a estrangeira fulminava: “Não vi hoje uma só mulher toleravelmente bela. Mas quem poderá resistir à deformação como a que a sujeira e o desleixo exercem sobre uma mulher”? Ao visitar, em 1821, residências baianas, anotou consternada sobre as moradoras:

“Quando apareciam, dificilmente poder-se-ia acreditar que a metade delas eram senhoras de sociedade. Como não usam nem coletes, nem espartilhos, o corpo torna-se indecentemente desalinhado logo após a primeira juventude; isto é tão mais repugnante quanto elas se vestem de modo muito ligeiro, não usam lenços ao pescoço e raramente os vestidos têm qualquer manga. Depois, nesse clima quente, é desagradável ver escuros algodões e outros tecidos sem roupa branca, diretamente sobre a pele, o cabelo preto mal desgrenhado, amarrado inconvenientemente, ou, ainda pior, em papelotes, e a pessoa toda com a aparência de não ter tomado banho”.

A saída dominical para a missa levava as mulheres a usar uma mantilha negra de seda que ocultava as roupas mais transparentes e decotadas usadas por baixo delas. Outro inglês, Thomas Lindley, que esteve na Bahia no início do século XIX, observou que o vestuário feminino mais comum era uma saia usada por cima de uma camisa: “esta é feita de musselina mais fina, sendo geralmente muito trabalhada e enfeitada. É tão larga no busto que resvala pelos ombros ao menor movimento, deixando o busto inteiramente à mostra. Além disso, é tão transparente que se vê toda a pele”.

A simplicidade ou pobreza da indumentária contrastava com as joias. Sem elas, as mulheres não saíam às ruas. As negras portavam figas, crucifixos e pencas de ouro. As brancas, anéis, colares, brincos e braceletes ricamente trabalhados, tesouro que tanto podia ser presente do marido quanto parte do dote de casamento. Além de saírem aos domingos para ir à igreja, as mulheres apareciam em público nas reuniões da corte, se fossem aristocratas e morassem no Rio de Janeiro, ou nos espetáculos teatrais, que só se realizavam nas grandes cidades, momentos em que tiravam as joias do cofre. Pedras preciosas como esmeraldas, crisólitas, topázios brancos ou amarelos, diamantes rosa, águas-marinhas, pérolas, além de vestidos bordados a ouro e prata, ousadamente decotados à moda francesa da segunda década dos Oitocentos, enchiam a plateia. Na cabeça, colocavam quatro ou cinco plumas importadas da França, inclinadas para frente, e, na fronte, diademas incrustados de diamantes e pérolas.

Para dançar nos bailes, o cerimonial exigia “vestidos redondos, luvas e enfeites de cabeça mais ligeiros, próprios para aquele fim”. O espetáculo teatral exigia menos luxo do que as cerimônias da corte, e, nesse ambiente, as mulheres usavam flores no cabelo, brincos compridos e vistosos, um xale pelos ombros e um leque que podia ser mais ou menos valioso. Para atender a essa demanda de consumo, armarinhos de luxo lotavam as ruas cariocas. Capelistas vendiam fitas largas ou estreitas, lisas ou lavradas, na maior parte de seda, mas também de veludo; galões de ouro e de prata, guarnições bordadas, franjas e rendas de várias qualidades (linho, linha, filó, seda), inclusive de fio de ouro para “véus de ombros”, tiras bordadas para “coleiras”, entremeios, cordões de seda, bordaduras de ouro e tudo o mais que servisse para enfeitar as mulheres.

Entre o mundo rural e o urbano, estabeleciam-se clivagens. No primeiro, os valores de estabilidade, identificados ao clima, à duração das peças e ao uso reiterado do vestuário, permaneciam regra. No sul do Brasil, John Luccock observou mulheres usando capotes de casimira com ornamentos de pele e escravas enroladas em pedaços de baeta enfeitados com franjas. Em Minas Gerais, elas se vestiam de branco ou com cores vistosas, e guarda-sóis coloridos abrigavam-nas no sol causticante. Na falta deles, usavam um chapéu em lã negra. O gosto pelas telas rústicas e tecidos resistentes como a baeta, o baetão, a estamenha, o lemiste e a sarja mostra que os hábitos não eram exclusivamente os ditados pelos ricos. – Mary del Priore.

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Senhora do século XVIII: tecidos e joias.

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2 Comentários

  1. eduardo disse:

    O retrato abaixo é do século XIX, década de 50, mais ou menos.

    • marcia disse:

      O retrato é de Maria Epifânia de São José e Aragão, esposa do capitão-mor Antônio Pires de Carvalho e Albuquerque, e foi feito entre 1789 e 1800, na Bahia. IN: “História da Vida Privada no Brasil”, vol. 1, (Org. do volume de Laura de Mello e Souza), São Paulo, Companhia das Letras, 1997. (pp. 190-191).

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