A teatralização da morte

Publicado em 18 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Até hoje, quando morre uma figura pública no Brasil, os funerais se tornam um grande evento, reunindo milhares de pessoas – e comovendo outras milhares que acompanham as cerimônias pela TV ou internet. O enterro da ex-primeira dama, Marisa Letícia, e do candidato à presidência, Eduardo Campos, são exemplos deste tipo de acontecimento. Nos tempos coloniais (séculos XVII e XVIII), a “teatralização dos funerais” também era muito comum, sendo que seus ritos e regras variavam de acordo com a posição hierárquica do falecido. O caráter exemplar da morte era muito explorado.

        O número de religiosos que acompanhavam os funerais, bem como a presença de personalidades importantes da sociedade eram fundamentais para demonstrar o prestígio social do morto. Na própria realização das cerimônias fúnebres, a hierarquia da sociedade era presente: quanto mais destacado era o indivíduo, maior a pompa, o aparato e o cortejo de acompanhantes.

        Os membros do clero faziam parte desta elite colonial merecedora de todas as honras. Vejamos como foi o enterro do jesuíta português, Antônio Vieira, nas palavras de outro membro da Companhia de Jesus, João Antônio Andreoni:

“(…) Os principais sacerdotes e os superiores de todas as ordens religiosas ou celebraram por ele ou assistiram às suas exéquias. Nem faltaram os Senadores e o Supremo Chanceler, juntamente com o mordomo mór do rei e outros varões ilustres, ainda que nem todos fossem chamados pela notícia de sua apressada morte”.

         Antônio Felipe Pimentel lembra que “numa sociedade de ordens, fortemente hierarquizada, a morte de personagens ilustres concentra evidentemente atenções e não deixa de ser aproveitada pelo clero que sublinha o seu valor exemplar, forçosamente mais eloquente que na morte dos simples”.

         Era importante, em face de todas as honrarias dadas aos mortos ilustres, contrapor o caráter humilde que estes demonstraram em vida.O P. José Soares, companheiro de Vieira, era exaltado por exercer “todos os ofícios mais baixos dos escravos”. E apesar da presença de vários homens importantes em seu funeral, era um “servo que fora tão amante da humildade e que durante a vida fugia do trato e da presença dos magnatas”. Nota-se o cuidado com que o tema era tratado: ressaltava-se a pompa das cerimônias fúnebres, mas, ao mesmo tempo, as suas qualidades morais, as virtudes e a devoção diária – o que demonstra o valor exemplar que se atribuía à morte.

         Os testamentos eram muito comuns na época, fazendo parte de uma série de atitudes piedosas, que contribuíam para a salvação da alma. O testador aproveitava a oportunidade para fazer caridade, ajudar a Igreja, fazer justiça a parentes, escravos e filhos ilegítimos, acertar dívidas, enfim, deixar tudo resolvido para um maior descanso de sua alma. Havia também recomendações de como deveria ser o funeral: quem acompanharia o corpo, o número de missas, a mortalha e o local do sepultamento.

         Como o homem não tinha o privilégio de conhecer o dia de sua morte, era necessário deixar tudo encaminhado para que não houvesse surpresas. O perigo de uma morte súbita assustava os cristãos, pois, sem a preparação prévia, não se chegava a uma “boa morte”. Os testamentos eram uma forma do indivíduo estabelecer as suas vontades e ainda penitenciar-se por algum pecado ou falta.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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Enterro do Conde Oreaz, de El Greco.

 

 

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