A solidariedade entre as mulheres – bruxas, beatas, senhoras e escravas

Publicado em 24 de setembro de 2015 por - Feminismo

“Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas judiarias. O motivo, quase sempre, o ciúme do marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher”.

(Gilberto Freyre, “Casa Grande & Senzala”)  

Quantas vezes ouvimos que as mulheres se odeiam, são muito competitivas entre si, ou que não confiam umas nas outras? Inúmeras. E a minha experiência aqui no blog tem me mostrado como algumas de nós podem ser duras com seu próprio gênero. Alguns comentários são pesados, cruéis. Estupros, abusos, violência doméstica – tudo isso seria causado pelas próprias vítimas, que, das mais diferentes maneiras, teriam provocado seus agressores. Até as meninas, recém-saídas da adolescência, são acusadas de serem libertinas e depravadas (note-se que geralmente quem julga nem conhece a vítima). Muitas mulheres adotam o discurso machista de que existem as mulheres direitas e as vagabundas (que são sempre as outras, claro).

Hoje mesmo li uma notícia de uma estudante que foi espancada por outras três garotas, por causa de alguma confusão com o namorado de uma delas. Gilberto Freyre no conta que, nos  tempos coloniais, as sinhás costumavam maltratar suas escravas por ciúme dos maridos, com torturas e castigos. Subjugadas pelos próprios maridos, elas descontavam sua amargura e revolta nas cativas. Esposa e escrava, na verdade, eram propriedade do senhor de engenho. A mulher legítima lhe dava filhos e cuidava da casa; as escravas trabalhavam e o serviam também sexualmente.  Tudo girava em torno das vontades do dono da casa. Como diz o velho e terrível ditado: “branca para casar, negra para trabalhar, mulata para f…”.

Sim, essa rivalidade entre mulheres persiste até hoje. O que muitas vezes nos esquecemos é que as mulheres também sempre foram ligadas por laços de solidariedade muito fortes.  As mulheres se ajudavam e se uniam, muitas vezes, para livrar as amigas e parentes de companheiros indesejáveis. Durante as visitações do Santo Ofício, conta-nos Ronaldo Vainfas, em “Trópico dos Pecados”, muitas confirmavam denúncias aos inquisidores para salvar outras de situações difíceis.

As mulheres dominavam também as ervas medicinais e ajudavam na cura de doenças com sua sabedoria popular – o que era mal visto pela Igreja. Umas ajudavam as outras, e compartilhavam segredos, no campo amoroso e no combate às enfermidades e males femininos. As doenças da “madre” (útero) eram um mistério para os homens, e havia mulheres que preparavam beberagens e outros tratamentos para os problemas como esterilidade, corrimentos, dores, sangramentos, abortos espontâneos e gestações indesejadas. Na hora do parto, como relata Mary del Priore, em “Ao Sul do Corpo”, essas sábias mulheres ajudavam a aterrorizada parturiente com suas benzeduras e remédios (hoje, os acharíamos pouco ortodoxos).

O universo das práticas mágicas era dominado pelas mulheres – apesar de haver feiticeiros e magos do sexo masculino. Na época, acreditava-se que a mulher era mais propensa aos tratos com demônio. As europeias trouxeram para a Colônia a magia erótica portuguesa, que se misturaria com práticas indígenas e africanas. Filtros do amor, poções, beberagens, “cartas de tocar”, todos expedientes eram usados para conquistar a pessoa amada ou para vinganças contra algum mal feito.  No campo amoroso, quantas sinhazinhas não recorreram à ajuda de suas mucamas para mandar secretamente bilhetes e recados aos seus amantes? E quantas escravas não foram acobertadas por suas sinhás?

Segundo Vainfas, as mulheres acabaram por construir uma sociabilidade e uma linguagem próprias, criando laços de solidariedade e amizade, em um mundo dominado pelos homens. “Brancas e mamelucas, moças de família ou filhas de artesãos, senhoras ou escravas, todas pareciam unir-se em diversas situações, partilhando experiências, trocando conselhos, descobrindo segredos, e quase sempre arquitetando maneiras para melhor se relacionarem com os homens”, conta. Vainfas destaca que a solidariedade tinha muitos limites, pois, o que unia as mulheres era o desejo de serem amadas e protegidas pelos homens. E a misoginia acabava se impondo…

Voltando a Gilberto Freyre acho que ele tem razão quando afirmou que o ciúme e o rancor sexual são os maiores causadores da rivalidade feminina. E tanto no passado quanto nos dias de hoje, o motivo é que muitas de nós ainda não conseguem se libertar do jugo masculino. Segundo Mary del Priore, as mulheres do século XXI são resultado de rupturas e permanências. “As rupturas empurram-nas para frente e as ajudam a expandir todas as possibilidades, a se fortalecer e a conquistar. As permanências, por outro lado, apontam fragilidades. Criadas em um mundo patriarcal e machista, não conseguem se enxergar fora do foco masculino. Vivem pelo olhar do homem, do outro”, acredita.

Oprimidas e reclusas, as mulheres do passado dependiam da proteção de um homem para serem aceitas na sociedade – apesar de muitas terem sobrevivido e criado seus filhos sozinhas. E hoje, não está na hora começarmos a tratar umas as outras com mais solidariedade?

– Texto de Márcia Pinna Raspanti.

oscarpereirasilva

“Hora da Música”, Oscar Pereira da Silva

(acervo Pinacoteca de SP).

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5 Comentários

  1. Georgeane Braga disse:

    Muito feliz por encontrar esse blog. Uma riquíssima fonte de pesquisa para quem quer saber mais sobre as entrelinhas da História.
    Obrigada Mary e Márcia!

  2. Wellington Rosa disse:

    Há no texto uma certa abundância e riqueza de informações que nos falam de uma realidade um tanto quanto controversa da apresentada ao final do texto. Constatada a ação individual ou conjunta de mulheres em prol de uma demanda, uma necessidade ou de um status pessoal, pergunto: seria a tal “aprovação masculina” um fator preponderante para as mulheres agirem unidas ou mesmo umas contra as outras no cenário colonial? Digo isso pelo fato de a beleza feminina, a capacidade de liderança, os dotes e talentos diversos serem características das mulheres de extrema relevância para os homens. Não necessariamente o homem fosse para elas um objeto a ser alcançado, mas o seu valor pessoal dentro de um ambiente com suas relações de poder. Se o homem é patriarca, a mulher é mãe, protetora, senhora da casa-grande ou simplesmente uma escrava de múltiplas qualidades, aquela que agrada não somente o homem, mas a todos, homens e mulheres. Um status que pode ser desvinculado da figura do homem. Isso significa que podem haver outras nuances e regras comportamentais para a dinâmica entre essas mulheres no Brasil colonial que se tornam um objeto de uma análise mais minuciosa. Não nego aqui o patriarcalismo dessa realidade, como já salientei, apenas problematizo uma sociedade que, apesar de ter nos deixado sua herança, encontra-se afastada de nós no tempo e no espaço. Mesmo no período debatido, diminuir a mulher frente à sociedade masculina da época é um pouco simplista.

    • marcia disse:

      Obrigada pelas suas considerações, Wellington. Com certeza, a condição feminina na sociedade colonial tem vários outros aspectos a serem considerados. Mas, um artigo para blog não é um trabalho acadêmico: nossa intenção é exatamente levantar questões para o debate. Agora, acredito que é importante lembrarmos que a sociedade da época era patriarcal, e o papel da mulher era bastante definido – o que não impediu que muitas quebrassem as regras, às vezes, pela necessidade de sobrevivência, como foi dito no texto. Para uma análise mais minuciosa sugiro a leitura dos autores e obras citados. Quanto ao fato de estarmos afastados da mentalidade daqueles tempos, devemos lembrar – como diz Mary del Priore – que a História é feita de permanências e mudanças, e não há como negar a nossa herança cultural. Não acho que haja “simplismo” nessa constatação.

  3. Mari Horta disse:

    Ótimo texto, como sempre, muito reflexivo e rico!

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