A sociedade das aparências: um retrato do Brasil Colonial

Publicado em 26 de março de 2015 por - História do Brasil

Quando os portugueses aqui chegaram, trouxeram com eles um ideal de sociedade europeia, fortemente hierarquizada, baseada na posse da terra e nos títulos nobiliárquicos. A Coroa Portuguesa e a Igreja foram as responsáveis pela implementação desse modelo idealizado, que obviamente sofreu uma série de influências, transformações e adaptações. Como a História é feita de permanências e mudanças, podemos observar que alguns padrões de pensamento continuam presentes até os dias de hoje. E hoje continuamos a dar mais importância às aparências que à essência? Temos horror ao conflito? Vale a pena refletir.

Em 1711, o jesuíta italiano João Antônio Andreoni publicava “Cultura e Opulência do Brasil”, sob o pseudônimo de André João Antonil. A obra, dedicada aos senhores de engenho, trazia conselhos práticos de como manter a hierarquia colonial e nos mostra um pouco da vida dos cativos e de como a escravidão era encarada na época. O texto de Antonil se tornou um dos documentos mais importantes do período, e sua obra vai nos ajudar a entender melhor a sociedade da época.

Antonil descreve minuciosamente o processo de produção do açúcar, indica os trabalhadores necessários para cada etapa do processo e ainda fala sobre os objetos e ferramentas utilizados. As obrigações e responsabilidades do senhor de engenho e os cuidados com a compra das terras, suas relações com os lavradores de cana, os empregados, os escravos, a família e os mercadores – toda essa dinâmica é narrada pelo autor. Os conselhos que visam a adequada administração do engenho são de ordem moral e prática:

              “Para os vadios, tenha enxadas e fouces, e se se quiserem deter no engenho, mande-lhes dizer pelo feitor que, trabalhando, lhes pagarão seu jornal. E, desta sorte, ou seguirão seu caminho, ou de vadios se farão jornaleiros

 Antonil afirma que as verdadeiras riquezas do Brasil são as culturas do açúcar e do tabaco, e a criação de gado. As minas não passam de ilusão e só atiçam a cobiça dos homens:

             “Nem há pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas minas tanto ouro para castigar com ele ao Brasil, assim como está castigando no mesmo tempo tão abundante de guerras, aos europeus com o ferro.”

A observação e descrição da produção do açúcar, desde o plantio da cana até o encaixotamento e venda do produto, prende-se aos ensinamentos de História Natural, em voga nos séculos XVI e XVII. Um dos modelos seguidos é Histórias da Natureza, de Plínio, o Velho. A obra,  formada por 37 livros, ordena e classifica os elementos ditos “naturais”, dentre os quais o homem e suas criações, estão incluídos. A ideia de uma sociedade ordenada e classificada pode ser sentida na obra de Antonil, quando este descreve as funções de cada um dentro do engenho.

Plínio classifica as partes do corpo humano, descrevendo e mostrando a importância de cada órgão. O cérebro é o primeiro a ser comentado e “coroa o corpo e rege o espírito”, seguindo-se as orelhas, os olhos, o coração, o diafragma e a pele. O engenho também é retratado de maneira semelhante: o senhor é a cabeça, os feitores são os braços e os escravos, as mãos e os pés.

Neste mundo fortemente hierarquizado, a paz e a harmonia poderiam ser alcançadas apenas se os grupos sociais mantivessem-se dentro de seus limites. O conflito deveria ser evitado, pois, implicaria a quebra da hierarquia estabelecida, como ensinou São Tomás de Aquino, em Opúsculo sobre o governo dos Príncipes. O Príncipe deveria ser justo com todos, dando a cada um o que lhe fosse merecido. Deveria ser virtuoso e parecer virtuoso.

Dentro do universo dos engenhos, as relações deveriam seguir os mesmos moldes. O senhor deveria evitar a soberba e a altivez no trato com os lavradores de cana; o feitor deveria cuidar da disciplina dos escravos sem excesso de violência; se o feitor se excedesse, deveria ser castigado longe dos olhos dos escravos, mantendo assim a autoridade do senhor perante o feitor e a autoridade deste perante o escravo.

É preciso recorrer às práticas barrocas de representação, o discreto e o vulgar, para se entender a noção de autoridade. O discreto difere socialmente do vulgar, sendo hierarquicamente superior, demonstrando prudência e, dissimulando se necessário. O vulgar não sabe se portar publicamente, é inferior e hierarquicamente pior. O importante era evitar a murmuração e manter o decoro. A hierarquia não podia ser quebrada: ser e parecer se confundiam nesta sociedade. Os inferiores não podiam de forma alguma questionar a autoridade dos superiores, por isto, era imprescindível que estes fossem discretos.

No engenho a situação era a mesma: o senhor deveria se esforçar em manter a sua autoridade máxima perante a família, os empregados e os escravos. Dentro da hierarquia interna do engenho, o papel de cada um deveria ser firmemente delimitado bem como “a autoridade há de ser bem ordenada e dependente, não absoluta, de sorte que os menores se ajam com subordinação ao maior e todos ao senhor a quem servem.”

Por isso, o senhor nunca deveria repreender o feitor na frente dos escravos ou de seus subordinados. E também não poderia tratar com desprezo os lavradores de cana ou os vizinhos, que, afinal, eram membros da elite colonial e poderiam se revoltar contra o senhor de engenho.

Antonil descreve o engenho como um retrato em menor escala do universo colonial em geral. De forma idealizada, procurava mostrar que a sociedade poderia ser harmoniosa e sem tensões, desde que fosse fundamentada na hieraquia e nos valores cristãos. Como São Tomás de Aquino enfatizou, a sociedade busca sempre o bem comum e só chegará a ele se for bem conduzida e organizada.

– Márcia Pinna Raspanti.

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Debret, já no século XIX, nos mostra cenas do cotidiano dessa sociedade forjada pela hierarquia e pelas aparências.

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1 Comentário

  1. Lembro-me de haver escrito um post semelhante a este em meu blog (https://umhistoriador.wordpress.com/2013/02/17/a-lei-e-o-preconceito/), no qual trago um trecho de texto clássico de Sérgio Buarque de Holanda para refletir a respeito das Cotas Raciais no Brasil.

    Um abraço,

    Rogério

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