A sociedade à época da independência

Publicado em 11 de janeiro de 2014 por - Independência do Brasil

Até o período em que se deu a Independência, a América portuguesa apresentava um cenário com algumas características invariáveis: a família patriarcal era o padrão dominante entre as elites agrárias, enquanto nas camadas populares rurais e urbanas, os concubinatos, uniões informais e não legalizadas e os filhos ilegítimos eram a marca registrada. A importância das cidades variava de acordo com sua função econômica, política, administrativa e cultural.

Alguns números ilustram os contingentes demográficos: São Paulo contava cerca de 20 mil habitantes, Recife, 30 mil, Salvador, 60 mil e o Rio de Janeiro, graças à vinda de portugueses seguindo D. João VI em seu exílio tropical, era a única a contar com mais de 100 mil residentes. A população urbana, contudo, crescia, alimentando uma forte migração interna (campo-cidade) e externa (tráfico negreiro). Apesar dos problemas de abastecimento, higiene e habitação as cidades atraíam pela enorme oportunidade que ofereciam de mobilidade social e econômica.

Com todas essas transformações, é bom não perder de vista que, de acordo com vários viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX, a paisagem urbana brasileira ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro, e de alguns centros onde a agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas – caso de Salvador, São Luís e Ouro Preto, a maior parte das vilas e cidades não passava de pequenos burgos isolados com casario baixo e discreto como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Os viajantes que por aqui passaram na primeira metade do século XIX, concordavam, num ponto: “a moralidade reinante no Rio de Janeiro se apresenta bem precária”, como dizia o mineralogista inglês Alexander Caldcleugh. Já o francês Freycinet queixava-se dos vícios e da libertinagem. Afinal, era um país onde “não é difícil encontrar-se todo o tipo de excessos”. E seu conterrâneo Arago cravava: o Rio era uma cidade onde os vícios da Europa abundavam. Para a chamada “poligamia tropical” não faltaram explicações associadas ao clima quente como a dada por J.K.Tuckey:

“Entre as mulheres do Brasil, bem como as de outros países da zona tórrida não há intervalo entre os períodos de perfeição e decadência; como os delicados frutos do solo, o poderoso calor do sol amadurece-as prematuramente e após um florescimento rápido, deixam-nas apodrecer; aos quatorze anos tornam-se mães, aos dezesseis desabrochou toda a sua beleza, e aos vinte, estão murchas como as rosas desfolhadas no outono. (…)”.

Outra explicação, desta vez dada pelo conde de Suzanet, em 1825, afirmava que as mulheres brasileiras gozavam de menos privilégios do que as do Oriente. Casava-se cedo, logo se transformando pelos primeiros partos, perdendo assim os poucos atrativos que podiam ter tido. Os maridos apressavam-se em substituí-las por escravas negras ou mulatas.

“Nascer do outro lado dos lençóis” era eufemismo para designar bastardia. E não foram poucas as famílias assim constituídas. João Simões Lopes, o Visconde da Graça, estancieiro, comerciante e chefe do partido conservador em Rio Grande tinha uma vida nada convencional na segunda metade do século XIX. Casado, mantinha na mesma rua em que morava, três casas abaixo, sua amante. Ao mesmo tempo em que sua esposa dava à luz a um filho, quase na mesma semana, nascia-lhe outra da “teúda e manteúda” Vicência Ferreira Lira. Teve com cada uma delas, dez filhos, sendo pai de doze de um primeiro casamento do qual ficou viúvo. O arranjo não causava discórdia. Nas missas de domingo, a legítima esposa ficava de um lado da igreja e a concubina, do outro. Todos muito devotos! – Mary del Priore

Debret

Os refrescos no Largo do Paço, depois do jantar – Debret.

 

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