A revolução sexual e as novas formas de dominação

Publicado em 5 de fevereiro de 2015 por - História do Brasil

Entre os anos 60 e 70 eclode o fruto tão lentamente amadurecido: a chamada “revolução sexual”. Nesta história, um novo ato se abre com o desembarque da pílula anticoncepcional ao Brasil. Livres da sífilis e, ainda, longe da AIDS, os jovens podiam experimentar de tudo. O rock and roll, feito sobre e para adolescentes, introduzia a agenda dos tempos: férias, escola, carros, velocidade e, o mais importante, amor! A batida pesada, a sonoridade e as letras indicavam a rebeldia frente aos valores e a autoridade do mundo adulto. Um desejo sem limite de experimentar a vida hippie, os cabelos compridos se estabelecia entre nós. As músicas de Bob Dylan, Joan Baez exportavam, mundo afora, a idéia de paz, sexo livre, drogas como libertação da mente e, mais uma vez, amor. Os países protestantes, – EUA, Inglaterra e Holanda- consolidavam uma desenvoltura erótica, antes desconhecida. Tudo isto junto, não causou exatamente um milagre, mas somado a outras transformações econômicas e políticas, ajudou a empurrar algumas barreiras.

Insisto, só algumas…Nas capitais e nos meios estudantis, os jovens vão escapando às malhas apertadas das redes familiares. Encontros em torno de festas, festivais de música, atividades esportivas, escolas e universidades, cinemas e, após a II Guerra, a multiplicação de boates e clubes noturnos deixam moças e rapazes cada vez mais soltos. Saber dançar tornou-se o passaporte para o amor. “Banho de lua” e “Estúpido Cupido”, na voz de Celly Campello, representavam tentativas de adaptação deste mundo, um mundo novo e esforçadamente rebelde.

A moral sexual se flexibilizava e casais não casados, eram cada vez mais aceitos, já podendo circular socialmente. A sexualidade ainda era vivida como um pecado, aos olhos da Igreja, mas um número crescente de católicos – e, em 1950, 93,5% da população se declarava apostólica romana – começava a acreditar que amor e prazer podiam andar juntos. O Concílio do Vaticano II e a encíclica Gaudium et Spes convidavam a olhar o mundo com simpatia e compreensão. Falava-se em paternidade responsável, em planificação familiar por meio de métodos naturais e, muito importante, em amor conjugal: o amor entre esposos como um bem incalculável para os filhos, a interação entre amor físico e espiritual e a renovação contínua do amor. Uma agenda, sem dúvida, revolucionária e generosa para seu tempo.

Por influência dos meios de comunicação e, sobretudo, da televisão, o vocabulário para dizer o amor, passa a evitar eufemismos. Embora nos anos 60 ainda se utilizasse uma linguagem neutra e distante para falar de sexo – mencionavam-se, entre dentes, “relações” e “genitais” -, devagarzinho, se caminhou para dizer coito, orgasmo e companhia. Os adolescentes ainda eram “poupados” pelos adultos, de informações mais diretas.  As relações no cotidiano dos casais começaram a mudar. Ficava longe o tempo em que os maridos davam ordens às esposas, como se fossem seus donos. Um marido violento não era mais o dono de ninguém, mas, apenas, um homem bruto.

Mas novas formas de dominação, mais insidiosas vão se esboçando. A mulher não se submetia mais por pressão familiar ou social, mas, por amor, pois com a chegada dele, chegam também todas as formas de manipulação afetiva; entre elas o ciúme doentio.

Carícias se generalizavam e o beijo mais profundo – o beijo de língua ou French Kiss – antes escandaloso e mesmo considerado um atentado ao pudor passava a ser sinônimo de paixão. Na cama, novidades. A sexualidade bucal, graças aos avanços da higiene íntima, se estende a outras partes do corpo. As preliminares ficam mais longas. A limpeza do corpo e certo hedonismo já latente, alimentam carinhos antes inexistentes. Todo o corpo-a-corpo amoroso torna-se possível. No quarto, a maior parte das pessoas ficava nua. Mas no escuro. Amar ainda não era se abandonar. É bom não esquecer que os adultos dos anos Sessenta foram educados por pais extremamente conservadores. Regras de pudor muito estritas lhes devem ter sido inculcadas. Na moda, a minissaia começava a despir os corpos. Lia-se William Reich, segundo quem o nazismo e o stalinismo teriam nascido da falta de orgasmos. A ideia de que os casais, além de amar, deviam ser sexualmente equilibrados começa a ser discutida por alguns “prá frente”. Era o início do direito ao prazer para todos, sem que as mulheres fossem penalizadas ao manifestar seu interesse por alguém.

Era o início do fim de amores que tinham que parar no último estágio: “quero me casar virgem”! Deixava-se para trás a “meia-virgem”, aquela na qual as carícias sexuais acabavam “na portinha”. As mulheres começavam a poder escolher entre desobedecer às normas sociais, parentais e familiares.

Uma vez acabado o amor muitos casais buscavam a separação. Outros faziam mais fácil: tinham um “caso”. E deste ponto de vista, o adultério feminino era uma saída possível, para quem não ousasse romper a aliança. Muitos “casos”, sobretudo nas elites, sustentavam casamentos burgueses e sólidos. Maridos e mulheres, com vidas paralelas, encontravam nas “garçonniéres”, apartamentos secretos para encontros amorosos, o espaço para relações afetivo-sexuais que já não existiam dentro do matrimônio. Na maior civilidade, “tinha-se um caso” com o melhor amigo do marido ou com a melhor amiga da mulher. O importante era não dividir os patrimônios: o material e o simbólico. O patrimônio simbólico bem representado em nomes de família tradicional, em posições profissionais de projeção, em carreiras públicas, enfim, no status que seguia impoluto, sem a mancha do divórcio, do lar desfeito ou da consciência pesada.

– Mary del Priore.

teendance1956

O rock and roll e liberação dos jovens.

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1 Comentário

  1. JANDIRA GUALBERTO DOS REIS disse:

    Ótimo texto! Seus escritos sempre me proporcionam uma viagem através do tempo!
    Obrigada!

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