A revolta dos homens livres e pobres

Publicado em 2 de fevereiro de 2017 por - artigos

          Sentimento suscetível de explicar comportamentos coletivos, o medo de revoltas marcou a primeira metade do século XIX. A acumulação de frustrações advindas da emancipação criou uma reação no corpo social. Miséria, fome, fisco, falta de liberdade, concorrência com os “alfacinhas”, tudo se misturou num caldeirão de sangue e fogo e, entre a abdicação de D. Pedro I e a maioridade de D. Pedro II, conflitos violentos sacudiram o país.

         Quando homens livres e pobres começaram a ocupar chãos que a cana havia abandonado no Nordeste, um dos primeiros choques teve início. Entre 1832 e 1835, começou a revolta dos cabanos, assim denominada, pois, eles moravam em cabanas no meio do mato. Diferente de outras rebeliões, a Cabanada que aconteceu entre Pernambuco e Alagoas, não foi uma contestação ao regime autoritário, nem ambicionava a independência regional. Foi uma guerra das “gentes do mato”, índios, escravos e posseiros – em defesa de sua porção de terra, explica Marcus M. de Carvalho. E é ele quem conta: tudo começou bem longe dali, na cidade e com motivação política. Em abril de 1832, houve um levante de militares de alta patente e grandes proprietários rurais, insatisfeitos com a abdicação de D. Pedro I. A anistia aos membros da Confederação do Equador, que tinha tido lugar em 1824, movimento republicano e separatista de reação às tendências absolutistas do mesmo D. Pedro I, trouxe de volta ao poder, velhos inimigos. Essa elite se revoltou contra o novo governo provincial, mas foi derrotada.

         O problema é que os proprietários rurais haviam distribuído armas para escravos e índios no interior, pensando em tê-los como aliados na luta. Mas, agora, livres de seus senhores e armados, as “gentes da mata” ameaçavam. O governo decidiu mandar um exército com mais de mil homens, para a divisa com Alagoas, a fim de enquadrá-los e os militares passaram a chamar os revoltosos de “cabanos”, uma referência às cabanas em que viviam. Em final de 1832, a figura de seu líder, Vicente de Paula, ganhou contornos. Grande conhecedor das matas e aliado aos índios e aos escravos fugidos que lutavam por liberdade, ele costumava se assinar “Comandante de Todas as Matas”. Os cabanos rechaçaram, nos primeiros embates, as tropas do governo e dos grandes proprietários que vieram desalojá-los. Depois, foram lentamente vencidos. Não foram, porém, as autoridades que arrefeceram a luta dos cabanos. E, sim, a morte de D. Pedro I, vítima de longa e penosa tuberculose em 24 de setembro de 1834 e, cujo retorno ao Brasil eles exigiam. Pois, apesar da emancipação em 1822, havia muita gente nostálgica do primeiro imperador, imaginando que somente ele poderia trazer as necessárias reformas e liberdade para todos.

       Os governadores de Pernambuco e Alagoas, Manoel de Carvalho Paes de Andrade e Antônio Pinto Chichorro da Gama, não se tranquilizaram com o suposto fim da Cabanada e decidiram cercar os cabanos na mata, com um exército de mais de 4.000 homens. Prometiam anistiar os dissidentes que se entregassem e, de fato, conseguiram capturar, graças à armadilha, um grande número de combatentes. Vicente de Paula só foi preso em 1848 numa emboscada política armada pelo marquês do Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão. Enviado para Fernando de Noronha só viu a liberdade em 1861, aos 70 anos de idade.

       Em 1835, inspirada nos vizinhos, estourou no Pará, a Cabanagem. Seus integrantes? De novo, a gente pobre e não branca excluída pelos portugueses da posse da terra ou dos pequenos negócios: indígenas, como os Mura e os Ka ápor, negros de origem africana, mestiços ou “tapuios”, livres pobres, soldados e recrutas vindos do Ceará, famílias de trabalhadores vindas de Pernambuco, gente que fazia comércio com a Guiana Francesa, com comunidades interioranas pelos sertões do Grão-Pará e com indígenas de diversas aldeias, trabalhadores livres que faziam trabalho escravo,  e religiosos. Uma turba inquieta entre os quais se ouviam os mais variados dialetos. “Gente de diversa cor”, como foi descrita pelo francês Emily Carrey que realizou viagens pela Amazônia, em meados do século XIX. O movimento que começou no dia 7 de janeiro, data dedicada à festa de São Tomé, protetor dos índios se transformou um complexo de lutas que tingiu de sangue os rios da Amazônia. A Cabanagem foi silenciada num massacre que atingiu quase 20% da população: cerca de 30 mil mortos, a maioria, mestiça.

       A maior queixa? De início, a mobilização para expulsar as forças reacionárias que pretendiam manter a região como colônia de Portugal. A seguir, a falta de reformas. A Corte se esquecera do Grão-Pará. Sua gente extremamente carente, montada em canoas e vivendo sobre palafitas, tinha uma identidade diversa daquela em formação na Corte, no Rio de Janeiro. E, novamente o anti-lusitanismo, uma identidade construída, contra os portugueses que “mandavam” e exploravam comercialmente o Grão-Pará. Reviravoltas, traições e assassinatos marcaram a Cabanagem.

  • Texto extraído de “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.1)”, de May del Priore, Editora LeYa, 2016. 

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cabanaindios-rugendas

Cabana de índios, Rugendas.

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