A princesa espiã (Sombras de um trono – parte 2)

Publicado em 6 de maio de 2015 por - História

Por Paulo Rezzutti

De colaboradoras nazistas a espiãs da KGB, como sobreviveram as mulheres da família imperial russa após a queda do Império Russo

Outra mulher Romanov que se destacou foi a princesa Iskander-Romanov, Natália Androsova. Tataraneta do czar Nicolau I, ela nasceu em Petrogrado, atual São Petersburgo, em 5 de fevereiro de 1917. Durante a revolução, a família de Natália resolveu partir para Tashkent, capital do Uzbequistão, na Ásia Central, na época pertencente ao Império Russo. Lá vivia o seu avô paterno, o grão-duque Nicolau Constantinovitch, que fora exilado para essa cidade depois de ter sido envolvido por sua amante americana, Fanny Lear, no roubo de diamantes que pertenciam à mãe dele. Os pais de Natália acabaram por se separar: ele partiu para combater no Exército Branco, e a esposa e o casal de filhos permaneceram em Tashkent. Com a morte do velho grão-duque Nicolau e o fim da guerra civil, a mãe de Natália, dando o marido por morto em batalha, devido à falta de informações, acabou indo com os filhos para Moscou. Lá se casou novamente e mudou o sobrenome dos filhos para o do marido, Androsov.

Os dois únicos membros da família imperial que restaram na Rússia passam a morar no bairro Arbat, à sombra do velho Kremlin, em um apartamento no porão de um prédio. Natália cresceu sabendo de suas origens: sua mãe não fazia questão alguma de esconder, e fotos da família imperial jaziam em estantes e aparadores. Somente aos mais íntimos, a jovem revelava a sua verdadeira identidade. Alta, esbelta, com diversas características dos Romanovs, tinha as feições finamente esculpidas, olhos azuis brilhantes, longos cabelos loiros e um sorriso cativante.

Natália escolheu uma profissão um tanto incomum para uma princesa: motociclista profissional. Entrou para o clube atlético Dynamo, onde se tornou uma proeminente piloto de moto. Em 1939, um mecânico do clube tentou chantageá-la: se ela não dormisse com ele, revelaria à polícia secreta soviética que ela era uma Romanov. A resposta de Natália foi um estridente tapa no rosto do homem. Retornando para casa, queimou papéis familiares que poderiam comprometê-la e tomou a resolução de mudar de clube, indo para o Spartak. Mas, em algumas semanas, agentes soviéticos convocaram-na para prestar depoimento na Lubianka, a sede da polícia secreta em Moscou. Natália, segundo os agentes, só tinha duas opções: ser morta imediatamente ou transformar-se em uma agente secreta. Com o codinome de Lola, ingressou na polícia secreta de Stalin.

Durante a Segunda Guerra, ela era a encarregada pela brigada de incêndio do seu bairro. Ajudava a recolher as bombas incendiárias jogadas pelos alemães e usava areia para neutralizar as explosões. Também trabalhou como mensageira motorizada, utilizando sua experiência com motos.  A partir de 1942, retomou a sua carreira de motociclista, encerrada apenas em 1964. Viajou por toda a União Soviética apresentando-se com seu número “Voo Destemido”. Nem sempre a apresentação dava muito certo, e às vezes ela passava um tempo hospitalizada curando alguns ossos quebrados. Constantine Pleshakov, que a conheceu em Moscou, recorda-se dela como “um espírito livre, uma rebelde, uma mulher excepcionalmente resistente, forte e carismática”. Natália faleceu em Moscou em julho de 1999.

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 Natália Androsova: uma princesa motociclista e espiã da KGB.

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