A noite de núpcias: segredos de alcova

Publicado em 5 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Pouco se falava, no início do século XX, do que aconteceria na noite de núpcias  – apenas que a noiva deveria ser obrigatoriamente virgem. O primeiro contato sexual podia ser desastroso para o resto da vida de um casal. Eis porque os médicos aconselhavam o “defloramento com especial cuidado”. Por seu lado, a virgindade feminina que exigia tantos cuidados, era obrigatória. E o assunto era tratado com rigor pelos médicos como o Dr. Jaf, famoso por seu O casamento: amor e higiene, preocupado com a “fraude do hímem”.

Na classe ignorante d’alguns povos, a efusão de sangue, no primeiro coito, é olhada como a prova mais evidente da virgindade: expõe-se aos olhos do publico a camisa ensanguentada da jovem desposada, pois guardam-na numa caixa para ser conservada como relíquia. A jovem desposada que não fornecesse esse sinal palpável da sua virgindade seria despedida vergonhosamente para a casa de seus pais. Mas essa expulsão quase nunca se realiza, atendendo a que as mães têm cuidado de o evitar por precauções tomadas previamente.

A mãe, dias antes do casamento, examina as partes genitais de sua filha e, se a largura da entrada vaginal lhe faz julgar que a introdução do membro viril possa ter lugar sem rasgão nem sangue derramado, ela prepara uma bexiga de peixe ou uma pequena bexiga de película de tripa de boi, de forma oblonga, semelhante a uma amêndoa; depois de a ter enchido de sangue de pombo, entrega-a à filha com a recomendação de introduzir clandestinamente no canal vulvo-uterino antes de se dirigir para o leito nupcial. Essa fraude dá ás jovens desposadas a certeza de as provas sangrentas da virgindade não deixarão de se manifestar”.

Doutores se queixavam do excessivo pudor das verdadeiras virgens, pois a “sorte de um casamento, dizia um deles, o doutor Van de Velde autor de Matrimônio Perfeito, depende da noite de núpcias”.  Entre a “violação legal” e certo “estado amável”, iniciavam-se as jovens pela leitura de literatura científica, capaz de a “aparelhá-las para o desempenho conjugal”. Não foram poucas as que se viram acuadas pelos “instintos bestiais” do jovem marido, longe do carinho e das delicadezas de um amor sublime, tal como era descrito nos romances açucarados. Para essas moças, “Aprender a ser feliz” significava literalmente a prender a ter relações sexuais regradas e contidas.

Já o Doutor Olvarrieta, sensível ao universo feminino, afirmava que os homens deviam desfazer-se de referências sexuais aprendidas no bordel. Insistia, ainda, que muitos casamentos acabavam porque os maridos acreditavam que deveriam evitar “com sua mulher toda a classe de refinamentos durante o ato sexual, crendo deste modo cumprir mais fielmente as obrigações do marido, já que a alegria, a satisfação, a recreação ficaram nos braços de suas amigas anteriores”. Repeti-las com sua própria mulher, com a que vai ser “mãe dos seus filhos”, seria insensato. Equivaleria a insultá-la, ofendê-la, até mesmo, prostituí-la.

A escritora Clotilde do Carmo Dias registrou que na sua noite de núpcias ficou durante um bom tempo no quarto, sem coragem de deitar-se, enquanto seu marido esperava ansioso. Sua apreensão era premonitória: “Meu marido nesta noite deu largas aos seus instintos bestiais, cheios de luxúria indecente e insaciáveis, que em vez de gerar em mim amor, faziam-me sentir repugnância por ele. Eu desejava um carinho todo especial, delicado, respeitoso e moderado”. O marido não leu o Dr.Olvarrieta e optou pelo corpo a corpo brutal!

A repressão sexual era profunda entre mulheres e estava relacionada com a moral tradicional. A palavra sexo não era nunca pronunciada e saber alguma coisa ou ter conhecimentos sobre a matéria, fazia com que elas se sentissem culpadas. Um tal distanciamento da vida real, criava um abismo entre fantasia e realidade. Obrigadas a ostentar valores ligados à castidade e à pureza, identificadas pelo comportamento recatado e passivo, quando confrontadas com o marido, na cama, o clima de conto de fadas se desvanecia:  “(…) éramos tão inocentes, mal informadas que quando se ficava sabendo de alguma coisa era como uma pedra que caía na cabeça e começavam os escrúpulos”, diz uma destas antepassadas”.  “Éramos completamente ignorantes em matéria da vida, para ser pura tinha-se que ser ignorante”, explica outra.

Médicos tentavam codificar o papel das mulheres no “eterno rito” que justificava apenas a “duração das espécies”, no qual o orgasmo feminino recebia o nome de “espasmo venéreo”. O Dr. Jaf explicava:

“O espasmo voluptuoso é menos violento na mulher do que no homem, mas em compensação dura mais tempo. Há mulheres que, ao menor contacto, deliram de prazer, enquanto que a maioria exige carícias muito prolongadas para chegar ao espasmo venéreo. As primeiras são mulheres nervosas, d’imaginação ardente; as segundas linfáticas, gordas e dotadas d’um sistema nervoso menos impressionável. Excessivo ardor ou excessiva indiferença nos prazeres do amor são dois extremos igualmente prejudiciais à fecundação”. Os resultados para a “família humana” dependiam da “conduta higiênica” de pais e mães. E que tal conduta amarrava-se às prescrições do século anterior. Economizar, poupar, guardar esperma: as lições não tinham mudado.

– Mary del Priore.

casamento

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 Comentário

  1. Excelente texto novamente. Era e é terrível a situação da mulher ainda hoje, no passado devido ao modelo virginal imposto pela religião judaico-cristã, e hoje porque o sexo está tão banalizado, a vida sexual iniciada muito cedo sem discernimento e amor, a mulher objeto ainda nas mãos masculinas. Com pouca chance de escolha…

Deixe o seu comentário!