A mulher casada

Publicado em 13 de janeiro de 2014 por - História do Brasil

Existia um alto nível de violência nas relações conjugais. Não só violência física, na forma de surras e açoites, mas a violência do abandono, do desprezo, do malquerer. Os fatores econômicos e políticos que estavam envolvidos na escolha matrimonial deixavam pouco espaço para que a afinidade sexual ou o afeto tivessem grande peso nessa decisão. Além disso, mulher casada passava a vestir-se de preto, não se perfumava mais, não mais amarrava seus cabelos com laços ou fitas, nem comprava vestidos novos. Sua função era ser “mulher casada” para ser vista só por seu consorte.

Como esposa, seu valor perante a sociedade estava diretamente ligado à “honestidade” expressa no seu recato, pelo exercício de suas funções no lar e pelos inúmeros filhos que daria ao marido. Muitas mulheres de 30 anos, presas ao ambiente doméstico, sem mais poderem “passear” – “porque lugar de mulher honesta é no lar” – perdiam rapidamente os traços da beleza, deixando-se ficar obesas e descuidadas, como vários viajantes assinalaram. Mulheres abandonadas por esposos que buscaram companheiras mais jovens sempre houve em todo o mundo, mas fatores específicos como o desequilíbrio demográfico nas regiões interioranas, ocasionaram um mercado matrimonial desvantajoso para um número muito grande de mulheres cujos maridos deixavam o sertão para ir trabalhar nas cidades litorâneas. Homens de prestígio e de boa situação social sempre tiveram a chance de constituir mais de uma família.

As mulheres jovens, sem bens e que não haviam conseguido casamento numa terra de estreito mercado matrimonial, encontravam no homem mais velho, mesmo casado, o amparo financeiro ou social de que precisavam. Mesmo sendo “a segunda ou terceira esposa do senhor juiz”, por exemplo, o poder e o prestígio dele, ajudavam-na a sobreviver. Ser “teúda e manteúda” de um homem importante implicava a galgar degraus, ganhar status econômico que de outra maneira não existiria. É certo que se exigia dela ser conhecedora “do seu lugar”, com comportamentos adequados e comedidos, mas ainda, assim, ela gozava de respeito.

O preconceito racial de estrangeiros não raro misturava-se com a aversão europeia pela “corte amorosa à brasileira”. O fato de meninas, muito meninas, passarem da reclusão familiar às mãos dos maridos fazia-os crer num precoce interesse pelo sexo oposto. Interesse, aliás, muito mal visto. Os viajantes criticavam a precocidade com que adquiriam modos e conhecimentos impróprios para a sua idade. A percepção destes estrangeiros é de que havia certa antecipação sexual nas moças do Novo Mundo.

Durante o século XIX, continuam sem punição as infidelidades descontínuas e transitórias por parte dos homens casados, bem como toleravam-se concubinatos de escravas com seus senhores. Muitos desses escondiam suas amásias em lugares afastados para evitar “complicações domésticas”. Confiavam-nas à proteção de amigos ou concediam-lhes alforria, ou então, instalavam-nas em pequeno sítio, com um ou dois escravos para servi-las.

As regras do celibato eram abertamente desrespeitadas e não faltaram registros de casos de padres e sacerdotes com amantes e filhos naturais. Do ponto de vista dos estrangeiros que, nesta época chegam em massa ao Brasil, as ligações entre brancos e negros ou mulatos desaguavam sempre no rebaixamento moral dos primeiros e em repercussão insidiosas sobre a vida social, sendo a mais dramática delas o grande número de filhos naturais.

Embora não haja estatísticas sobre o assunto, é de imaginar-se que as relações extraconjugais fossem correntes, depois do casamento. O adultério perpetuava-se como sobrevivência de doutrinas morais tradicionais. Fazia-se amor com a esposa quando se queria descendência; o resto do tempo era com a outra. A fidelidade conjugal era sempre tarefa feminina. A falta de fidelidade masculina, vista como um mal inevitável que se havia de suportar. É sobre a honra e a fidelidade da esposa que repousava a perenidade do casal. Ela era a responsável pela felicidade dos cônjuges.

– Mary del Priore

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A mulher pertencia ao ambiente doméstico (cena pintada por Debret). 

 

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2 Comentários

  1. Rejane disse:

    Parabéns pelo espaço maravilhosos e rico!!! Que artigo bem feito e inteligente!

  2. Albanise Souza disse:

    Infelizmente era assim e que graças a luta o cenário é outro.

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