A mulher brasileira no século XIX

Publicado em 17 de setembro de 2017 por - artigos

      A capital do Império viu as mulheres serem extraídas de suas camarinhas para começar a frequentar salões, serões e partidas noturnas de jogos, simples entretenimentos ou bailes e recepções. Alguns desses concertos animados pelo famoso músico mineiro, padre José Maurício. As danças se aperfeiçoavam com mestres entendidos e alunas exibiam passos e passes, coreografias estudadas.

     Outro “must” da mulher da época, além do professor de dança, era o cabeleireiro responsável por penteados ousados e cabeleiras ou perucas. Na Rua do Ouvidor, que segundo o escritor Oliveira Lima “já armava pretensões a elegante”, se instalara o cabeleireiro da corte Monsieur Catilino e abriu loja a costureira da moda Madame Josephine. As crianças também eram levadas aos bailes onde criados antigos e escravos conversavam com convidados conhecidos. Na Bahia, Lindley, horrorizado, viu as mulheres de elite executando “danças de negros”: o lundu e os fandangos. Em 1817, em Recife, Tollenare as viu dançar animadamente na inauguração da Praça do Comércio.

      Também na primeira metade do século XIX, no interior de sobrados, donas de casa “de tamancas, sem meias, com um penteador de cassa por vestido” presidiam à fabricação de doces caseiros que mandavam os escravos venderem em tabuleiros pela rua. Distribuíam costura entre as escravas, mas, seus vestidos de festa, eram feitos por costureiras francesas. Bordavam guardanapos que também mandavam vender. Iam ao mercado de escravos comprar “peças” que examinavam como se fossem animais. Na Bahia, Maria Graham impressionou-se mal em vê-las tão “relaxadas”, recebendo convidados “sem casacos ou corpetes… Os cabelos em papelotes”. Mas já se via pequena mudança. Começavam os conselhos para corrigir esse “estar em casa, com compostura”. Vinham do médico baiano José Lino Coutinho que, em cartas, admoestava a filha Cora sobre a importância do asseio e da vestimenta no cotidiano:

      “Não se pense que quero que gasteis no toucador todo o tempo precioso à governança da vossa casa, ou que diariamente vos enfeiteis como uma namoradeira […] só desejo que vos apresenteis a vosso marido e à toda gente honestamente penteada, calçada e apertada (leia-se com espartilho), com vestuário cômodo e limpo e que eviteis sempre em sua presença naqueles atos que, supostamente prescritos pelas precisões da natureza, não devem ser testemunhados”.

        Modelos femininos da época eram figuras como a linda carioca Domiciana Almeida Vallim, maior proprietária do vale do Paraíba, ou a paulista, Gertrudes Galvão de Moura Oliveira Lacerda Jordão, viúva do Brigadeiro Rodrigues Jordão, rica senhora de várias fazendas moradora numa das melhores casas da cidade. Suas atividades sociais eram marcadas por visitas de amigas e diversão: bandas de música formadas por escravos, especializadas na execução de óperas, saraus musicais em torno de modinhas brasileiras. Foi também o tempo das reuniões para atividades de benemerência, participação nas irmandades e auxílio aos pobres.

      As senhoras casadas traziam a severidade como marca de distinção: poucos adereços, o vestido escuro ou negro, geralmente com detalhes discretos de miçangas, renda ou pregas. E joias simples, tipo broche ou brincos pequenos. Cabelos em coques presos para trás e tranças presas em laçarotes era uma opção possível. Nos quadros a óleo que restaram desses tempos, as feições não trazem marcas de cosméticos. Ainda se sentavam no chão, à turca. Ainda eram transportadas por negros em cadeirinhas pintadas e douradas e redes ornamentadas. Ainda dedicavam meia hora às orações nos finais de tarde.

  • “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, editora LeYa, 2016.
  • Imagens: “Jogos durante o entrudo no Rio de Janeiro”, de Augustus Earle; “Visita a uma fazenda”, de  Jean-Baptiste Debret; “Uma senhora de algumas posses em casa”, de Debret; “Hora da música”, de Oscar Pereira da Silva.

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