A morte e os afrodescendentes

Publicado em 2 de novembro de 2017 por - artigos

           Entre os negros, os que faziam enterros com mais aparato eram os moçambiques. O transporte dos corpos era feito em rendas alvíssimas, cobertas de cortina preta com grande cruz branca ao centro. O acompanhamento era sempre numeroso; negros e negras vestidas de luto, que batiam palmas cadenciadas segundo o ritmo do tambor-mor e um coro de lamentações e peditórios. O cerimonial, minuciosamente regido pelo mestre de cerimônias, terminava por uma prece geral, ao baixar o corpo à terra. No Rio de Janeiro, por exemplo, o sepultamento tinha lugar na igreja da Lampadosa, templo pertencente a uma irmandade de mulatos e servida por clero negro. Um movimento de solidariedade não deixava “indigente moçambique” sem sepultura. O acontecimento ocorreu na frente da Lampadosa, “pequena igreja servida por um padre negro e assistido por confrarias de mulatos.

         Na prancha “Enterro de filho de um rei negro”, o pintor Jean-Baptiste Debret registra a tradição tribal de reverenciar antigas elites mesmo que escravizadas e privadas de suas insígnias. Se vivos, soberanos tinham a mão beijada e eram saudados respeitosamente, quando de seu cortejo fúnebre, um “mestre de cerimônia” fazia a abertura, os súditos homenageavam o morto com saltos mortais e muitas bombas e rojão. O morto também recebia a visita de deputações de outras nações negras, vestidas a caráter em meio a uma grande multidão que precisava ser contida nas suas manifestações de dor, à bengaladas. Mantinha-se a concepção de exaltação após a morte por meio da festa, típica da tradição afro. A presença de uma beata com uma cruz a cobrir o corpo do rei, seria a única referência à tradição cristã.

         Os testamentos, revela a historiadora Marisa Soares, mostram que os pretos forros, e especialmente as pretas forras, com algum patrimônio, deixam sempre uma parte de seus bens para a irmandade a que pertenciam, possibilidades essa que em vida, deve lhes garantir alguma influência. Com aumento do número de mulatos proliferaram as irmandades que os congregavam como a Nossa Senhora das Mercês, associada à libertação dos escravos e São Francisco do Cordão. Para os bantos ou descendentes de bantos, sublinha o historiador Júlio César Medeiros, o momento da morte era o do reencontro com ancestrais antigos, de confraternização com membros do clã. Sem a tensão dos julgamentos éticos impostos pelo catolicismo. O regozijo e a festa faziam parte do bom enterro. A falta de rituais, como soia acontecer com escravos abandonados, impossibilitava o morto de se reunir com seus ancestrais.

         Sobre os descendentes de africanos, o folclorista e escritor Alexandre José de Mello Morais Filho registrou que, em Penedo, Alagoas, “a festa dos mortos dividia-se em três partes: o jejum e as rezas; os sacrifícios; os banquetes e as danças. Retirando-se para sítios afastados, internando-se nas matas, trinta ou mais africanos, recolhidos em casa humilde entregavam-se às cismas do além-túmulo…. Neste grupo, – ele observa – havia chefes e sub-chefes, dignidades subalternas e gradativas. Vestidos todos de uma espécie de alva, e tendo à cabeça, bonés brancos, o chefe se distinguia dos demais por um barrete de molde diferente. Muitos dias antes da festa, abstinência de licores fortes, de bebidas alcoolizadas, de viandas e cereais era de rigor. De raros legumes, de pequena quantidade de leite e água se compunham as refeições. Passavam a primeira noite em melopeias ao som de rudes instrumentos, finando estas orações antes do segundo dia da festa.

         Ao amanhecer, sacrificadores negros levavam cordeiros para junto de buracos recentemente escavados, para serem imolados; depois se recolhiam, iam orar, enquanto a distribuição de carnes se fazia pelos conhecidos e famílias africanas, da mesma fé e rito. O banquete funerário seguido de danças que iriam encantar os manes na viagem glacial da morte, começava a servir-se participando dele não só os celebrantes do rito africano, mais, ainda, o povo da vizinhança que acudia em topa àquelas paragens. De turbantes e panos da Costa, de saias rendadas e leves chinelinhas, as mulheres negras prodigalizavam comida à moda de seu país sendo as principais refeições dos dois últimos dias presididas pelo sumo sacerdote e seus sequazes, com suas vestes brancas.

          Os guisados esquisitos, os carurus, os acarajés, o arroz d’Auçá condimentados e repartidos por todos. Matronas da África de face lanhada seguiam as ocultas, cobrindo com panos bordados cuias contendo comidas, e acauteladas no andar, receosas nos movimentos, voltavam-se com o olhar e entornavam aqui e ali, por cima da terra e por baixo das pedras, o funerário alimento para o banquete das almas que supunham vir nas horas caladas da noite partilhar as oferendas comemorativas. Na extensão do terreiro, pessoas iam e vinham e um ruído de instrumentos fremia. Isso traduzia o sinal para danças dos negros, os solenes batuques, os agogôs atroadores[…] canções selvagens e requebros. […]os batuques e danças funerárias chegavam a seu termo em horas adiantadas da terceira noite”. O historiador João José Reis confirma que apesar dos costumes mortuários africanos terem sofrido câmbios ao longo da escravidão, adquirindo, inclusive, empréstimos católicos, membros do candomblé ainda hoje são enterrados sob normas católicas e africanas “com o sacrifício da missa e de animais”.

  • Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, editora LeYa, 2016.

 

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1 Comentário

  1. cimone disse:

    belo texto, gostei de sabe-lo

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