A “moda” do proletariado: os Andy Caps

Publicado em 1 de maio de 2014 por - História

Geralmente, quando falamos de regras de vestuário e moda nos referimos às classes dominantes: costumamos citar os mais pobres apenas no que se refere aos artigos que lhes eram proibidos. Nas diversas sociedades ao longo da História, as elites criaram normas para sinalizar a distância entre as diferentes classes sociais. Já discutimos aqui as Leis Suntuárias europeias que, desde o século XIV, determinavam quais tecidos, materiais e cores podiam ser usados pela nobreza, clero, burguesia, judeus, pobres e escravos; mesmo no Brasil, que muitos julgam ser o paraíso da harmonia racial, foram promulgadas leis que proibiam negros e mulatos de vestir sedas e adereços de ouro ou pedras preciosas. Por isso, sempre que o assunto indumentária surge, já pensamos em nobres, reis e rainhas. As roupas, porém, podem ser de grande ajuda também para aqueles que se interessam em estudar os trabalhadores. Em “Mundos do Trabalho”, Eric J. Hobsbawm, apresenta informações interessantes sobre vestimenta que ajudam a formar um quadro detalhado dos operários ingleses do final do século XIX e primeira metade do século XX.

A partir de 1910, o autor observa que em qualquer imagem dos trabalhadores de indústrias é possível notar “o oceano de bonés chatos e com pala” que cobriam as cabeças dos homens. Eram os “Andy Caps” (algo como “Zé do Boné”), exibidos com orgulho pelos operários que faziam questão de serem identificados pelo acessório. Mais do que qualquer outra preocupação (inclusive estética), os bonés eram o símbolo de uma classe e eram usados de maneira consciente, exatamente para marcar a posição daqueles homens dentro da sociedade. Hobsbawm pinta um retrato realista daqueles operários: pessoas simples, com seus caps, que gostavam de futebol, comiam peixe frito e eram sindicalizados. Londres se modificou ao longo do século passado com o surgimento desta nova classe social: lojas populares e supermercados dominaram o centro da cidade, lanchonetes de peixe e batatas proliferaram.  Estes homens tinham adquirido o direito a voto e passaram a ser considerados pelas elites políticas, afinal, a massa de trabalhadores poderia decidir uma eleição. Os tempos mais cruéis da Revolução Industrial (juntamente com o trabalho infantil, a remuneração irrisória e as condições insalubres) começavam a ser deixados para trás, graças à organização das classes trabalhadoras que lutavam tenazmente por seus direitos.

O historiador ressalta também que, nesta época, as classes burguesas ou médias  também se fortaleceram na sociedade inglesa. As manifestações no campo do vestuário surgiram com igual força: as gravatas com as cores da escola se tornaram unanimidade entre os jovens desta camada social. O golfe – juntamente com os clubes e trajes relacionados a ele – é o esporte eleito pelas camadas médias, em contraponto ao popular futebol. Este esporte, por sinal, era um motivo de desgosto para os líderes dos partidos socialistas e comunistas, que desprezavam a paixão dos operários pelo futebol por considerá-lo uma forma de alienação – o que mostra um certo ar de superioridade dessas lideranças.

Voltando aos operários, a onda dos “Andy Caps” não foi a única marca registrada no vestuário deles: os cartistas do século XIX ficaram conhecidos pelos seus jalecos de fustão; as botas dos trabalhadores de minas e dos ferroviários foram tão característicos que se cristalizaram nas nossas mentes até hoje.  

Mais do que uma maneira de vestir, o proletariado trouxe uma nova visão de mundo e uma forma diferente de viver para a sociedade contemporânea. O vestuário foi uma das formas que estes homens e mulheres encontraram para reforçar a presença desta nova classe, que lutava – e luta – por uma sociedade mais justa. – Márcia Pinna Raspanti

 trab.ind

Andy Caps: trabalhadores na hora da refeição.

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2 Comentários

  1. Julio disse:

    Olá, poderiam dizer onde acho a publicação original desse artigo?

    • Márcia disse:

      Oi, Júlio. Esse artigo foi escrito por mim para o blog “Modas e Modos do Brasil”, hoje desativado. A referência bibliográfica é “Mundos do Trabalho”, de Eric Hobsbawm (Editora Paz e Terra, 2008). Qualquer dúvida, me avise. Obrigada!

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