À mesa com D. Pedro II

Publicado em 24 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Muito já se falou sobre a simplicidade da corte de D. Pedro II: o imperador não gostava da pompa e dos rituais do poder. No dia a dia, as refeições eram pouco elaboradas – o monarca costumava comer rapidamente e retirar-se para ler ou para ter conversas privadas. Adorava canja e doces. Por isso, o belíssimo livro “Os Banquetes do Imperador”, de André Boccato e Francisco Lellis, é tão precioso, mostrando o seu lado mais sofisticado e menos conhecido.

Em uma linda e cuidadosa edição, a publicação reúne 140 cardápios colecionados pela família real brasileira e guardados na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Naquela época, era comum guardar os menus, como se guardam os programas de ópera. A obra apresenta cardápios de jantares comemorativos oferecidos a autoridades estrangeiras ou como celebração de grandes datas, assim como o menu de hotéis, trens, navios e até de piqueniques. É o caso de um realizado na ilha de Paquetá, em 1883, onde foram servidos peixe ao molho tártaro, coxa de ave com aspargos, salada de frutas e sorvete de creme.

Os menus eram, em geral, pré-impressos na Europa e preenchidos aqui, com a lista dos pratos, na maioria das vezes, em francês. Um detalhe curioso é que a corte imperial, mesmo sob forte influência francesa, passou a oferecer pratos brasileiros. Aparecem itens da cozinha regional, como “churrasco à moda do Rio Grande do Sul”, “pudim de tapioca” ou “peito de peru à brasileira”, além de outros com elementos africanos, como o angu de quitandeira e o vatapá.

Há, ainda, cardápios de encontros de dom Pedro II com a realeza internacional, como o oferecido por Khédive Mohamed III, vice-rei do Egito, durante a visita do imperador brasileiro àquele país, cujo menu estavam filé de galinhola e faisões acompanhados de codornas e de salada verde. Ou, ainda, o do jubileu da rainha Victoria, da Inglaterra, em 1877, em que dom Pedro II tomou parte.

No Brasil, são palco desses jantares o famoso Cassino Fluminense, o próprio Palácio de São Cristóvão e hotéis da capital. O mais famoso, porém, segue sendo o baile da Ilha Fiscal, em novembro de 1889, oferecido à tripulação de um navio chileno. Nele, conta o livro, se consumiram nada menos 350 frangos, 18 pavões, 300 galinhas e mais de 10 mil garrafas de vinho. O baile armou-se enquanto a República era urdida perto dali e se tornou o símbolo do fim da monarquia.

– Márcia Pinna Raspanti.

Os Banquetes do Imperador – Receitas e Historiografia da gastronomia no Brasil do século 19
Autores André Boccato e Francisco Lellis
Editora Senac São Paulo e Editora Boccato

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