A Medicina obcecada pelo Sexo

Publicado em 18 de maio de 2014 por - História

O historiador pouco sabe de como se comportavam na cama, homens e mulheres. Mas sabe que os médicos, sobretudo os do século XIX, eram fascinados por sexo. A ciência permitia contrariar sutilmente certos interditos. Só ela autorizava olhar para a intimidade dos corpos. Desde os anos 1830, o especulo era usado. O gesto suscitava controvérsias: muitos maridos consideravam sua utilização como uma forma de estupro médico. O álibi científico servia, muitas vezes, para mascarar certas necessidades do desejo. Comentava-se sobre médicos que aliviavam, não sem prazer, suas pacientes histéricas, conduzindo-as a orgasmos repetidos graças a carícias. Isso, até que o apetite pelo remédio começasse a escandalizar a família dos pacientes. Em tempos de linguagem censurada, as teorias médicas eram as únicas autorizadas a falar sobre prazer e sexualidade.

Médicos e doutores não se contentaram em perseguir os desvios das relações conjugais: masturbação, histeria, ninfomania. Eles também debruçaram-se sobre questões como o coito e os embates conjugais. Aqui? Não. Na Europa. Mas com faculdades de medicina a pleno vapor no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, tais teses acabaram nas praias tropicais. Não faltaram livros do Dr. Monlau ou Garnier em suas bibliotecas.

Mas não se falava sobre sexo sem pisar em ovos. Basicamente, era preciso caracterizar todos os desvios para se criar uma estratégia justificada. Tudo o que não resultasse do coito disciplinado era errado! E ficava subentendido que os casais tinham que jurar fidelidade acima de tudo. Para falar do assunto, os médicos usavam a desculpa da “higiene sexual”. Assim, o escabroso tornava-se asséptico.

A leitura dos capítulos consagrados ao “coito” conduz, por exemplo, a uma constatação que não deixa de surpreender: os médicos exaltavam o orgasmo.  Todos concordavam que era o maior dos prazeres. Porque igualava o homem a Deus, ou, pelo menos à natureza. O prazer residia na criação que assegurava a sobrevida da espécie. E o médico não era mais do que o maestro desta grandiosa dramaturgia. Um funesto destino, porém, aguardava os esposos muito generosos. Pois o mais intenso dos prazeres acompanhava-se do exercício da mais perigosa das funções orgânicas. O espasmo masculino, voluptuosidade suprema, necessitava, segundo os médicos, de uma gestão severa e atenta. Pois a emissão do líquido seminal extraía o que havia de mais puro no sangue, impondo um esforço intenso. Certo doutor Alexandre Meyer chegava a comparar a perda de 30 gramas desta substância à hemorragia de 1200 gramas de sangue. Era urgente evitar o desperdício. Saber economizar prolongava a vida.

Pois, as obras médicas funcionavam como manuais de gestão espermática. Em cada página encontrava-se o temor do desperdício. Se a termodinâmica ensinava que o calor transformava-se em energia, da mesma forma, o prazer levava à perda da vitalidade. Daí os inúmeros debates na época consagrados aos efeitos benéficos ou maléficos da continência masculina. Ou ainda a gritaria contra a masturbação e a devassidão pré-nupcial. Chamava-se de “fraude nupcial” os “ignóbeis serviços” que podiam sujar a higiene da relação sexual: coito interrompido, masturbação recíproca, carícias buco-genitais, coito anal. Esposas estéreis ou na menopausa deviam ser evitadas. Nada de amores inúteis. Tais “messalinas” costumavam esgotar seus parceiros.

Os médicos do período também acreditavam que as mulheres tinham uma capacidade para gozar muito maior que a do homem. Essa superioridade engendrava uma aritmética ansiosa. Vários especialistas tentam calcular as potencialidades respectivas dos dois sexos, na esperança de exorcizar a angústia em torno de uma mulher insaciável. Um deles dizia que, nesse particular, uma mulher valia dois homens e meio. Nas hordas masculinas, a ansiedade só fazia crescer. Jamais se chorou tanto a perda da virilidade quanto nas últimas décadas do século. Daí a preocupação em construir uma escala numérica de performances, graduada de acordo com a idade dos esposos. Jovens: dois ou três coitos semanais. Aos 50 anos, o marido tinha que se contentar com um, a cada três semanas. E depois dessa idade, segundo os mesmos doutores, fim de linha; a proibição impunha-se.

Mas, enquanto o marido pródigo estafava-se e consumia, o “excesso” causava danos terríveis aos nervos delicados da esposa que não recebesse sua cota exata de semente masculina. Para isso, era preciso ser rápido. Nada de manobras voluptuosas, pois o importante era o poder da fecundação. O sucesso da relação sexual dependia do vigor do esposo e da rapidez do ato. Caso um marido bêbado demorasse fazendo amor, é porque ele perdera a força de fertilizar. Manobras eróticas também comprometiam o cronometro. Daí não haver queixas sobre a ejaculação precoce. E o coito matinal ser o preferido pelos médicos aos outros horários. Quem quisesse honrar sua esposa depois do jantar, que tivesse cuidado com a digestão! Nos países quentes, tal exercício era um perigo.

Se a boa gestão espermática e a fecundação constituíam aos olhos dos médicos o objetivo principal das relações sexuais, o prazer da esposa preocupava-os. Sim, pois era exagerado. Seu orgasmo incentivava interpretações contraditórias. Se se acreditava que a emissão da semente feminina era importante para a fecundação, por outro lado, o prazer podia levar a excessos. Coisa que não ficava bem numa mulher.  Mulher, então, sinônimo de pudor. Obcecados pelos riscos que o sexo feminino representava, os médicos recusavam à mulher qualquer iniciativa. Mais. Negavam as manifestações e até mesmo a existência do desejo feminino. Cabia, portanto ao marido regular a “enervação” da esposa, aplicando-lhe as doses homeopáticas do santo remédio da cópula.

Assim, o homem era responsável por uma tripla função: combinar a reserva espermática, a fecundação vigorosa e evitar a volúpia da parceira. O risco? Sem esse coquetel, o coito podia detonar “furores uterinos” – forças adormecidas nas mulheres normais, mas que eram reveladas por ninfômanas e histéricas.

Nos anos 1840-1850 dois médicos franceses, Pouchet e Négrier, descobrem os mecanismos de ovulação. A mulher cessou de ser considerada uma simples portadora de ovos para ter parte na Criação. Pois ela pagou um alto preço por isso. A espontaneidade da ovulação tornava inútil o orgasmo. Só a ejaculação masculina era indispensável. Por décadas os homens puderam esquecer as reações de suas parceiras. A necessidade de prazer lhes era oficialmente negada. Um ou outro doutor mais sensível invocava a possibilidade das esposas gozarem. Mas apenas como garantia contra a infidelidade. Era o medo do adultério que permitia um número maior de carícias.

Nesse quadro, tudo indica que a noite de núpcias fosse uma prova. Era o rude momento da iniciação feminina por um marido que só conhecia a sexualidade venal. Donde a prática da viagem de lua de mel, para poupar a família de uma ocasião constrangedora. Para diminuir o chocante da situação, o quarto do casal devia funcionar como um santuário da maternidade; a cama, o altar onde se celebrava a reprodução.

Em épocas de “darwinismo social” e higienismo, o terror inspirado pela degenerescência da prole era imenso. Ter filhos sadios implicava em algumas regras que cabia ao médico explicar. E elas sempre baseavam-se na “economia” do ato. Daí uma preocupação enorme com a iniciação da mulher. Nada de assaltos ferozes por parte do homem nem de conhecimentos por parte da mulher. Daí a importância da virgindade da jovem esposa. Ela obedeceria melhor a quem a iniciasse. Se essa se excitasse muito rapidamente, explicava certo Dr. Montalban, o melhor era virar de lado, para acalmá-la. “Posturas ilegítimas” também eram proibidas. O ideal é que o médico determinasse a melhor posição para a fecundação.

Mulheres queixando-se da falta de sexo? Nem pensar… E tudo misturando-se à valorização da vida espiritual que fazia do sexo, entre as mulheres, um verdadeiro sacrifício.  A valorização extrema da virgindade feminina, a iniciação sexual pelo homem experiente, a responsabilidade imposta pela medicina ao esposo faziam parte do horizonte de aflição que os casais tinham que enfrentar. Do lado delas, o risco era de sofrer acusações: de histérica, de estéril, de estar na menopausa, de ninfômana, de lésbica! Não faltavam anátemas para controlar o perigo da mulher não pacificada por uma gravidez.

O culto da pureza que idealizava as mulheres reforçava a distância entre os casais. Assim sendo, os homens não procuravam ter prazer com a mãe dos próprios filhos. Considerava-se que a familiaridade excessiva entre os pares provocava desprezo. Um sistema de ritos aprisionava o corpo da mulher. Corpo que, frente aos homens, devia mostrar-se corsetado, protegido por todo o tipo de nós, botões e laços. O resultado é que as mulheres tornavam-se beatas ou pudicas azedas, cumpridoras de seus deveres. E os homens, bastiões de um respeitoso egoísmo, abstendo-se de toda e qualquer demonstração afetivo-erótica em relação às suas esposas. A tradição religiosa acentuava a divisão de papéis. Para a Igreja, o marido tinha necessidades sexuais e a mulher tinha que submeter-se ao papel de reprodutora. Ideais, eram casais que se inspirassem em Maria e José, vivendo na maior castidade.- Mary del Priore

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“A Sagrada Família”, de Juan Carlos Boveri: modelo para os casais.

 

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